O melhor desta Berlinale até agora

O melhor desta Berlinale até agora

Rodrigo Fonseca

21 de fevereiro de 2018 | 09h58

“Don’t Worry, He Won’t Get Far On Foot”: a volta de Gus Van Sant à boa forma, com elenco monumental

Eis os melhores filmes de Berlim até agora:

 

  1. Don’t Worry He Won’t Get Far On Foot, de Gus Van Sant: A volta por cima de um dos mais corajosos realizadores americanos se dá pelas vias da doçura e da esperança, e não do formalismo de Elefante, a partir da reconstituição da luta do cartunista paraplégico John Callahan para lidar com perdas e danos. Joaquin Phoenix ilumina a tela no papel do desenhista, mas é Jonah Hill (em estado de graça) quem mais nos cativa;

 

  1. Yardie, de Idris Elba: Um dos maiores símbolos da representação negra nas telas hoje, o ator inglês mostra ter talento como cineasta, narrando uma saga de vingança, com inspirações em Cidade de Deus (2002), ambientada entre a Jamaica e o submundo londrino;

“Yardie” marca a estreia do ator Idris Elba na direção

  1. 7 Dias em Entebbe, de José Padilha: Dez anos depois da consagração de Tropa de Elite em solo alemão, o cineasta carioca mostra o quanto cresceu (e evoluiu) na direção de atores e na ousadia discursiva, retratando sequestro de um voo Air France em 1976. A delicadeza na maneira como Rosamund Pike compõe uma militante de esquerda alemã responsável pelo rapto amplia as camadas psicanalíticas do filme;

 

  1. Figlia Mia, de Laura Bispuri: Um dos mais caudalosos retratos sobre o amor de mãe já feitos pelo cinema contemporâneo, abordando diferentes aspectos do Feminino a partir da entrega de duas grandes atrizes: Valeria Golino e Alba Rohrwacher;

 

  1. U-July 22, de Erik Poppe: Ninguém merece mais o prêmio de direção neste festival do que este ex-fotógrafo de guerra que usa uma estética de videogame de tiro para construir um assustador relato (em tempo real) de um massacre em um camping estudantil da ilha de Utoya, em 2011;

 

  1. Virus Tropical, de Santiago Caicedo: Virtuosismo técnico e contundência dramática se casam em harmonia neste desenho animado latino. Temos aqui um balanço geracional à moda colombiana do diretor estreante Santiago Caicedo, gestada com suporte dos animadores David RestrepoManuel D’MacedoCarolina Gómez Felipe Sanin. Seu roteiro e seu visual são baseados na HQ homônima e autobiográfica da cartunista Powerpaola, sobre uma menina que cresce em Quito, no Equador, em meio a um caos depois que o pai, um pastor, abandona sua família;

“Vírus Tropical”: animação à colombiana

  1. Russa, de João Salaviza e Eicardo Alves Jr.: Esquecer é o verbo de ação que alimenta o capitalismo: esta é a lição de ecos gramscianos que este curta luso-mineiro nos ensina ao retratar o “vou de volta” de uma presidiária a seu bairro de origem, hoje sucateado;

 

  1. Ex-Pajé, de Luiz Bolognesi: O que prometia ser um piquete contra o extermínio tribal prova ir além e se apresentar com um sofisticado poema visual sobre o esquecimento como arma de resistência;

“Lemonade”: Primavera Romena

  1. Lemonade, de Ioana Uricaru: Em sintonia fina com o pelito das feministas em combate à violência contra a mulher, esta estreante em longas da Romênia reafirma a força dramatúrgica de seu país nas telas com a história de uma enfermeira que imigra para os EUA atrás de felicidade;

 

  1. Infinite Football, de Corneliu Porumboiu: Mais um romeno em estado de graça, desta vez em solo documental, usando o humor nigérrimo daquele país para transformar uma resenha esportiva num debate sobre exclusões políticas.

 

E, sem dúvida alguma, o novo Wes Anderson, Ilha de Cachorros, merece destaque por inovar a linha gráfica do cineasta (no uso de vinhetas e créditos de abertura) e por afinar (e refinar) a estética do stop motion. Fora isso, valem aplausos para o show de Bryan Cranston como dublador do cão Chief. Vale um afago também em Las Herederas, drama com personagens LGBT de Marcelo Martinessi que surpreende pelo rigor nos enquadramentos ao narrar a volta por cima de uma mulher já na casa dos 60 (Ana Brun) após a prisão de sua amada.

Tem uma torcida fiel aqui em torno de Bixa Travesti, de Claudia Priscilla e Kiko Goifman, que bateu mal no P de Pop por soar redundante e menos psicanalístico do que os trabalhos anteriores do casal. Porém, ele arrebatou GERAL aqui, tornando a cantora trans Linn da Quebrada uma celebridade na capital alemã.

 

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