‘O Perdão’ de uma Berlinale devota a Ozon

‘O Perdão’ de uma Berlinale devota a Ozon

Rodrigo Fonseca

10 de fevereiro de 2022 | 19h50

RODRIGO FONSECA
Fala-se de “Peter von Kant” por todos os lados quando o assunto é Berlinale, provando que a escolha do novo (e mais maduro) longa-metragem de François Ozon para abrir a 72ª edição do evento alemão foi uma escolha acertadíssima, sobretudo à força da interpretação de Denis Ménochet no papel de um cineasta apaixonado por um rapaz avesso a seu querer. Mas há um filme da edição de 2021 do Festival de Berlim que vem fazendo um barulho enorme no circuito exibidor da capital da Alemanha, em uma estreia tardia: “O Pedrão” (“Ghasideyeh gave sefid”). Seu título internacional foi “Ballad of a White Cow” e, com ele, esse drama egresso do Irã fez carreira nos EUA, pelo Festival de Tribeca, em Nova York.
Quem aplaudiu pérolas como “A Separação” (Urso de Ouro de 2011) sabe o quanto o cinema iraniano é um mestre em cruzar melodrama e dramaturgias jurídicas com uma galhardia que só papas dos filões de tribunal como o americano Joel Schumacher (“Tempo de Matar”) e o francês André Cayatte (“Somos Todos Assassinos”) conseguiam. Há uma habilidade única entre os diretores daquela pátria de fazer da consciência pesada matéria para a construção de figuras tridimensionais, capazes de ir além do fardo que a jornada filmada lhes impõe. É o que se vê com uma precisão de relógio suíço em “O Perdão”, pilotado pela atriz e cineasta Maryam Moghadam, em parceria com Behtash Sanaeeha. Eles dirigiram o documentário “The Invincible Diplomacy of Mr Naderi” (2018).
Juntaram-se de novo para filmar esse conto moral enxutíssimo, agendado por Tribeca pro dia 20, impulsionado pelo desempenho de Maryam também diante das câmeras. Exibido em março na Berlinale, o longa foi um ímã de críticas elogiadas, com apaixonada atenção ao modo com que ela atua. Nenhuma atuação feminina no último Festival de Berlim carregou mais sutileza e mais pujança trágica do que a dela. E seu desempenho é galvanizado no jogo cênico com Alireza Sanifar, um ator também em estado de graça em cena, encarnando a medida da culpa em sua máscara fácil moldada pela angústia. Neste momento, a Berlinale vive uma Summer Edition, apresentando de 9 a 20 deste mês, os longas que foram exibidos online em de 1 a 5 de março. E “Ballad of a White Cow” está no páreo do prêmio do júri popular.

Feridas políticas se abrem, no filme, quando a protagonista, Maia, vivida pela diretora, é informada de que seu marido, Babak, recém-executado pelo governo, morreu injustamente, sendo inocente de um crime que cometeu. Foi a tal vaca do título, imolado em nome de um sacrifício em vão. Mas a parábola religiosa em torno do animal vai ser reaproveitada mais adiante, provando que até histórias sagradas podem ser relativizadas.
Dividindo-se entre seus compromissos de codiretor e o trabalho de edição, Behtash Sanaeeha monta o filme em parceria com Ata Mehrad, num registro de tensão crescente, no silêncio característico do cinema do Irã. Assim que é informada da inocência de Babak, Maia faz o que pode para conseguir punir os responsáveis por sua tragédia pessoal, ocupando-se ainda com a criação de sua filha, uma cinéfila mirim que é muda. O assédio recorrente do irmão de Babak, um cunhado abusado, atrapalha ainda mais a paz dela, que só reencontra a mansidão quando um estranho a procura: é Reza, papel de Alireza.
Ele se apresenta como um amigo distante de Babak que deve muito ao morto. Mas há um segredo com ele. Um segredo que torna esta narrativa arrebatadora.

Isabelle Adjani e Denis Ménochet em “Peter von Kant”

Um tico mais sobre “Peter von Kant”: Ozon presta uma comovida homenagem ao diretor Rainer Werner Fassbinder (1945-1982) e à história do melodrama. O filme é uma ode ao amor de fossa. Um avassalador Denis Ménochet e Isabele Adjani protagonizam essa releitura de “As Lágrimas Amargas de Petra von Kant”, peça teatral escrita por Fassbinder em 1971 e filmada por ele mesmo em 1972. No original, Petra era uma estilista que se apaixonava por uma moça que a esnobava. Aqui os gêneros são invertidos. Petra vira Peter (Ménochet, magistral) e passa de Yves Saint Laurent a Murnau. Não se trata de um ás da moda e, sim, um cineasta. Cineasta de muito sucesso, que cai de amores por um garotão (Khalil Ben Gharbia, canastra toda vida), a quem lança como astro. A paixão vai ser sua ruína, como acontece com muitos personagens de Ozon, numa trajetória autoralíssima, que Berlim já acolheu múltiplas vezes. Em 2019, ele saiu da Alemanha com o Grande Prêmio do Júri por “Graças a Deus”. Seu novo longa é maduro em suas escolhas dramatúrgicas – e em seu diálogo com o teatro – mas é acanhado no trato com os códigos cinemáticos. Mas Ménochet bagunça o coração da plateia.

Sábado é dia de a Berlinale Shorts conferir o curta-metragem que pode render o Urso de sua categoria ao Brasil: “Manhã de Domingo”, de Bruno Ribeiro, exibido em janeiro na Mostra de Tiradentes. A sinopse fala da experiência de um encontro da personagem Gabriela com sua paz interior, numa reconciliação entre Passado e Presente a partir de uma entrega dela ao piano. O diretor conta ao P de Pop que o filme foi rodado no final de 2019, pouco antes da pandemia, e diz que Gabriela é vivida por Raquel Paixão, uma pianista em estreia como atriz. “Grande parte da equipe se graduou… ou ainda está na graduação, como é o meu caso… no curso de Cinema e Audiovisual da UFF”, diz Ribeiro. “Ele foi rodado no Rio de Janeiro, Magé e Niterói. Contou com o apoio de um edital da Secretaria de Cultura de Niterói. Eé o filme que marca o lançamento da minha produtora em conjunto com Adler Costa, Laís Diel e Tuanny Medeiros: a Reduto Filmes”.
As sessões competitivas da Berlinale seguem até o dia 16 de fevereiro.

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