‘O Pai’: fruto saboroso do Outono Búlgaro

‘O Pai’: fruto saboroso do Outono Búlgaro

Rodrigo Fonseca

06 de maio de 2020 | 16h39

Prestes a ter um filho, com a missão de levar geleia de marmelo com gerânios para casa, Pavel (o brilhante Ivan Barnev) injeta delicadeza nas veias de “O Pai” (“Bashtata”), joia do cinema búlgaro, feito em coprodução com a Grécia

Rodrigo Fonseca
Crendices místicas, marmelada e a bile de uma URSS naufragada entre os extremos do século XX são a calda de humanidade que adoça o drama “O Pai” (“Bashtata”/ “The Father”). Trata-se de uma das frutas mais suculentas do Outono Búlgaro, pilotada pela dupla de cineastas Kristina Grozeva e Petar Valchanov, que entra em cartaz no Brasil online, a partir desta quinta-feira, no Belas Artes à La Carte. É dele o Globo de Cristal do Festival de Karlovy Vary (o evento que ajudou a internacionalizar o Cinema Novo brasileiro nos anos 1960), consolidando-o como melhor filme da maratona tcheca de 2019. A vitória (merecida) veio em respeito a um roteiro que é uma aula de dramaturgia, com maestria no domínio de viradas. Basta clicar no site https://www.belasartesalacarte.com.br/ para provar da estética que vem dando à Bulgária uma posição estratégica de destaque no planisfério cinéfilo. Sua novíssima filmografia se impõe no Velho Mundo (e além dele) a partir de um processo de produção enxutíssima e de um achaque à decadência estatal similares aos que nações como a Romênia e a Hungria demonstraram nos últimos anos. Os romenos, a partir do cult “A Morte do Senhor Lazarescu” (2005) e de “4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias” (Palma de Ouro de 2007), criaram uma linhagem de longas-metragens de economia narrativa e de potência irônica inquebrantáveis. Já entre os húngaros, Ildikó Enyedi (“Corpo e Alma”, Urso de Ouro de 2017), László Nemes (ganhador do Oscar com “O Filho de Saul”) e Kornél Mundruczó (“Lua de Júpiter”) confeccionaram uma nova plástica de representação de mundo, com uma voltagem de sinestesia e inquietação existencial que a terra de István Szabó (“Mephisto”) e Miklós Jancsó (“Salmo Vermelho”) não via igual há décadas. O que as telas búlgaras experimentam agora esbanja ironia similar à da Primavera Romena e uma exuberância visual com a ousadia da Budapeste de Márta Mészáros (“Adoção”) e a inquietação de enquadramentos da Pécs de Béla Tarr (“O Cavalo de Turim”). É esse o caso do conto sobre incomunicabilidade que Kristina e Valchanov trazem agora à internet brasileira.

Ao lado de “O Pai” (“Bashtata”), outras alegorias da Bulgária sobre abandono (é o tema por excelência deles) andam devastando corações e olhares nos festivais internacionais, como “Cat in the wall”, de Mina Mileva e Vesela Kazakova; “Miles”, de Kalina Detcheva; e o Leopardo de Ouro de 2016, “Godless” (“Bezbog”), de Ralitza Petrova. Ao lado deles vem a grife que Kristina e Valchanov se tornaram a partir de uma trilogia ainda não concluída (a terceira parte está em gestação) de tramas calcadas em notícias de jornal. Dela fazem parte “A Lição” (premiado em San Sebastián, em 2014) e “Glory” (Prêmio Especial do Júri no Festival da Transilvânia em 2017). O delito é algo que marca o protagonismo de ambos, com figuras aparentemente dóceis que são levadas a uma trajetória de desmesuras éticas e imposturas. E é isso que se passa com o pintor viúvo Vasil (Ivan Savov), respingando em seu filho, o publicitário Pavel, interpretado com vigor contagiante por Ivan Barnev.
Espécie de “Toni Erdmann” resfriado, com misticismo e melancolia (relativa à União das Repúblicas Socialistas Soviéticas) em lugar de humor, “Bashtata” é um primo búlgaro do “Nebraska” de Alexander Payne, com um toque de “Paris, Texas” (1984) em sua medula sentimental, compartilhando com esses dois a errância e a presença de um pai desmiolado. Aqui, existe uma culpa que estrangula Vasil. O fato de ter se negado a parar e ouvir sua mulher, quando ela precisava dele, atomiza seu peito. A atomização é por razões óbvias: ela morreu sem que ele desse à sua companheira o carinho devido. Percebe-se que faz o mesmo com seu menino, hoje um quarentão grisalho: Pavel. No enterro da mãe, esse profissional da Publicidade, sempre carregado de lentes e equipamentos do estúdio onde trabalha, – ali em Sofia, a capital de sua pátria-, tenta oferecer seu abraço a Vasil, como um abrigo. Mas seu velho teimoso não vê no carinho do rapaz uma satisfação para suas angústias, que aumentam depois de uma notícia aparentemente sobrenatural. Qual? Seguinte: durante o sepultamento, uma vizinha alega ter recebido um telefonema da finada mulher de Vasil. Ele mesmo acreditará mais adiante ter recebido uma chamada telefônica dela, depois da morte.

Pavel e Vasil (Ivan Savov) unem forças após uma chamada telefônica inesperada

Soluções para o caso? Uma delas é procurar um alento num vidente de quem a falecida muito gostava. A segunda é buscar uma reconexão com o ventre da Mãe Terra, numa floresta onde uns corpos celestes teriam caído, criando uma conexão Céu e solo. Obstinado, Vasil sai atrás dessas missões, para aplacar a dor que deveras sente. Mas Pavel, que já perdeu mamãe, não quer ficar sem o alento paterno, sobretudo num momento em que ele mesmo está a um passo de ter um filho. Sua mulher, gravidíssima, espera sua volta sem saber por que ele saiu de casa e partiu para o interior da Bulgária. Tampouco o estúdio onde grava comerciais entende sua ausência. Ninguém o entende, muito menos Vasil. Só a câmera (na mão) de Krum Rodriguez, diretor de fotografia habitual de Kristina e Valchanov parece saber olhar (e bem) este herói aparentemente passivo (mas muito ativo em seu amor filial) nos olhos.
Em suas pupilas existe o desespero de filho que não quer lagar seu genitor ao léu. Existe o fel de quem teme desapontar a mulher e o futuro bebê, sobretudo diante do pedido dela de ter um pote de geleia de marmelo com gerânios para aplacar o desejo de gravidez. Existe a bovina subserviência do bom empregado que não quer trair a fé do patrão. Existe o melancólico alumbramento de quem vê o passado marxista desmanchar no ar em frente a um filme soviético em reprise numa TV. São pupilas que dilatam numa hilária sequência, em uma delegacia, na qual vê um policial se empapuçar da sobremesa que tanto almeja levar pra casa. São pupilas que se avermelham na percepção de que Vasil caiu num torvelinho de memórias a desvelar deslizes. Torvelinho que o levam ao roubo de um cavalo, a fugas e a machucados na cabeça. Mas nessa andança povoada de contusões e roupa suja lavada, os dois vão comungar do tempo, do espaço, da fantasmagoria de uma morta viva na saudade e de um quase querer bem. Querer que nos oferta um filme doído, vivo e essencial à 40ena. Que lindeza é “O Pai”. Que roteiro magnífico.

Anota aí o site do Belas Artes, que está cheio de atrações: https://www.belasartesalacarte.com.br

#Bashtata #OPai #TheFather

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