O melhor de Laís Bodanzky hoje na TV

O melhor de Laís Bodanzky hoje na TV

Rodrigo Fonseca

15 de março de 2020 | 10h05

Rodrigo Fonseca
Tem “Como Nossos Pais” neste domingo na TV, às 20h, no Canal Brasil, num momento em que o cinema aposta numa possível ida do próximo filme de Laís Bodanzky, o esperado “Pedro”, com Cauã Reymond, aos grandes festivais da Europa que o Coronavírus não derrubar. Cannes está batendo o pé, para realizar sua 73ª edição no dia 12 de maio. Até lá tudo e especulação e tudo é triagem por bons filmes na televisão e nos streamings. O longa que Laís fez com Maria Ribeiro é emoção garantida. Lançada em 31 de agosto de 2017, a produção foi eleita melhor filme pelo júri popular do Festival de Cinema Brasileiro de Paris, onde encantou a plateia com a potência de autorrenovação de sua protagonista, Maria, numa atuação em estado de graça. Sua primeira janela popular foi o Panorama do Festival de Berlim, em exibições lotadas.

Era tipo 10h na sala Cinemax da capital alemã quando começou a projeção de Como Nossos Pais, exercício de roteiro dos mais vigorosos em termos de diálogos sobre aquele objeto pontiagudo que causa tétano chamado “amor”. Quem sobe ao palco do Cinemax, convocada pela organizadora alemã que comanda a Panorama, é Laís, realizadora cria da Retomada, conhecida por “Bicho de 7 Cabeças” (2000), levando no colo, em gesto de acalanto, o mais maduro de seus longas. E Maria Ribeiro está nele. Ou melhor, Maria Ribeiro é ele. Mas até a sessão começar, a atriz atacava de making of ambulante, filmando a movimentação, enquadrando o microcosmo germânico via frestas. Mas aí a luz apagou, subiram os créditos iniciais, Jorge Mautner entrou em cena, de ator, dizendo “sou dodói, mas tenho bom coração” e aí… Aí, malandro… a atriz fez jus ao seu nome de Maria e deu pra gente uma atuação feita das raspas e restos do que sobrou de uma mulher tornada bagaço de si mesmo pela desatenção. Temos em cena uma cidade meio nublada, onde de vez em quando chove (e bem), diante de uma câmera que se deixa fisgar por discussões com a sede de um peixe.

Muito se fala, em “Como Nossos Pais”, numa incontinência onde a câmera de Pedro J. Márquez brinca de estátua ora em “sequência-plano” (imobilidade), ora em “plano-sequência” (movimento sem corte), para olhar uma mulher que busca uma zona de tolerância para si – no fundo, essa é a marca autoral de Laís. Nos filmes dela, tem sempre alguém querendo um alívio, seja num baseado (como fazia Rodrigo Santoro no sempre citável “Bicho de 7 Cabeças”), seja numa gafieira para corações carentes (terra do monumental “Chega de Saudade”), seja num científico com hordas de hormônios em fúria (“As Melhores Coisas do Mundo”). Como é filme de autor, não vai ser diferente aqui com Rosa, a personagem vivida por Maria, que talvez encontrasse um abrigo quente em um abraço. Mas, em tempos de baixa estima, abraço é aquele guarda-chuva que não abre em hora de tempestade.

No roteiro mais tchekoviano no cinema brasileiro recente, com declives e falésias morais típicos de Luiz Bolognesi (scriptman fiel de Laís), Mautner é o Tio Vânia que vai dar a medida do isolamento de Rosa em relação a um país chamado felicidade. É mais ou menos assim: Rosa é uma aspirante a dramaturga obrigada a fazer bicos numa empresa de cerâmica para banheiros. Seu casamento com um antropólogo indigenista (Paulo Vilhena, de uma precisão suíça) virou Aveia Quaker; sua filha mais velha está que é birra só; sua irmã a considera careta; e seu pai, um artista plástico zureta (Mautner, um sol a cada cena), está cada vez mais cheio de dívidas. Para piorar, sua mãe (Clarisse Abujamra) dá a ela duas notícias que vão virar sua rotina do avesso. Melhor manter as duas em sigilo por enquanto. O filme conta por nós. E, nele, o desempenho de Clarisse tem algo de devastador. Sob esse vetor de devastação, a questão do longa é: expelida do mínimo de certeza que tinha sobre si, Rosa cai da inércia e implode. É na implosão, sem deixar um resquício de excesso (um vomitoriozinho que seja), que Maria Ribeiro renasce para os cinemas, como uma estrela de fina estampa e alto quilate dramático, capaz de se posicionar entre as grandes atrizes do nosso cinema.

Ela cresce na companhia de um diretor-ator dotado de ferramental truffautiano, Felipe Rocha. Este entra na pele de um pretendente que pode servir de bálsamo para Rosa. Um quê de sensualidade e molecagem se amalgamam na interação desses dois atores, fazendo algo próximo daquilo que, no lugar comum mais lugar comum do nosso audiovisual, chamam de “cinema argentino”, ou seja, retratos afetivos onde a palavra é ação e onde a fúria de nossa latinidade perde a saturação em nome da leveza, seja ela um sinal de carência ou sinal de enlevo.

Brincando de Tchekov, Maria trafega da perplexidade à acomodação das feridas, sem jamais perder inquietude em seu olhar. E, à espreita dela, a direção de Laís pesa e dosa humor e dor em doses exatas de ambos. Diretora e atriz chegam a um lugar de graça, onde a primeira lapida sua autoralidade e a segunda conjuga com suas próprias desinências verbos que aprendeu nos filmes de Domingos Oliveira, um de seus mestres: perder, cair, levantar e saber sorrir. E a Berlinale sorriu com ela. Nós também.
p.s.: Na madrugada de segunda para terça, na TV Globo, às 2h, rola “Coração Louco” (“Crazy Heart”, 2009), que rendeu o Oscar de melhor ator a Jeff Bridges por seu desempenho como o canto alcoólatra Bad Blake.

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