O picadeiro de Cacá, a caminho dos 80 anos

O picadeiro de Cacá, a caminho dos 80 anos

Rodrigo Fonseca

07 de maio de 2020 | 12h05

Rodrigo Fonseca – #FiqueEmCasa
Falta pouco – pois dia 19 já está aí na porta – para Cacá Diegues chegar aos 80 anos, e seu mais recente exercício poético, “O Grande Circo Místico”, acaba de ganhar uma sobrevida na web, no Now Online, em paralelo a uma exibição do filme na TV a cabo, agendada para o dia de seu aniversário, no Canal Brasil, onde ele ganha uma merecida retrospectiva de sua obra. E isso em um momento em que o diretor, escritor e imortal da ABL prepara o roteiro da continuação de seu “Deus é Brasileiro” (2003). A mostra no CB rola sempre às terças-feiras, às 23h45: dia 12 é vez de “Bye bye, Brasil” (1979), pelo qual ele conquistou a primeira de suas três indicações à Palma de Ouro no Festival de Cannes. Foi indicado também com “Quilombo” (1984) e “Um Trem Para as Estrelas” (1987).

Atração brasileira mais imponente de Cannes em 2018, com direito à projeção de gala, “O Grande Circo Místico” nasce da poética de Jorge de Lima (1893-1953), em “A Túnica Inconsútil” (1938). Ele é a apoteose da relação amorosa de um dos mais distintos cineastas da América Latina com a poesia, algo curioso para um realizador comprometido, domingo a domingo, à produção de artigos para jornais. Ao longo de cinco décadas de carreira, Diegues, o Cacá, já escreveu muitas coisas, além de roteiros. Fez a autobiografia de sua geração, escreveu ensaios sobre a reestruturação econômica de nosso audiovisual, rascunhou reflexões com cara de poema… Enfim…, muito texto! Texto demais para um bicho da imagem. Mas um bicho da imagem egresso de um processo de formação intelectual no qual se lia demais, indo de Gilberto Freyre a Jorge Amado, de Graciliano Ramos a Sérgio Buarque. Não era de se espantar que as palavras brotassem dele. Por praxe da fricção artística, esperar-se-ia que as palavras brotassem daí como romance ou conto, mas foi por meio de poemas de Jorge de Lima (1893-1953), um autor nascido nas Alagoas, como Cacá, que o cineasta produziu (e realizou) seu melhor filme em muitos anos.

Foram necessários 12 anos para que Cacá regressasse às veredas da ficção, após ser laureado no Festival de Montreal com “O maior amor do mundo” (2006), o momento mais truffautiano de uma filmografia iniciada no formato longa-metragem em 1964, com “Ganga Zumba”. Mas “O Grande Circo Místico” – um livre diálogo com os poemas de Jorge de Lima, no livro “A túnica inconsútil”, de 1938 – enfim chegou, como prova de que a espera foi compensada pela excelência. Desde “Bye bye, Brasil” (1979), sua obra-prima, Cacá não vinha tão visceral, lúdico e sem medo de ser erótico, num momento em que voltamos à Idade Média no que envolve à discussão do desejo e da carnalidade.
Existe em cena um toque de fantasia traduzido em efeitos especiais, em personagens inusitados e na fotografia quase expressionista de Gustavo Hadba, cuja luz acentua o assombro sob um picadeiro de excessos. A parceria com o roteirista George Moura (de joias televisivas como “Onde nascem os fortes”), dono de uma particularíssima estética antropológica interessada na selvageria inata aos processos civilizatórios, deu ao cineasta a possibilidade de estudar as transformações afetivas do Brasil ao longo dos cem anos que seu filme condensa. A trama – transformada em balé por Naum Alves de Souza, em 1983; e em peça musical, por João Fonseca, 2014 – mapeia um século na vida de uma trupe circense amaldiçoada por paixões tempestuosas, pela pressa da Morte em abreviar vidas felizes e pelo machismo. O francês Vincent Cassel empresta seu charme ao filme na pele de um mágico Don Juan que sintetiza em sua empáfia todas as chagas humanas daquela lona de múltiplos misticismos. Cabem ainda nessa lona todos os traços autorais de Cacá (a etnografia da sobrevivência, a magia da fé, as mulheres empoderadas). Num momento de apogeu como cronista, eleito para a Academia Brasileira de Letras, o diretor arranca atuações viscerais de seu elenco, sobretudo de Luiza Mariani – como uma bagaceira refém da fossa – e de Mariana Ximenes, na pele de uma rancorosa trapezista tatuada. Elas são estrofes iluminadas neste poesia em forma de filme.

p.s.: Percebe-se que o mundo ainda tem solução quando um site do porte reflexivo do MUBI (www.mubi.com) abre suas fileiras para “Hellraiser – Renascido do Inferno” (1987), dirigido pelo escritor Clive Barker. Na trama, uma mulher adúltera encontra uma versão desmorta de seu amante sob o cerco de criaturas perpétuas chamadas Cenonitas, ligadas a um cubo mágico capaz de deslacrar os portões do Império de Satã. Entre elas está o assustador Pinhead.

p.s. 2: Há um filme imperdível na grade do streaming nacional Globoplay: o thriller jurídico sul-africano “Cordeiros e Carrascos” (“Shepherds and Butchers”), de Oliver Schmitz, que poderia fácil dar um prêmio de melhor ator a Steve Coogan (de “Philomena”) sobre um advogado em defesa de um carcereiro.

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