O Oscar da mediocridade

O Oscar da mediocridade

Rodrigo Fonseca

29 de fevereiro de 2016 | 12h55

Editorial da caretice,

Editorial da caretice, “Spotlight” ganhou o Oscar de melhor filme de 2016: o dízimo da imprensa impressa abriu portas

Existe uma forma sintética de definir o show de horrores que foi a cerimônia do Oscar 2016 com apenas uma frase: “Bem-vindo, Donald Trump!”. Manifestação do que existe de mais racista na cultura dos Estados Unidos, com direito a um negro agindo como se fosse um capitão do mato, num papelão do humorista Chris Rock, a festa da Academia de Artes e Ciências Cinematográfica de Hollywood retrocedeu várias casas da gincana de superação do conservadorismo estético – no conservadorismo político então, ela mergulhou de cabeça. A vitória de Spotlight – Segredos Revelados coroa a palavra em lugar da imagem, festejando um cinema radiofônico, no qual a imagem é supérflua. Se isso tivesse se dado por razões financeiras, para exaltar um fenômeno de bilheteria, seria igualmente reprovável, mas faria algum sentido. Mas não foi o caso: em termos de renda na venda de ingressos, este editorial retórico contra a Igreja Católica teve faturamento pífio para os padrões do mercado americano (US$ 61 milhões). Mas ele beija a mão da imprensa impressa – ao celebrar as “aventuras” de uma equipe do The Boston Globe – e dá aos espectadores uma narrativa trumpiana: não se experimenta nada, não se inventam planos e os diálogos mastigam tudo.

Mark Rylance foi o melhor coadjuvante

Mark Rylance foi o melhor coadjuvante da “festa”

Mediocridade maior só se viu na deselegância cometida contra Sylvester Stallone e seu magistral desempenho em Creed – Nascido para Lutar em nome da burocrática atuação à moda inglesa de Mark Rylance em Pontes dos Espiões, o pior filme da obra de Steven Spielberg. É uma vocação da Arte ser uma forma de sagração quase religiosa das esferas simbólicas. A indicação de Stallone, na figura do pugilista Rocky Balboa, carregava o simbolismo da afirmação do Masculino neste momento da dramaturgia em que se “celebra” o emasculamento, com heróis e anti-heróis fraturados, frágeis, sem a virilidade dos caubóis, gladiadores e aspirantes a Errol Flynn. Frente a um mar de desesperança nos longas-metragens em competição, o heroísmo do Garanhão da Filadélfia simbolizava uma transgressão. Mas a Academia que se prepara para Trump não deseja transgredir. Daí, diante de um filme (menor) do deus Spielberg, com um ator britânico fazendo a característica metodologia dos intérpretes britânicos, optou pela teatralização mais cerebral em detrimento do naturalismo instintivo de um mito como Stallone, que sustentou os caprichos de Hollywood muitas vezes com seus exércitos de um homem só. Mas, para que gratidão…

“Mad Max”: o Papa-Léguas da autoralidade

Ver o mexicano Alejandro González Iñárritu ser oscarizado como melhor diretor por O Regresso mexeu positivamente com os hormônios de latinidade em nós. De fato, seu trabalho é sublime no comando de um épico que ousa caracterizar a natureza como vilã. E a vitória de Leonardo DiCaprio, seu protagonista, era mais do que merecida. Mas o “melhor” diretor do Oscar de 2016 era outro: George Miller, médico australiano que trocou o jaleco branco da Medicina pelos sets de filmagem. Há muito não se via um grau de cinemática num longa-metragem de estúdio à altura do que ele alcançou em Mad Max: A Estrada da Fúria. Talvez só um desenho do Papa-Léguas, com o Coiote em seu encalço se equipare ao grau de movimentação padrão Buster Keaton que Miller dá a esta reflexão sobre a sobrevivência dos mais fortes.

 

Mas a Academia não está interessada em celebrar a força. A Academia preparou nosso ânimo para a Idade das Trevas que se desenha com a cavalgada de Trump ao Poder. Noite triste para o cinema. Noite de derrota.     

Tudo o que sabemos sobre:

Chris RockCreedMark RylanceOscarsSpotlight

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.