O que esperar de um Globo de Ouro proscrito

O que esperar de um Globo de Ouro proscrito

Rodrigo Fonseca

09 de janeiro de 2022 | 10h10

Ben Affleck é o favorito ao Globo de Ouro de melhor coadjuvante por “Bar Doce Lar” (“The Tender Bar”), hoje na Amazon Prime

RODRIGO FONSECA
Faltam poucas horas para o Globo de Ouro de 2022 ser entregue e nada… nadinha… se sabe de potenciais vencedores, de favoritismos, ou sequer da execução do evento, que perdeu o status cerimonial de que desfrutou desde a década de 1940. Proscrita por irreparáveis erros de conduta ética, a premiação anual da Hollywood Foreign Press Association (HFPA), outrora uma instituição de prestígio, ao reunir jornalistas correspondentes estrangeiros ligados à imprensa cinematográfica, hoje caiu em desgraça e foi rejeitada por estrelas do mais alto quilate. Até por estrelas que só alcançaram algum status pós terem sido premiadas pelo colegiado que hoje tripudiam. Mas ao receber críticas pela falta de representatividade entre seus votantes (com a presença diminuta de populações negras e falta de diversidade nos mais variados e essenciais segmentos de sua mirada para a realidade), a HFPA perdeu apoiadores, inclusive a parceria de transmissão do canal NBC, e viu sua relevância no ranking da chamada Oscar Season (a temporada do Oscar) despencar. Nem live streaming – transmissão na web – ela vai ter, uma vez que os astros famosos declinaram de apoiá-la. Mesmo assim, a entrega de suas estatuetas, conferidas a filmes e séries de TV, foi mantida para este 9 de janeiro, em uma cerimônia fechada, para poucos de seus integrantes, em Los Angeles. E dois filmes pilotados por realizadores de nações anglófilas despontam como favoritos, por terem empatado com o maior número de indicações entre os concorrentes da ala cinematográfica do evento: “Ataque dos Cães” (“Power of the Dog”), da neozelandesa Jane Campion, e “Belfast”, do irlandês Kenneth Branagh. Jane foi consagrada como a primeira mulher a ganhar a Palma de Ouro, por “O Piano”, em 1993. Branagh ganhou notoriedade por ser um dos maiores especialistas na obra de Shakespeare, ao filmar “Henrique V” (1989) e “Hamlet” (1996).
Jane ganhou o prêmio de melhor direção no Festival de Veneza por esse western sobre desejos represados, onde Kirsten Dunst vive uma alcóolatra soterrada por uma aristocracia excludente. O algoz de sua personagem, em “Ataque dos Cães” (que estreou com a chancela da Netflix), é seu cunhado, um vaqueiro homofóbico (mas cheio de segredos) vivido pelo inglês Benedict Cumberbatch, o Dr. Estranho da Marvel. Sua atuação, à la Marlon Brando em “O Pecado de Todos Nós” (1967), é a mais cotada para ganhar na categoria de melhor ator de drama da HFPA. Seu maior rival é Will Smith, por “King Richard: Criando Campeãs”. Kirsten deve ler o Globo de coadjuvante também, tendo Ruth Negga, indicada por “Identidade”, como sua maior rival. E o prêmio de melhor realização, que tem Spielberg no páreo, com “West Side Story” (um fiasco monumental), tem tudo para ficar com Jane. Já o Globo de melhor atriz de drama vai encontrar um pouco nas mãos de Olivia Colman, por “A Filha Perdida”.

Jane Campion no set de “Ataque dos Cães”: prêmio de melhor direção em vista

Isso é o que se passa na linha dramática do Globo dourado, pois, na seara Comédia-Musical, reina soberano como “a” aposta “Licorice Pizza”, do bamba Paul Thomas Anderson, e a performance do ator Andrew Garfield em “Tick, Tick… Boom!”. Só DiCaprio, em “Não Olhe Para Cima”, pode destroná-lo. Entre as atrizes, a principal performance cômica é a de Alana Haim, pelo filme de PT Anderson, centrado na juventude dos EUA dos anos 1970.
Que ninguém esqueça, por favor, de premiar Ben Affleck, como melhor coadjuvante, por “Bar Doce Lar” (“The Tender Bar”), um dos filmes mais doces do ano, hoje na grade da Amazon Prime. E que “Fuga” (“Flee”) – desenho sobre o calvário de um intelectual afegão – leve para a Dinamarca o prêmio de melhor animação. Já o Globo de Ouro de melhor filme de língua não inglesa merece ir pro Japão de Ryusuke Hamaguchi por “Drive My Car”.
No dia 8 de fevereiro serão conhecidos os indicados ao Oscar. No dia 27 de março, a Academia entrega suas estatuetas.

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