‘O Pai’: poema audiovisual da Bulgária

‘O Pai’: poema audiovisual da Bulgária

Rodrigo Fonseca

11 de maio de 2020 | 11h25

Rodrigo Fonseca
Vencedor do Globo de Cristal do Festival de Transilvânia em 2019 e mais uma leva de troféus, o drama com CEP da Bulgária “Bashtata” (“The Father”/ “O Pai”) hoje se candidata ao posto de sensação autoral na web aqui do Brasil, onde estreou via streaming na última quinta-feira, no site Belas Artes À La Carte (www.belasartesalacarte.com.br), em sintonia com o recente boom internacional do cinema de seu país pelo mundo. Centrado numa tentativa de reconciliação entre pai e filho, este road movie pilotado pela dupla de cineastas Kristina Grozeva e Petar Valchanov se articula com uma leva de filmes laureados em grandes mostras do Velho Mundo (com destaque para Locarno) chamado de Outono Búlgaro. É uma onda que faz do abandono seu tema por excelência. Entre seus destaques estão “Cat in the wall”, de Mina Mileva e Vesela Kazakova; “Miles”, de Kalina Detcheva; o Leopardo de Ouro de 2016, “Godless” (“Bezbog”), de Ralitza Petrova, e um par de longas de Kristina e de Valchanov: “A Lição” (premiado em San Sebastián, em 2014) e “Glory” (Prêmio Especial do Júri no Festival da Transilvânia em 2017). Krum Rodriguez, diretor de fotografia deles, tornou-se a principal referência dessa novíssima cinematografia.

“Trabalhamos com o Krum desde sempre. Ele também filmou nossos dois filmes anteriores, ‘The Lesson’ e ‘Glory’. Então, você poderia dizer que já nos conhecemos muito bem e não precisamos explicar muito do que queremos a ele”, diz Valchanov ao P de Pop, por email. “Embora possam ocorrer disputas de opinião ocasionais entre nós, elas são sempre breves e diretas. Ele é uma personalidade muito calma e tem um olhar realista, porém, o mais importante, é o fato de que Krum é um DoP (diretor de fotografia) muito sensível e intuitivo, que gosta muito de operar sua própria câmera para que ele possa reagir em tempo real aos movimentos dos atores, às improvisações deles. Não bloqueamos ideias de cenas no processo, pois gostamos de manter as coisas o mais naturais possível, e Krum é muito bom nisso”.

Numa estrutura narrativa autoralíssima, Kristina e Valchanov construíram sua grife a partir de uma trilogia ainda não concluída (a terceira parte está em gestação) de tramas calcadas em notícias de jornal. O delito é algo que marca o protagonismo de ambos os filmes, com figuras aparentemente dóceis que são levadas a uma trajetória de desmesuras éticas e imposturas. E é isso que se passa em “Bashtata”, com o pintor viúvo Vasil (Ivan Savov), respingando em seu filho, o publicitário Pavel, interpretado com vigor contagiante por Ivan Barnev. Espécie de “Toni Erdmann” com misticismo e melancolia (relativa à União das Repúblicas Socialistas Soviéticas) em lugar de humor, a longa é prima búlgara do “Nebraska” (2013) de Alexander Payne, com um toque de “Paris, Texas” (1984) em sua medula sentimental, compartilhando com esses dois a errância e a presença de um pai desmiolado. Aqui, existe uma culpa que estrangula Vasil. O fato de ter se negado a parar e ouvir sua mulher, quando ela precisava dele, atomiza seu peito. A atomização é por razões óbvias: ela morreu sem que ele desse à sua companheira o carinho devido. Percebe-se que faz o mesmo com seu menino, hoje um quarentão grisalho: Pavel (Ivan Barnev). No enterro da mãe, esse profissional da Publicidade, sempre carregado de lentes e equipamentos do estúdio onde trabalha, – ali em Sofia, a capital de sua pátria-, tenta oferecer seu abraço a Vasil, como um abrigo. Mas seu velho teimoso não vê no carinho do rapaz uma satisfação para suas angústias, que aumentam depois de uma notícia aparentemente sobrenatural. Qual? Seguinte: durante o sepultamento, uma vizinha alega ter recebido um telefonema da finada mulher de Vasil. Ele acreditará, mais adiante, ter recebido uma chamada telefônica dela, depois da morte. A saída é cair na estrada atrás do vidente com quem sua mulher se consultava e tentar uma reconexão com a Mãe Terra ao visitar um solo marcado pela queda de corpos celestes.
“A minha mãe era atriz e a personagem da Valentina, a esposa de Vasil morta, é baseada nela”, cota Valchanov. “Depois da morte de mamães, ouvi pela primeira vez que ela tinha desempenhado um pequeno papel em uma icônica série de televisão partidária búlgara de 1969 chamada ‘Na vseki kilometer’, em inglês ‘On Every Kilometer’, que a gente reproduz em ‘O Pai’. No início, estávamos pensando em usar a filmagem real, mas precisávamos de uma cena que se encaixasse nas necessidades da nossa história, então acabamos filmando uma cena completamente inventada, imitando o estilo do show. Parece estética soviética, mas é uma obra búlgara. Não é um filme, mas uma série de TV. O cinema soviético também tem tradições muito fortes em comédia abrasiva e sátira, o que muito influenciou a gente. Um dos nossos diretores favoritos dessa época é o georgiano Georgiy Daneliya, de ‘O Mundo Novo de Serginho’ e outros filmes”.

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