‘O Príncipe Esquecido’ de que não se esquece

‘O Príncipe Esquecido’ de que não se esquece

Rodrigo Fonseca

22 de março de 2021 | 11h25

Omar Sy se refugia na fantasia de sua imaginação no filme de Michel Hazanavicius

Rodrigo Fonseca
Lançado comercialmente três semanas antes de a primeira quarentena na Europa começar, em fevereiro de 2020, “Le Prince Oublié”, previsto para ser lançado aqui como “O Príncipe Esquecido” (em tradução literal), teve chance de vender 862 mil ingressos antes de as salas exibidoras fecharem, encerrando seus sonhos de virar uma das maiores bilheterias da França nos últimos anos. O recorde dos franceses em meio ao surto global da covid-19 foi a comédia “Les Blagues de Toto”, adaptação da HQ de Thierry Coppée, vista por 858 mil pagantes. Esse resultado frustrou ainda mais as expectativas do diretor Michel Hazanavicius, o realizador da fábula sobre um pai sonhador, que foi ignorado quando saíram as indicações ao troféu César (o Oscar da terra de Truffaut), apesar de suas mil virtudes. O site Internet Movie DataBase (IMDB) previa que sua estreia cá entre nós ocorreria em fevereiro, mas não rolou. Contudo, o recente êxito mundial de “Lupin”, na Netflix, catapultou para o Infinito (e além) a popularidade de Omar Sy, o astro de Hazanavicius – aliás, se você não estiver se lembrando dele, trata-se do realizador de “O Artista”, um ímã de Oscars, em 2012. Agora, pelo mundo afora, todos os canais de TV, todas as plataformas de streaming e todos os circuitos abertos anseiam por filmes zero KM com Sy, além de repetirem “Intocáveis” (2011) à exaustão. E nada cai melhor do que esta fantasia bem-humorada sobre amor paterno e ciúmes.
“Sy é um astro nato, mas ele impressiona, e muito, para além de seu carisma, pela radical disponibilidade com que se entrega aos papéis”, disse Hazanavicius ao P de Pop durante o Rendez-vous Avec Le Cinéma Français, o fórum anual da Unifrance (órgão governamental de promoção audiovisual europeu), em 2020.
Estima-se que “Le Prince Oublié” custou € 20 milhões. A combinação da grife Hazanavicius com o sorriso magnético de Sy, justifica o orçamento polpudo de um filme – a um só tempo divertidíssimo e tocante – cuja engenharia de efeitos visuais impressionaria Hollywood. “Não estamos acostumados, na França, a filmes nos quais os efeitos são chamarizes. Também não é muito recorrente por aqui o que se chama de ‘filme família’. Mas tentamos seguir pelos dois caminhos, conversando com públicos infantojuvenis, a partir de criaturas mágicas e situações fantásticas. Tentamos, ao mesmo tempo, falar com os adultos, pelo prisma da angústia do ninho vazio, do desapego dos filhos quando eles adolescem. Fui levar meu caçula para uma projeção e ele ficava me cutucando e dizendo: ‘Pai, isso aqui tem a ver com o senhor não tem não? É a sobre a gente, né’. Danado, ele”, brincou Hazanavicius, que, antes das cifras GG de “O Artista” (custou US$ 15 milhões e faturou US$ 133 milhões), mobilizava olhares com a franquia “OSS 117” (feita de 2006 a 2009), com Jean Dujardin na pele de um atrapalhado espião.

Aliás, Dujardin acaba de retomar esse personagem em “OSS 117: Alerte rouge en Afrique noire”, previsto para abril. “Aquilo era o auge da desmistificação do heroísmo, uma esculhambação com os heróis clássicos”, diz Hazanavicius, que visitou o Brasil em 2017, para lançar “O Formidável”. “O que a gente traz agora com o Príncipe de Omar Sy é uma situação distinta. É o heroísmo da vida cotidiana, a batalha para manter uma família unida”.
Numa atuação antológica, Sy vive Djibi, um contador de histórias profissional, que embala os sonhos de sua filha, Sofia (a ótima Sarah Gaye), com fábulas nas quais ele é um nobre guerreiro, cercado por criaturas nada ortodoxas como um ser de plástico cujo corpo serve de aquários para peixinhos coloridos. Em seu reinado, ele é amado por todos. Isso, pelo menos, até Sarah entrar na adolescência e começar a se incomodar com o jeitão abilolado e infantilizado de seu pai. A situação dele piora quando ela se apaixona por um coleguinha de sala, Max (Néotis Ronzon), e passa a ignorar a companhia paterna. O rapaz se torna o novo príncipe, o que põe o reino de Djibi em risco de destruição, abrindo uma deixa para um vertiginoso tom de aventura. Em paralelo, o personagem de Sy, entrado em um modo decadência, começa a travar uma relação com uma vizinha sem noção interpretada pela atriz Bérénice Bejo, mulher de Hazanavicius na vida real. “Não temos uma engenharia padrão Marvel de efeitos. O que temos talvez soe algo primário se comparado mesmo com um filme de animação, como os da Pixar, que foram minha inspiração aqui, nesta incursão num terreno fantástico. Mas eles, na América, têm um orçamento muito superior ao que tivemos, que é alto para o padrão europeu, mas que não é nada perto do que se faz nos EUA. Mas não ter muito dinheiro não significa não ter muita criatividade”, explica o diretor. “Muita gente critica os filmes de super-heróis, mas esse é o filão que manteve a fantasia viva entre as novas gerações. E a fantasia alivia nossa angústia diante das repressões”.
Hoje, Hazanavicius prepara um longa de animação: “La plus précieuse des marchandises”, cuja trama é baseada na prosa de Jean-Claude Grumberg, sobre os bastidores do campo de concentração de Auschwitz, na batalha de um jovem para sobreviver ao Holocausto.

p.s.: Que joia é “Cabras da Peste”, de Vitor Brandt, não só em relação ao humor sabido (é de encher o peito de alegria a intimidade do longa com o filão “buddy cop”), mas também em seus enquadramentos. E a dupla Edmilson Filho e Matheus Nachtergaele (em estado de graça) se encaixam como Jack Lemmon e Walter Matthau. Impecável.

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