‘O Paciente’, um retrato da resiliência

‘O Paciente’, um retrato da resiliência

Rodrigo Fonseca

02 de abril de 2020 | 11h17

Othon Bastos tem – pra variar – uma atuação impecável como Tancredo Neves em “O Paciente”

Rodrigo Fonseca
Nestes dias de necessária 40ena, no combate ao coronavírus, poucos é mais do que necessário o resgate de heróis que falaram ao coração do povo e, quando se avalia nossa política, raras foram as figuras histórias que se encaixam na qualificação heroica, hoje aplicável a poucos, como Tancredo Neves. Só isso já justificaria uma revisão (crítica) do necessário “O Paciente – O caso Tancredo Neves” (2018), melhor filme de Sérgio Rezende desde o seu esquecido (mas possante) “Salve Geral” (2009). Seu mergulho no exercício de resiliência de um estadista com sonhos democráticos traduz um sentimento de luto e uma sensação de melancolia que dão a tônica de nosso país nos dias atuais. Recentemente, filmes memoráveis de mulheres documentaristas como “O Processo” de Maria Augusta Ramos, e “Democracia em Vertigem”, de Petra Costa, deram conta, e muito bem, de nossas feridas morais, dando relevo a figuras míticas. Mas a ficção nacional nem sempre é feliz nesse caminho. Rezende foi. Seria bonito rever este longa agora, em telona, em telinha ou streaming. É um reflexo e um refluxo desta era de doença.

Instalado numa bifurcação entre o drama e o suspense, equilibrando-se nela pela montagem taquicárdica de Maria Rezende, “O Paciente – O caso Tancredo Neves” transpira tensão em seu esforço de ir além do registro histórico. Seu empenho é tirar seu protagonista da dimensão mítica esquadrinhando seu humanismo, na fragilidade e na beleza da perseveranla. Há menos interesse pelo estadista Tancredo, com seus feitos simbólicos em prol da democracia, e mais apreço pelo Tancredo gente como a gente, suscetível a dores abdominais, vômitos e desabafos como um doído: “eu não merecia isso”. O foco do roteiro (bem) escrito por Gustavo Lisztein – potencializado por uma carga emotiva ascendente – é menos na esfera do político e mais no terreno das fraquezas, entre as quais, a vaidade, encarnada na apavonada figura de um dos médicos do presidente, o Dr. Pinotti, defendido de forma luminosa por Paulo Betti. Na tela, a “cirurgia” de desmitificação simbólica de Tancredo, facilitada pelo desempenho em estado de esplendor de Othon Bastos, é uma operação comum a quase todos os filmes de Sérgio Rezende, o que faz do diretor de “O homem da capa preta” (1980) um realizador autoral, jogando aqui, num duo, com sua parceria de vida e de obra, a produtora Mariza Leão.

Só que a linha narrativa adotada pelo cineasta aqui, na fronteira do thriller, com a (bem-sucedida) acomodação de imagens documentais, transgride suas próprias convenções, fugindo da cartilha biográfica e indo para o terreno do conto moral. Suave, mesmo em seu flerte com a agonia, “O paciente” é um filme sobre a arte de resistir e os limites físicos que a vida (essa danada) impõe aos verbos de ação. Esse conto, narrado com o desespero de quem se vê diante de uma morte anunciada, tira o melhor de Sérgio e também do fotógrafo Nonato Estrela, dono de uma das mais sólidas (porém menos reconhecidas) linhas evolutivas de nosso audiovisual na depuração da imagem. Parceiro de Glauber Rocha (em “Di Cavalcanti”) e David Neves (em “Muito prazer”), Nonato tira o visual do filme do leito mais ordinário do storytelling rasteiro e aposta numa aeróbica de closes e planos sem cortes, o que amplia a claustrofobia da trama. Sua câmera é generosa com a dor de D. Risoleta Neves, que devolve à telona todo o brilho que Esther Goés esbanjou lá atrás, em “Stelinha” (1990), e que ficou na saudade. Igualmente tocante é a composição de Antonio Britto feita por Emilio Dantas. Rezende talvez tenha chegado ao melhor de si, e levou todo o elenco e a equipe com ele à excelência.

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