‘O Príncipe Esquecido’ é lembrado pela HBO Max

‘O Príncipe Esquecido’ é lembrado pela HBO Max

Rodrigo Fonseca

09 de maio de 2022 | 15h50

Omaar Sy estrela a fábula “O Príncipe Esquecido” (“Le Prince Oublié”, hoje na grade da HBO Max

Rodrigo Fonseca
Há uns quatro dias, desde a estreia de “Os Opostos Sempre Se Atraem” (“Loin du Périph”), na Netflix, a streaminguesfera não tira Omar Sy (de “Lupin”) da cabeça. E ao astro de 44 anos vai estar no 75º Festival de Cannes, no dia 18 de maio, para exibir “Tirailleurs”, drama da I Guerra, dirigido por Mathieu Vadepied, na abertura da mostra Un Certain Regard. Ele anda em alta. E nessa comédia policial lançada no universo netflixiano na semana passada, ele esbanja carisma, sob aa direção de Louis Leterrier. Passados 14 anos de “O Incrível Hulk” (2008), um dos mestres franceses da ação ensaia uma retomada da fórmula de “Máquina Mortífera” com Sy e Laurent Lafitte. Na trama, eles são dois policiais de caráter muito diferente que se reúnem, dez anos depois de um hiato profissional e fraterno, a fim de investigarem um assassinato. Ronaldo Julio dubla Sy e Marcelo Garcia empresta o gogó a Lafitte na versão brasileira. Mas há outro filmaço com Sy, nas palataformas, que merece atenção. “O Príncipe Esquecido” (“Le Prince Oublié”, de 2020), que está na grade da HBO Max.

“Os Opostos Sempre Se Atraem” faz sucesso na Netflix

Lançado comercialmente três semanas antes de a primeira quarentena na Europa começar, em fevereiro de 2020, “O Príncipe Esquecido” teve chance de vender 862 mil ingressos antes de as salas exibidoras fecharem, encerrando seus sonhos de virar uma das maiores bilheterias da França nos últimos anos. Arranhou a marca de 907 mil ingressos no fim de suas contas naa terra de François Truffaut. Esse resultado frustrou as expectativas de seu diretor, Michel Hazanavicius, que vai inaugurar Cannes, no dia 17, com a comédia de zumbis “Coupez!”. Só esse convite, para inaugurar a seleção da Croisette em 2022, já é suficiente para provar que o coronavírus não prejudicou plenamente a sorte do artesão por trás de “O Artista”, um ímã de Oscars, em 2012. Como carisma de Sy está em alta, ele vem conseguindo um bom espaço pra (re)apresentar a fantasia bem-humorada sobre amor paterno e ciúmes que dirigiu amparado no talento do astro de “Intocáveis” (2011).
“Sy é um astro nato, mas ele impressiona, e muito, para além de seu carisma, pela radical disponibilidade com que se entrega aos papéis”, disse Hazanavicius ao P de Pop durante o Rendez-vous Avec Le Cinéma Français, o fórum anual da Unifrance (órgão governamental de promoção audiovisual europeu), em 2020.
Estima-se que “Le Prince Oublié” custou € 20 milhões. A combinação da grife Hazanavicius com o sorriso magnético de Sy, justifica o orçamento polpudo de um filme – a um só tempo divertidíssimo e tocante – cuja engenharia de efeitos visuais impressionaria Hollywood. “Não estamos acostumados, na França, a filmes nos quais os efeitos são chamarizes. Também não é muito recorrente por aqui o que se chama de ‘filme família’. Mas tentamos seguir pelos dois caminhos, conversando com públicos infantojuvenis, a partir de criaturas mágicas e situações fantásticas. Tentamos, ao mesmo tempo, falar com os adultos, pelo prisma da angústia do ninho vazio, do desapego dos filhos quando eles adolescem. Fui levar meu caçula para uma projeção e ele ficava me cutucando e dizendo: ‘Pai, isso aqui tem a ver com o senhor não tem não? É a sobre a gente, né’. Danado, ele”, brincou Hazanavicius, que, antes das cifras GG de “O Artista” (custou US$ 15 milhões e faturou US$ 133 milhões), mobilizava olhares com a franquia “OSS 117” (feita de 2006 a 2009), com Jean Dujardin na pele de um atrapalhado espião.

Aliás, Dujardin retomou esse personagem em “OSS 117: Alerte rouge en Afrique noire”, que encerrou Cannes em julho passado. “Aquilo era o auge da desmistificação do heroísmo, uma esculhambação com os heróis clássicos”, diz Hazanavicius, que visitou o Brasil em 2017, para lançar “O Formidável”. “O que a gente traz agora com o Príncipe de Omar Sy é uma situação distinta. É o heroísmo da vida cotidiana, a batalha para manter uma família unida”.
Numa atuação antológica, Sy vive Djibi, um contador de histórias profissional, que embala os sonhos de sua filha, Sofia (a ótima Sarah Gaye), com fábulas nas quais ele é um nobre guerreiro, cercado por criaturas nada ortodoxas como um ser de plástico cujo corpo serve de aquários para peixinhos coloridos. Em seu reinado, ele é amado por todos. Isso, pelo menos, até Sarah entrar na adolescência e começar a se incomodar com o jeitão abilolado e infantilizado de seu pai. A situação dele piora quando ela se apaixona por um coleguinha de sala, Max (Néotis Ronzon), e passa a ignorar a companhia paterna. O rapaz se torna o novo príncipe, o que põe o reino de Djibi em risco de destruição, abrindo uma deixa para um vertiginoso tom de aventura. Em paralelo, o personagem de Sy, entrado em um modo decadência, começa a travar uma relação com uma vizinha sem noção interpretada pela atriz Bérénice Bejo, mulher de Hazanavicius na vida real. “Não temos uma engenharia padrão Marvel de efeitos. O que temos talvez soe algo primário se comparado mesmo com um filme de animação, como os da Pixar, que foram minha inspiração aqui, nesta incursão num terreno fantástico. Mas eles, na América, têm um orçamento muito superior ao que tivemos, que é alto para o padrão europeu, mas que não é nada perto do que se faz nos EUA. Mas não ter muito dinheiro não significa não ter muita criatividade”, explica o diretor. “Muita gente critica os filmes de super-heróis, mas esse é o filão que manteve a fantasia viva entre as novas gerações. E a fantasia alivia nossa angústia diante das repressões”.

“Coupez” vai abrir o 75º Festival de Cannes no dia 17

No Festival de Annecy, também na França, de 13 a 18 de junho, Hazanavicius vai exibir uma versão inacabada (work in progress) de “La Plus Précieuse Des Marchandises”, um longa de animação. Sua trama é baseada na prosa de Jean-Claude Grumberg, sobre os bastidores do campo de concentração de Auschwitz, na batalha de um jovem para sobreviver ao Holocausto.

p.s.: Com direção de Isaac Bernat e dramaturgia de Leonardo Simões, o espetáculo “Cora do Rio Vermelho” estreia nesta quinta-feira, às 21h, no Teatro Poeirinha, em Botafogo. O monólogo com Raquel Penner reúne passagens da vida e da obra da poeta, contista e doceira Cora Coralina, que falam sobre a força feminina e a alma da mulher brasileira. A peça também propõe uma relação de cumplicidade entre atriz e plateia, com perguntas e provocações.

p.s.2: Tá sem novidades pra ver na streaminguesfera? Então dê uma zapeada na Netflix e confira “Ajuste de Contas” (“A Score to Settle”, 2019), de Shawn Ku. Mesmo afogado num oceano de escolhas infelizes, Nicolas Cage nunca deixou de ser um ator de talento, respeitado por seus dites dramáticos. E vez por outra, as produções B que ele estrela surpreendem por requinte dramatúrgico, como é o caso deste tensíssimo thriller no qual ele vive um presidiário recém-liberto que se embrenha numa cruzada de vingança ao mesmo tempo em que vive a chance de ser pai, com um filho que não pôde criar. Leonardo Camilo dubla Cage.

p.s.3: Nesta terça, a “Sessão da Tarde” da TV Globo exibe o drama “O Que Te Faz Mais Forte” (“Stronger”, 2017), de David Gordon Green, que traz Jake Gyllenhaal em refinada atuação.

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