O riso conquista a Palma de Ouro com a consagração de ‘The Square’ em Cannes

O riso conquista a Palma de Ouro com a consagração de ‘The Square’ em Cannes

Rodrigo Fonseca

28 Maio 2017 | 15h41

“The Square” ganha a Palma de Ouro com seu humor ferino

RODRIGO FONSECA
Não pode existir transcendência maior para o estado de coisas da arte, em nosso tempo, do que uma comédia conquistar a Palma de Ouro, a mais reverenciada expressão da autoralidade no cinema mundial – e foi isso o que aconteceu neste fim de Festival de Cannes, quando a sabedoria de Pedro Almodóvar coroou um exercício de riso com o cobiçado troféu: a indigesta The Square, de Ruben Östlund. Encarado no balneário como sendo “o Toni Erdmann de 2017”, esta aula de humor negro (nigérrimo, aliás) abre feridas no mais íntimo lugar da alma europeia. Trata-se de um hilário ensaio sobre o constrangimento, dirigido por Ruben Östlund (de Força Maior) com foco no universo das artes plásticas. Sequências antológicas – como uma performance na qual um artista imita um gorila em um jantar de luxo ou uma entrevista mesclada a uma cantada – bastariam para fazer deste longa-metragem o mais provocativo de toda a competição. Mas há mais provocação do que isso no esforço de o diretor discutir o limite entre liberdade de expressão e terrorismo cultural.

Isso porque, na trama, vemos uma garotinha loura ser explodida a bombas num dos vídeos que o protagonista – o curador de Belas Artes Christian, vivido pelo ótimo Claes Bang – aprova para a sua nova instalação, a tal The Square. Trata-se de um ambiente interativo que se volta para o altruísmo e a tolerância do povo da Europa. Mas Christian exagera na dose. Um dos artistas, vivido pelo ator Dominic West (de 300), é xingado a cada palavra que dá durante uma entrevista como reação de um espectador com Síndrome de Tourette (cuja sequela é falar palavrões de modo incontinente).

Ao premiar uma narrativa ousada, livre e divertida, Almodóvar volta às suas raízes – o deboche – para mostrar o desgoverno de um mundo regido pelo caos. E como foi justo o prêmio de direção dado a Sofia Coppola, um reconhecimento mais do que urgente a uma cineasta que virou uma espécie de espelho para a ansiedade de que tem 30 e 40 e poucos. Seu O Estranho Que Nós Amamos é uma viagem no tempo com perfume de contemporaneidade. Que resultado delicioso.

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