‘O que resta’, um caleidoscópio de desejos, ferve a mostra Estreias Cariocas

‘O que resta’, um caleidoscópio de desejos, ferve a mostra Estreias Cariocas

Rodrigo Fonseca

15 de março de 2019 | 14h19

Rodrigo Fonseca
Organizada sob os auspícios do diretor e produtor Cavi Borges, a mostra Estreias Cariocas abre um espaço para discussões afetivas e debates sobre identidades na programação do evento, que começou na quinta, no Estação Net Botafogo, com a projeção do esperado “O que resta”, de Fernanda Teixeira, nesta sexta-feira, 21h. Chega antes que o evento tá bombando, e deve ficar superconcorrido hoje, em função do prestígio da cineasta, que brilhou no Festival de Cannes de 2008 com o curta-metragem “A espera”. Uma das mais respeitadas diretoras de arte do país, Fernanda estreia na direção de longas com a história de Bárbara (Renata Guida) e Luiz (Guilherme Dellorto) que se refugiam da opressão do dia a dia na casa de uma amiga. No espaço, que já sediou festas memoráveis, os desejos e as angústias da dupla afloram. Bruna Linzmeyer é um dos destaques do elenco. Na entrevista a seguir, a realizadora disseca suas escolhas estética neste caleidoscópio sobre o querer.

Qual é o conceito de solidão que se desenha em “O que resta” e que dialoga com sua obra pregressa, nos curtas, na representação do vazio, do abandono, da desconexão afetiva?
Fernanda Teixeira:
Acho que “O que Resta” representa uma fase bem diferente das dos meus curtas em termos temáticos, ou pelo menos no que diz respeito aos personagens.  Quando eu exibi meus curtas, sempre fui muito questionada a respeito da escolha por uma temática da 3ª idade, por se tratar de um universo distante do meu. Acho que apesar dessa distância haviam temas ali que me interessavam. Mas no “O Que Resta” eu quis partir pra algo que de certa forma fosse mais próximo. Nesse sentido, meu interesse estava mais numa questão geracional, que de alguma forma permeia o projeto. Acho que os personagens do filme refletem coisas que se passam ao meu redor, sentimentos que identifico em mim ou nas pessoas próximas. E nesse sentido acho que muitas questões permeiam o filme, acho que as frustrações das próprias expectativas e das expectativas dos outros em relação a nós, e também de nossas em relação aos outros, essa espécie de solidão mesmo em conjunto que parece fazer parte do mundo atualmente, os relacionamentos a longo prazo, principalmente no que diz respeito aos amigos e a convivência com eles, e de como as pessoas as vezes evoluem para caminhos completamente distintos (e muitas vezes distantes), mas também é sobre a importância de estar perto, de estar junto e sobre o impacto que essas relações que se constroem ao longo de muitos anos e que são complexas e cheias de facetas distintas tem nas nossas vidas. Acho que o vazio nesse caso é muito mais o vazio interno de cada personagem e de como cada um lida com essa com essa sensação e como isso reflete nessas relações em grupo, em sociedade. Apesar da temática do filme tomar um rumo bem diferente da dos curtas anteriores, existe ainda uma afinidade grande entre eles, sobretudo no que diz respeito a relação com o tempo, seja o tempo na vida dos personagens, seja o próprio tempo fílmico e como esse desenrola a narrativa. Eu diria ainda, que algumas das sementes desse roteiro, nasceram ainda da experiência dos curtas, principalmente do “Uma, Duas Semanas”, que também foi escrito em parceria com o Ismar Tirelli Neto.

Qual é o peso que a troca com outros diretores, em seu trabalho de cenografia e direção de arte, teve nessa sua experiência na direção de longas?
Fernanda Teixeira:
 Eu diria que meu trabalho como diretora de arte (em paralelo ao meu de diretora) me ajuda a estar sempre na ativa. Mais do que a troca ou a influência que algum trabalho pontual possa ter exercido, acho que a grande vantagem é essa de estar sempre em atividade, nessa constante vivência do set. Muitas vezes o trabalho de um diretor/roteirista (principalmente no cinema independente) é um trabalho feito a longo prazo. É preciso tempo (e muito trabalho) entre concretizar um projeto e outro, o que acaba de certo modo dificultando essa prática de set do diretor. Nesse sentido, estar ativa em outras funções no cinema e na tv é sempre um privilégio doe uma infinita fonte de experiências. Acho que a troca que mais influência o meu trabalho, e especialmente esse filme, é a troca continua que é proporcionada por essa vivência de trabalhar com cinema no dia a dia. Algumas das pessoas que foram fundamentais pra realização desse filme eu conheci enquanto atuava em outros filmes, em outras funções. Essa vivência em outros trabalhos ajuda também a reforçar essas parcerias que foram o ponto fundamental na realização desse projeto. Posso destacar aqui especialmente a colaboração do fotógrafo Vinicius Brum, que além de amigo de longa data é também presença constante em outros sets e parceria essencial nesse projeto . E também o PH Souza, produtor do filme junto comigo, com quem havia realizado alguns trabalhos em conjunto antes de partimos pra essa empreitada. Foi também com essa vivência de outros projetos que conheci alguns dos atores do filme como a Renata Guida, Guilherme Dellorto, Gustavo Novaes e Pedro Monteiro, além de boa parte da equipe que acabou integrando o filme. E essa sim foi a base fundamental pra esse projeto e que foi construída ao longo dos anos trabalhando perto dessas pessoas incríveis.

Qual é o lugar do corpo – como espaço de prazer e lugar de identidade – neste universo do teu filme?
Fernanda Teixeira:
 Acho que o lugar do corpo no universo do filme é sobretudo o lugar da liberdade, principalmente da liberdade individual. A liberdade de ser o que se é. E é como deveria ser em qualquer universo. Uma coisa que me interessava muito durante a construção do roteiro e posteriormente na montagem, era evitar ao máximo criar rótulos pra esses personagens, não enquadra-los em perfis bem delimitados ou estreitos. Não queria um antagonista. Eu queria que eles fossem contraditórios por vezes. Ninguém é apenas uma coisa e ninguém é da mesma forma o tempo todo, a vida toda. As pessoas são fluídas, assim como o tempo, mas claro, mantendo a essência. Quis evitar, ao máximo, que o “julgamento”  sobre os personagens e suas ações estivesse dentro do filme, pra mim isso deveria estar da tela pra fora. É algo que o espectador deveria agregar ao projeto, dependendo da forma que cada um observa cada personagem e o que mais lhe atrai ou identifica em cada um deles. Tanto que é um filme construído de momentos, onde o “depois” das coisas pouco importa.

A mostra Estreias Cariocas segue até o dia 20, sempre às 21h, no Estação Net Botafogo. No sábado, tem “Reviver”, que Cavi e Patrícia Niedermeier dirigiram a quatro mãos e dois corações. No domingo, confira “As mil mulheres”, de Rita Toledo e Carol Benjamin. No dia 18, rola “A história de um Silva”, de Marcelo Gularte, sintonizado com o maior poema épico nacional dos últimos cem anos: “O rap do Silva”. Dia 19, a atração é “Sonho de Rui”, que Cavi dirigiu com o jornalista e bamba do humor Ulisses Mattos. O fechamento dessa seleção de ouro fica por conta de “Os últimos dias de Copacabana Jack”, de Rob Curvello.

p.s.1: Enfim o delicioso “Le grand bain”, de Gilles Lellouche, vista por 3,9 milhões de pagantes na França, chega ao Brasil: dia 21, a comédia sobre um grupo de quarentões (e alguns já bem cinquentões) fracassados unidos pelo nado sincronizado estreia por aqui com o título de “Um banho de vida”. Mathieu Amalric e Jean-Hughes Anglade integram o elenco, que escala a atriz Virginie Efira como a treinadora alcoólatra dos protagonistas;

p.s. 2: É tarde… tipo 4h… mas se você tiver insônia hoje, confira o bom desempenho de Adam Sandler fazendo drama em “Reine sobre mim” (2007). A dublagem de Alexandre Moreno, em si, já é um atrativo para se conferir o desempenho do astro como um dentista que perder a mulher e as filhas no 11 de Setembro;

p.s.3: Visto por cerca de 500 mil pagantes em duas semanas em cartaz no Brasil, “A caminho de casa”, uma aventura canina recheada de afeto e tensão, traz um desempenho impecável da dubladora Miriam Ficher como a voz da cachorrinha Bella (Bryce Dallas Howard, no original). A direção é de Charles Martin Smith, um dos “Intocáveis” de Brian De Palma.