‘O Perfeito David’: excelência argentina na Mostra

‘O Perfeito David’: excelência argentina na Mostra

Rodrigo Fonseca

26 de outubro de 2021 | 11h36

“O Perfeito David” tem sessão nesta terça na Mostra de SP, às 20h10, no Espaço Itaú Augusta

Rodrigo Fonseca
Sempre atenta à excelência de nuestros hermanos argentinos nas telas, a Mostra de São Paulo, em sua 45ª edição, promove nesta terça-feira a última sessão, em sua programação, de um dos achados de nosso vizinho de América do Sul nas telas: o misto de drama geracional e thriller psicológico “O Perfeito David”, dirigido por Felipe Gómez Aparicio. Perturbador, nas raias do “extra-ordinário” (a nova onda do suspense que substitui o sobrenatural por mistérios nunca explicados), o longa-metragem foi revelado no Festival de Tribeca, em Nova York. Seu diretor, um publicitário de sucesso em seu país, faz sua estreia em longas-metragens explorando a psiquê de um rapaz (Maurido Di Yorio) obcecado em tonificar seu corpo até o limite da perfeição, num rígido regime de fisiculturismo. Tudo fica mais complexo quando sua mãe, Juana (Umbra Colombo), entra em cena. Artista plástica, ela molda suas esculturas a partir dos músculos do filho, forçando-o a se tornear de modo a reproduzir, na carne, o “David”, de Michelangelo. Sua sessão na maratona cinéfila paulistana será às 20h10, no Espaço Itaú da Rua Augusta.
“Durante os 40 minutos iniciais desse filme, a câmera é fixa, não importa aonde David vá, pois é um momento no qual ele não decide nada por si, sendo controlado por sua mãe. Mas no ato em que as emoções mudam, ao se relacionar com outras pessoas, ao ser olhado e desejado por uma jovem, sua percepção de mundo muda e ele passa a agir fora da ordem que seguia, o que dá ao meu fotógrafo, Adolpho Veloso, liberdade de botar a câmera na mão e acompanha-lo com fluidez”, diz Aparicio ao Estadão, celebrando as críticas positivas que o longa recebeu pela potência de seu visual, repleto de chiaroscuros. “As sombras são a medida da incerteza”.
Depois de anos dedicando-se a rodar comerciais, afoito por uma chance de fazer ficção, Aparicio soube da trama de David, que vinha sendo gestada pelo roteirista Leandro Custo, abraçando-a como forma de estrear no cinema, estudando um mundo distinto do seu: o dos halterofilistas e o culto a um físico digno de Adonis. Em “El Perfecto David” (título original) , o realizador acompanha a rotina de pessoas que ganham uma silhueta de Sansão “malhando ferro” e consumindo substâncias químicas – algumas delas legalizadas. “Não quis falar de pessoas que se escondem na sombra para picar esteroide na veia e, sim, de pessoas que seguem uma disciplina rígida de treinos, que tomam produtos regulamentados, em nome de um projeto de vida e de saúde”, disse o diretor, que levou sua equipe habitual de publicidade para o set.

Embora enverede por situações de tensões de causar assombro, “El Perfecto David” causou orgulho nos curadores de Tribeca que o selecionaram pelos debates gerados a partir do longa acerca de relações parentais abusivas. “A questão da família disfuncional era o meu foco aqui, a partir de um olhar sobre uma mãe que empurra o filho para uma prática de controle”, diz Aparicio. “Eu queria falar das pressões que sofremos na adolescência, obrigados a escolher uma carreira e a seguir uma orientação sexual, sem termos maturidade para as vivências que nos são impostas. Existe, em nosso continente, uma certa obrigatoriedade de que nosso cinema faça sempre análises políticas, discutindo a pobreza, combatendo ditaduras. Mas o meu real foco aqui não era de fundo social. Era entender a angústia de um personagem em um recorte de sua vida. As classes sociais estão lá, como informação para o espectador, mas no centro da narrativa estão as inquietações psicológicas da condição humana”.
Por conta da pandemia, a Mostra consolidou, desde 2020, um braço online super potente, a Mostra Play. Basta fuçar o www.mostra.org para chegar lá, onde é possível alugar a pérola “LUA AZUL” (“Crai Nou”), de Alina Grigore, egresso da Romênia. Prêmio máximo de San Sebastián, um dos sete festivais mais prestigiados do mundo, a Concha de Ouro coroou o germinar de mais uma lavoura estética da Primavera Romena, movimento audiovisual mais sólido deste século, até agora, centrado no levante de Bucareste e seus arredores, a partir de filmes que discutem a corrupção estatal e abusos morais. Em doída atuação, Ioana Chitu interpreta Irina, estudante que luta para conseguir chegar ao ensino superior e, assim, escapar da violência de sua família problemática. Uma experiência sexual ambígua com um artista estimulará a intenção da garota de combater essa violência familiar.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.