O que Tribeca viu de melhor até agora

O que Tribeca viu de melhor até agora

Rodrigo Fonseca

16 de junho de 2021 | 07h38

Nana Mensah estrela e dirige “The Queen Of Glory”

Rodrigo Fonseca
Ansioso pela projeção de “Nem Um Passo Em Falso” (“No Sudden Move”), thriller de Steven Soderbergh, nesta sexta-feira, o Festival de Tribeca vem fazendo jus ao investimento de seu idealizador, Robert De Niro, na invenção e na resiliência, com uma seleção repleta de boas surpresas. Confira o que já se viu de mais potente nas telas de Nova York desde sua abertura, no dia 9:

“Queen of Glory”, de Nana Mensah: Taí aquele filme quindim que adoça a boca e torna um festival algo memorável. Abrilhantada por uma direção de arte refinadíssima, esta dramédia é um estudo sobre choque entre culturas (sobretudo na triste herança do sexismo) e uma exortação à harmonia familiar, apostando na sabedoria de sua estrela e também realizadora, Nana Mensah. No enredo, uma estudante de pós-doutorado do Bronx (vivida por Nana) quer deixar NY e ir para Ohio para perseguir seu amante, mas recebe a notícia de que herdou a livraria evangélica de sua mãe, uma imigrante de Gana. Ela não pode deixar a loja sem cuidar do funcionário mais querido daquele empório, um ex-condenado (interpretado por Meeko Gattuso com inteligência e humor). O roteiro constrói uma crônica sagaz de boas maneiras. A direção da fotografia apela para elementos de gramática documental, criando um ensaio realista particularíssimo sobre Nova York, libertando o Bronx de lugares comuns.

“We Need To Do Something”, de Sean King O’Grady: Uma jovem homossexual alvo da homofobia de seus parentes é obrigada a ficar trancada com sua família ultraconservadora no banheiro de sua casa para escapar de um tornado que devasta sua cidade. No lavado, o lado mais brutal de seus pais aflora, numa narrativa pontuada pelo terror.

“El Perfecto David”, de Felipe Gómez Aparicio: Gol da Argentina nos gramados NYorquinos. Sombrio do começo ao fim, com uma fotografia que desafia a placidez do realismo abrindo-se ao chiaroscuro, este drama ganha contornos de thriller psicológico ao explorar a psiquê alquebrada de um adolescente (Maurido Di Yorio) cuja meta é ter um corpo escultural, apelando para horas e horas de maromba – e solidão. Sua mãe (Umbra Colombo, em brilhante atuação) é uma artista plástica que usa o físico de seu rebento como forma de criar um estatuário apolíneo. E essa conjugação entre a arte de um e a sanha fisiculturista do outro caminha para a loucura, rendendo um filmaço.

“A Choice of Weapons: Inspired By Gordon Parks”, de John Maggio: Famoso por ter dirigido “Shaft” (1971), Gordon Alexander Roger Buchanan Parks (1912-2006) foi um dos pilares da fotografia americana, desafiando o racismo para retratar figuras como Malcolm X. Este .doc investiga seu legado estético e suas batalhas éticas.

“Nando”, de Alec Cutter: Narrado por Seu Jorge, este documentário em tons poéticos registra os sonhos futebolísticos do menino Luis Fernando Fernandes numa metáfora entre lagarta e borboleta. É uma coprodução Brasil – Chile – EUA na qual Fernando, que vive na Mangueira, sonha ver um jogo do Mengão no Maracanã, desafiando determinismos sociológicos.

“The God Committee”, de Austin Stark: Três promessas do audiovisual da década de 1990 dão um sopro de angústia a este drama hospitalar baseado em peça teatral de Mark St. Germain: Julia Stiles (de “10 Coisas Que Eu Odeio Em Você”), Janeane Garofalo (de “Feito Cães e Gatos”) e Kelsey Grammer (da série “Frasier”). A trama cartografa os conflitos de uma junta formada por médicos (Julia e Kelsey), uma administradora (Janeane) e um padre (Colman Domingo) para decidir quem deve receber um coração numa fila de transplantes de órgão.

“Wild Men”, de Thomas Daneskov: Fala-se já em indicações ao Oscar para a Dinamarca por conta da força dramatúrgica deste híbrido de comédia e thriller. Martin (Rasmus Bjerg) é um típico exemplar de cidadão de classe média que, cansado da guerra contra a rotina, muda-se para as florestas da Noruega vestido como um homem de Neandertal, buscando conexão com seus ancestrais. Mas ao esbarrar com um traficante em fuga, jurado de morte, eles terão de unir forças, numa amizade inesperada, que salva a sanidade de ambos.

“The Ballad of a White Cow”, de Maryam Moghadam e Behtash Sanaeeha: Feridas políticas se abrem, nesta mescla de drama e thriller jurídico, vinda do Irã, quando a protagonista, Maia, vivida pela diretora (Maryam), é informada de que seu marido, recém-executado pelo governo, morreu injustamente, sendo inocente de um crime que cometeu. Teve um destino similar ao da tal vaca do título, imolada em nome de um sacrifício em vão. Mas a parábola religiosa em torno do animal vai ser reaproveitada mais adiante, provando que até histórias sagradas podem ser relativizadas.

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