‘O Orgulho’ de termos um festival como o Varilux

‘O Orgulho’ de termos um festival como o Varilux

Rodrigo Fonseca

13 Junho 2018 | 21h47

Rodrigo Fonseca
Chegamos à segunda semana do Festival Varilux, lotado noite a noite, tarde a tarde, no Rio de Janeiro, graças a joias como Le Brio, de Yvan Attal, a ser lançado aqui como O Orgulho. Em estado de graça, Daniel Auteuil é um professor de Direito que escolhe uma jovem rebelde (Camélia Jordana) como pupila. É uma aula sobre narrativas de tribunal.
O que mais há de imperdível no Varilux 2018:
“Custódia”: Xavier Legrand surpreendeu o Festival de Veneza de 2017 com sua estreia na direção ao narrar o processo de enfurecimento de um pai de família (Denis Ménochet) depois que sua mulher pede a separação. A dificuldade de ver e de se relacionar com seus filhos gera loucura e violência, retratados numa narrativa sufocante, que extrai tensão de cada um de seus 93 minutos. Este é o melhor de todo o evento; 
“50 são os novos 30”: 
Mãe do Pequeno Nicolau na franquia infanto-juvenil homônima, a atriz Valérie Lemercier, uma comediante divertidíssima, aposta na direção para contar a história da reciclagem afetiva de uma mulher de 50 anos (vivida por ela) que volta a morar com os pais. A trilha sonora vai de Amália Rodrigues a Julio Iglesias;


“O amante duplo”
: François Ozon concorreu à Palma de Ouro de Cannes por esta erótica trama de mistério sobre uma guia de museu (Marine Vacth) que se envolve com seu analista (Jérémie Renier) sem saber que ele tem um irmão gêmeo. Cada virada do roteiro é um susto. O filme virou “O” fenômeno do Varilux;
“A raposa má”: 
Ganhador do troféu César melhor animação, este desenho fala sobre identidade ao narrar as peripécias de um bando de animais que resolve fazer uma peça de teatro para explicar as funções de cada um na floresta, e defender novos conceitos de família. É a adaptação de uma HQ sobre valores morais;
“A noite devorou o mundo”: 
Na linha “The walking dead” este filme de zumbi, adaptado da literatura de Martin Page, mostra a luta de um jovem para sobreviver a um ataque de mortos que caminham sobre Paris atrás de carne fresca… de gente;


Gauguin – Viagem ao Taiti: Numa das melhores atuações de sua carreira, Vincent Cassel vive o pintor Paul Gauguin em uma de suas fases mais criativas, profissionalmente, porém mais destrutivas para sua saúde física e moral; 
“O retorno do herói”
: Seis anos depois de ter conquistado o Oscar por “O artista”, o galã Jean Dujardin segue sendo uma garantia de sucesso nos cinemas da França quando aposta no riso, o que faz (e muito bem) neste vaudeville do mesmo realizador de “O pequeno Nicolau”, Laurent Tirard. Dujardin vive um militar mentiroso que deserta da guerra a fim de se casar com uma jovem. Mas sua cunhada (Mélanie Laurent) fez a irmã acreditar que o soldado morreu em campo de batalha;
A excêntrica família Gaspard: Diante do medievalismo dos tempos atuais, responsável pela evaporação gradual do corpo (o nu, em especial) das telas, A Excêntrica Família Gaspard, joia garimpada neste fim de semana nas minas do Festival Varilux, chega aos cinemas na contracorrente da caretice disfarçada de correção política, fazendo do tesão uma ferramenta psicanalítica. Chega a ser uma bênção o modo lírico e lúdico como o filme põe a força da natureza Christa Théret em cena, a raspar as axilas diante de um irmão, também pelado, incestuosamente embatucado diante dos aromas daquela ninfa à sua frente. Dirigida por Antony Cordier (de Para Poucos) no arame farpado da dramédia, a produção, originalmente batizada de Gaspard Va Au Mariage, dá um recheio de complexidade a cada personagem em cena, assumindo um zoológico falido na região francesa de Limousin como seu cenário. Sua trama – estruturada em atos e um epílogo, todos titulados com uma tirada cômica – se situa nos dias que antecedem uma festa de casamento do dono da bicharada, o hipongo mulherengo Max (Johan Heldenbergh, de Alabama Monroe).