‘O Roubo do Século’: um dos melhores do ano

‘O Roubo do Século’: um dos melhores do ano

Rodrigo Fonseca

02 de outubro de 2020 | 09h20

Félix Monti carrega na sinestesia ao fotografar o thriller “El Robo Del Siglo”

RODRIGO FONSECA
Excetuando-se Lucrecia Martel (de “Zama”, que entra este mês pro menu da MUBI), Lisandro Alonso (“Jauja”) e Fernando E. Solanas (“Memória do Saqueio”), o cinema da Argentina lidou, nos últimos 40 anos – justamente seu período de apogeu nas telas do mundo, a partir de “A História Oficial”, de 1985 -, com a broma de ser uma filmografia de dois assuntos somente: ora é ditadura, ora é família. “Relatos Selvagens” (2014), fenômeno que rendeu-lhe indicação ao Oscar e à Palma de Ouro, quebrou esse paradigma maldoso, alimentado (por aqui sobretudo) pela inveja que o continente nutre da força de escrita dos roteiristas deles. Mas fora aquela genial comédia em episódios sobre descontroles existe uma outras linha temática que tem se tornado um filão entre nossos Hermanos: os filmes sobre golpes. Foi o que se viu no recente “A Odisseia dos Tontos” (2019) e, agora, no crocante “O Roubo do Século” (“El Robo Del Siglo”), visto por 2 milhões de pagantes em sua pátria e recém-lançado aqui. Dos títulos que chegaram na quinta ao Brasil, com a reabertura das salas de exibição, este e o britânico “Magnatas do Crime”, de Guy Ritchie, são a fina flor do nosso circuito neste momento. Há, todavia, um cheiro mais doce de surpresa no longa-metragem sul-americano, dada a habilidade com que seu realizador – o porteño Ariel Winograd, de 43 anos – para lidar com a cartilha de um subgênero, o “filme de assalto” lapidada em Hollywood por Sidney Lumet (“O Golpe de John Anderson”), Steven Soderbergh (“Onze Homens e Um Segredo”) e mesmo Quentin Tarantino (“Cães de Aluguel”). No Brasil, houve “Assalto ao Banco Central” (2011), canto de cisne de Marcos Paulo (1951-2012), que é bem melhor do que se fala por aí. Mas existe uma exuberância no thriller de tons cômicos de Winogard (cá conhecido pelo ótimo “Sem Filhos”) que remonta a um misto de sutileza com habilidade de subverter expectativas, sem quebrar o código de causalidade (ou seja, causa e efeito em cada ação) tão caro ao cinema dos argentinos. Embora cada gesto esboçado pelos envolvidos num assalto rocambolesco (ocorrido à vera, em 13 de janeiro de 2006, na província bonaerense de Acassuso) gere uma reação (física e moral), alimentando a aritmética vetorial da narrativa, as situações retratadas pelo cineasta são encapadas com o plástico bolha do inusitado, fazendo um “ploc!” de engenhosidade a cada movimento de uma sinuosa montagem (assinada por Pablo Barbieri Carrera, o mesmo de “Truman”). A fotografia de Félix Monti (de “O Auto da Compadecida” e do pilar “O Segredo de Seus Olhos”) também sabe ir além do classicismo, ziguezagueando epilética quando quer “sinestesiar” a plateia com a sensação de sufoco de seus personagens. Operando a partir de fatos reais, Winograd revive os bastidores da rapinagem ao Banco Del Río explorando a inteligência de seus assaltantes e a floresta de afetos que recheia cada um: escrita mais tridimensional, impossível. Sabemos bem quem é cada artesão da rapina em questão e os conflitos emocionais deles, sendo que dois são mais explorados. O primeiro é o golpista profissional Mário, um malandro uruguaio confiado ao sol Gillermo Francella (de “O Clã”), que nos dá uma mistura de maldade e carisma só vista nas telas do Walter White de “Breaking Bad”. O segundo é o artista plástico Fernando, que coube ao ator fetiche do realizador, Diego Peretti (“Tempo de Valentes”). Mario é um relógio suíço, capaz de ser agressivo quando necessário, mas sem perder o sorriso de “vem cá, meu anjo” em seus lábios arroxeados pelo fumo. Fernando, maconheiro que queima fumo como chaminé, é mais coração, usando seu cérebro de pintor, aberto a transcendências, para pensar estratégias. O Fernando real serviu de consultor para o roteirista e produtor Alex Zito, o que deu um colorido ainda mais vívido à reconstituição. Temos doses cavalares de tensão, criando vínculo com aquelas figuras tortas, que servem de espelho à nossa própria desesperança em relação às finanças da latina. Essa torpeza vem da percepção de que estamos diante de um filme divertidíssimo que não cessa, segundo algum, de esfregar em nossa cara a falência da harmonia bancária da América do Sul no que diz respeito às reformas sociais. Uma citação de Brecht faz uma analogia entre o roubo tramado por Fernando e o “roubo” executado dia a dia pelas instituições bancárias. É uma analogia oportunista mas que, AQUI, soa oportuna, uma vez que nos leva a inventariar as cicatrizes do capitalismo.
Foi no Kinoplex do Rio Sul que o P de Pop conferiu “O Roubo do Século” e a sessão foi aprovadíssima e saltitante: projeção nos trinques, som estalando de ajustado, limpeza assegurada, protocolos de segurança anticovid-19 em riste. A rede Severiano Ribeiro não nos desaponta jamais.

Confira a seguir a lista das 20 maiores bilheterias do cinema de nossos vizinhos:
1- Relatos salvajes (2014): 3.990.000
2- Nazareno Cruz y el lobo (1975): 3.400.000
3- El clan (2015): 2.655.000
4- El santo de la espada (1970): 2.600.000
5- Juan Moreira (1973): 2.500.000
6- El secreto de sus ojos (2009): 2.460.000
7- Martín Fierro (1970): 2.400.000
8- Manuelita, la tortuga (1999): 2.320.000
9- La tregua (1974): 2.200.000
10- Camila (1984): 2.165.000
11- Metegol (2013): 2.140.000
12- La Patagonia rebelde (1974): 2.100.000
13- El robo del siglo (2020): 2.050.000
14- Me casé con un boludo (2016): 2.030.000
15- Patoruzito (2004): 1.895.000
16- La odisea de los giles (2019): 1.845.000
17- Corazón de León (2013): 1.750.000
18- Mamá se fue de viaje (2017): 1.715.000
19- Papá se volvió loco (2005): 1.595.000
20- Un argentino en Nueva York (1998): 1.530.000

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