O método Ramalho de escrever roteiro

O método Ramalho de escrever roteiro

Rodrigo Fonseca

09 de fevereiro de 2022 | 05h50

RODRIGO FONSECA
Poucos minutos do curso de roteiro online que Francisco Ramalho Jr. preparou concebeu pra plataforma Petra Belas Artes já equivalem a uma faculdade de Cinema com um ementário do mais variado. São aulas que carregam mais do que sua sabedoria de décadas nos sets: nelas, sua vivência sensível da arte está escancarada. E, nesse viver, ele nos deu grandes filmes, nem sempre reconhecidos como deveriam. Filmes como “À Flor da Pele” (1977) e “Besame Mucho” (1987). Duas radiografias geracionais que tomaram o cinema nacional de assalto, cada um à sua época, por um teor existencialista de uma poesia que, raras vezes, os retratos afetivos do audiovisual brasileiro alcançou. E alcançou por mérito do olhar que seu diretor tem sobre as vicissitudes do querer. Famoso como produtor, responsável por marcos como “O Beijo da Mulher Aranha” (1985), de Hector Babenco (1946-2016), Ramalho ganhou prestígio como cineasta ao filmar “O Cortiço”, de Aluísio Azevedo, aplicando suas inquietações existenciais aos códigos naturalistas daquele marco da literatura. Realizador bissexto, com poucos (mas preciosos) longas-metragens em uma carreira de cinco décadas, ele regressou ao circuito em 2019 com “O Galã”, vitaminado por uma atuação divertidíssima de Luiz Henrique Nogueira. Pra conferir as aulas de Ramalho, dê uma clicada na URL:
https://www.belasartesalacarte.com.br/products/aprovaula-1-u-ltima-versa-o-v4
Mas, antes, confere o papo dele com o P de Pop.

Qual é o princípio de brasilidade a se considerar na confecção de uma dramaturgia que espelhe o país? Em que medida esse princípio deve ser igual ou maior ao coeficiente de universalidade de uma trama?
Francisco Ramalho Jr.:
Brasilidade como dramaturgia está em todo e qualquer filme brasileiro: desde a comicidade de filmes da era do rádio (a chamada Era Atlântida, produtora de um grande exibidor brasileiro, Severiano Ribeiro) ao cinema da Vera Cruz, considerada por alguns como cinema industrial. Na Vera Cruz dos anos 1950 e 60, conhecia-se dramaturgia: veja “Caiçara”, o registro de uma história de amor no litoral brasileiro; veja “Tico Tico no Fubá”, a cinebiografia de um músico brasileiro; isso para se chegar ao marco “O Cangaceiro”, com música, personagens, paisagens recriadas cinematograficamente – elementos do gene Brasil que já estavam imortalizados na literatura (Rachel de Queiroz, Lins do Rêgo etc.). E considere que cinema é coisa de gente grande, ou seja, é uma caríssima e poderosa indústria que funde entretenimento com arte – assim, do Rio de Janeiro, capital cultural naqueles anos 1950 e 60 para um cinema industrial em São Paulo no mesmo período, que, com mais capital, germinou não apenas talentos, como nasceu paralelamente o Teatro Brasileiro de Comédia, com dramaturgia de escritores como Dias Gomes, Lauro Cesar Muniz, Jorge Andrade, entre tantos, que, como roteiristas futuros da chamada Rede Globo, permitiram dar ao Brasil uma de suas múltiplas identidades.

Qual foi a última vez que um roteiro brasileiro te surpreendeu? E o que havia nesse roteiro de mais sedutor? Hoje, no geral, o que mais se impõe no roteiro nacional?
Francisco Ramalho Jr.:
Leio muitos roteiros de colegas ainda em gestação e outros em que irei trabalhar eventualmente como produtor; nomear um e outro como surpresa é difícil, pois faço uma imersão no texto em sua criação para pensar e transformar em filme, – daí, não faço comparações. Ser seduzido por um roteiro é estar envolvido num (longo) processo de criação. Para ficar em clássicos, recordo-me que quando li um rascunho do roteiro do que seria “Pixote” (já conhecia o livro do José Louzeiro, base do argumento, e cujo roteiro em gestação se chamava “A Terra é Redonda Como Uma Laranja”). Li o roteiro com Hector, o Babenco, e notei que ali existiam duas partes distintas (uma na Febem e outra, fora dela, depois da fuga dos meninos, que tinham que ser bem conectados sob pena de descontinuidade dramatúrgica. Muitos trabalhos de escrita geraram esse clássico. Outro clássico: que surpresa (e grande!) quando o Luiz Villaça e a Denise Fraga me mostraram a estória de Roberto Carlos Ramos, que se transformou em longo trabalho de escrita. Aí está “O Contador de Histórias”, com um menino de Febem com história e dramaturgia totalmente distintas daquele personagem de “Pixote”. Hoje, em roteiros que li (ou em filmes que vi), impõe-se uma multiplicidade de vozes e identidades, mesmo que se viva numa época de elevada censura gerada pelo infinito poder da web.
Como produtor, o que te leva a apostar num roteiro? O que leva o mercado a rejeitar um script?
Francisco Ramalho Jr:
Não sei responder pois estamos numa época em que as fontes de produção são geradas pelas plataformas de streaming: dramaturgia e talentos tentam escrever para serem aprovados nessas plataformas. Ao lado desse alvo, há uma quantidade de festivais de cinema num mundo cada vez menor que se alimentam dos filmes autorais. Assim, talentos escrevem roteiros de filmes que serão produzidos para estarem nesses festivais. Não há um mercado aprovando ou recusando um roteiro; há mercados variados.

p.s.: Nesta quinta-feira começa a 72ª edição da Berlinale, com “Peter von Kant”, do parisiense François Ozon, como título de abertura, em homenagem aos 50 anos da projeção do drama “As Lágrimas Amargas de Petra von Kant”, do alemão Rainer Werner Fassbinder, no mesmo evento. Karim Aïnouz, diretor cearense, é integrante do júri.

p.s. 2: Sexta-feira teremos um rasante de “Lanterna Verde” (2011), com Ryan Reynolds, na “Sessão da Tarde”. É uma chance de tirar o ranço desse divertido filme da DC que ficou com pecha de porcaria (e não é), após ter naufragado nas bilheterias.

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