Ô, Milla: 1001 razões pra curtir ‘Monster Hunter’

Ô, Milla: 1001 razões pra curtir ‘Monster Hunter’

Rodrigo Fonseca

20 de fevereiro de 2021 | 15h28

Rodrigo Fonseca
Orçada em cerca de US$ 60 milhões, gastos em sets de filmagem na Cidade do Cabo, na África do Sul, em 2018, a versão para as telas do game “Monster Hunter”, criado para PlayStation em 2004, enfim chegou ao Brasil, tentando reoxigenar as salas exibidoras apoiado no carisma de alguém que carecia de mais consideração por parte da crítica: a ucraniana Milica Bogdanovna Jovovich… ou apenas Milla. O IMDB, o mais confiável dos bancos de dados de cinema, diz que seu nome de nascença é Militza. Mas para os brasileiros ela “nasceu” em 1997, ao longo de uma reportagem do “Fantástico” sobre “O Quinto Elemento”, de Luc Besson, onde ele ajudava (o hoje sumido) Bruce Willis a salvar o universo. Milla era modelo à época, mas já havia feito muitos bons trabalhos como atriz, como “De Volta À Lagoa Azul” (1991) e o genial “Jovens, Loucos e Confusos” (1993), de Richard Linklater. Mas foi com Besson que ela explodiu e virou estrela, engatando um romance com o cineasta e produtor francês que durou até 2000. Antes, eles fizeram o brilhante épico “Joana D’Arc” (1999), pop até o osso, que criou controvérsia à sua época, mas cuja força narrativa se impõe até hoje. Depois, ela contracenou com Mel Gibson em “O Hotel de Um Milhão de Dólares”, que deu o Prêmio do Júri a Wim Wenders na Berlinale de 2000. Dois anos depois, ela emplacou a franquia que consagrou definitivamente seu nome como um ímã de espectadores e um sinônimo de filme de ação gourmet: “Resident Evil” (2002). Fez mais cinco longas-metragens dessa franquia baseada em videogames. O primeiro era pilotado por Paul W.S. Anderson, realizador inglês que despontou na década de 1990 como um artesão na seara da fantasia com “Mortal Kombat” (1995), o cult “O Enigma do Horizonte” (1997) e a joia “O Soldado do Futuro” (1998), com Kurt Russell. Em 2009, eles se casaram. Os dois criaram uma simbiose rara nas telas, lapidando em Milla uma persona guerreira, talvez a mais humanizada entre todas as heroínas reveladas por Hollywood dos anos 2000 para cá. Sem forçar um tipão durona, ao contrário do que Charlize Theron vem fazendo caricatamente (com exceção de sua Furiosa em “Mad Max”), Milla constrói figuras heroicas cheias de retidão e fúria, mas pontuadas por uma fragilidade afetiva. E é isso o que lhe garante tridimensionalidade. Essa característica autoral em seu modo de atuar é notável em “Monster Hunter”, no qual assume o papel da capitã Natalie Artemis. Durante uma operação, a oficial é engolida por uma onda elétrica que funciona como um portal para uma dimensão paralela, infestada de monstros da areia, os Diablos, e por criaturas aladas mais selvagens ainda, como o demoníaco Rathalos. Perto dele, Artemis parece um rato pequeno, tipo Jerry, e ele, um gato grande, tipo Tom. Tom caça Jerry assim como caça tudo o que se move nesse mundo. Entre os sobreviventes está o arqueiro chamado Caçador (Tony Jaa, que rouba todas as cenas) e um velho almirante (Ron Perlman), que tem entre suas aliadas uma sobrevivente vivida por Nanda Costa. E tem um gato humanoide também. O felino é outro ás na manga de Anderson na construção do longa, que flerta explicitamente com a narrativa dos games, numa harmonia plástica notável. Para a arrancada do cinemão em 2021, mesmo ainda com pouca gente nas salas, a chegada de Artemis e seus parceiros é um alimento nutritivo para a estética pipoca, consolidando o cacife de Milla. Sua bilheteria, estimada em US$ 25 milhões, ainda é pequena, mas está crescendo.
No Brasil, Silvia Goiabeira é a dubladora habitual de Milla.

p.s.: O ciclo virtual de palestras “Lab Corpo Palavra” reúne, até 4 de março, artistas e pesquisadores da dança, das escritas, das artes cênicas e dos estudos do corpo no canal do Youtube Celeiro Moebius (https://bit.ly/3q9zULp). A proposta é conversar sobre os pensamentos e práticas que envolvem os processos de criação artística na relação entre o corpo e a palavra. Nesta terça-feira, dia 23/02, às 16h, a conversa é com o poeta e escritor angolano Ondjaki, que tem obras traduzidas para o francês, espanhol, italiano, alemão, inglês, sérvio e sueco. Também escreve para cinema e ocasionalmente é professor de escrita criativa. As palestras ficam disponíveis no canal após o evento.

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