O polêmico ‘mãe!’ vem dar à luz em San Sebastián

O polêmico ‘mãe!’ vem dar à luz em San Sebastián

Rodrigo Fonseca

24 de setembro de 2017 | 13h23

Darren Aronofsky dá instruções à atriz Jennifer Lawrence no set de “mãe!”, uma produção de US$ 30 milhões que terá sessão no festival espanhol

Rodrigo Fonseca
Desprezado no circuito exibidor americano, onde foi engolido pela estreia do novo (e promissor) Kingsman, o polêmico mãe! (mother!) vem a San Sebastián nesta quarta, aquecer ainda mais a já caliente temperatura local à força das reflexões judaicas de Darren Aronofsky sobre a condição humana. Nas bilheterias globais, esta produção de US$ 30 milhões beira US$ 25 milhões em sua arrecadação. Mas pode chegar a mais, se o público se deixar embarcar no delirante mergulho do realizador de O Lutador (2008) – para citar o ápice narrativo de uma sólida carreira – no Velho Testamento, de onde extraiu um espetáculo de quiprocós vestidos de paranoia.

Cronista do excesso, especializado em figuras exuberantes cujo viço é comprometido pela desmesura – seja de drogas, como em Réquiem Por Um Sonho; seja de esperança no amor, em A Fonte da Vida; seja na perfeição, como em Cisne Negro; seja na Fé, o que era o caso de Noé –, Aronofsky faz da Sagrada Escritura e dos escritos do Talmude seus prismas de entendimento do mundo. Em mãe!, Jennifer Lawrence encarna uma versão humana (e fraturada) da Tradição. Entenda Tradição como a soma das virtudes que balizam positivamente as ações humanas, como a maternidade. Na trama, em forma de oroboro (a serpente que devora o próprio rabo), ela é só uma menina, sem nome, casada com um escritor de alto quilate (Javier Bardem, perfeito), que a trata com desdém. Tudo na relação deles muda (pra pior) com a chegada de um casal de potenciais vizinhos, vividos por Ed Harris e por uma mefistofélica Michelle Pfeiffer (em seu melhor trabalho em anos). Eles se instalam na casa de Jennifer e Bardem e, aos poucos, levam a moça a devorar a maçã da curiosidade, conduzindo-a ao Éden da loucura, uma P.A. e P.G. de desgovernos, soluços e destemperanças.

Fotografado em tons ocres caramelados por Matthew Libatique, o pandemônio que se instaura na tela é um berro histérico de alerta sobre o nosso descontrole. Um grito dionisíaco: imperfeito, mas obrigatório, como todo bom Aronofsky é.

Falando em loucura… ela reina em The Third Murder, uma surpresa japonesa que fez San Sebastián tremer ao conhecer um lado novo do diretor Hirokazu Kore-Eda (de Ninguém Pode Saber) radicalmente distinto de seu estilo afetivo: um thriller judicial com mortes, viradas bruscas e heroísmo policial. Tudo isso faz parte dos 125 sombrios minutos deste suspense de tribunal sobre um jurista às voltas com um potencial condenado á morte que pode ser inocente.

 

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