O massacre de Peterloo chega às telas dos EUA

O massacre de Peterloo chega às telas dos EUA

Rodrigo Fonseca

31 de março de 2019 | 12h45

Mike Leigh e David Moorst nos sets de “Peterloo”: ainda inédito no Brasil

Rodrigo Fonseca
Toda vez que se abre o Box Office Mojo, site que contabiliza e divulga as bilheterias de todo o planeta, um banner virtual de “Peterloo” entra em destaque, como um anúncio da estreia americana do mais recente longa-metragem do britânico Mike Leigh. Nos EUA, seu lançamento será no dia 5 de abril, próxima sexta. Joia do garimpo de Veneza 2018, onde disputou o Leão de Ouro, esta produção foi laureada com um prêmio para o fotógrafo Dick Pope na mostra Camerimage. No Lido, Leigh foi coroado com uma menção especial da Rede Cinematográfica de Direitos Humanos. Aos 75 anos, o cineasta é autor de peças que sacudiram os palcos britânicos como “Grief”, é realizador de experimentos televisivos essenciais para a representação do cotidiano no Reino Unido (como “Play for today”) e um ícone da desconstrução do natrualismo direção de atores.

É um filme sobre uma mancha política na História da Inglaterra. Ganhador do Leão de Ouro com “Vera Drake”, em 2004, e da Palma de Ouro, com “Segredos e mentiras”, em 1996, Leigh revive agora um sangrento episódio que traz muita inquietação a seus conterrâneos. Chama-se de Massacre de Peterloo um combate que ocorreu em St. Peter’s Field, Manchester, no noroeste da Inglaterra, em 16 de agosto de 1819. Na ocasião, a cavalaria oficial do Reino marchou, armada, contra uma multidão de cerca de 70 mil pessoas, reunidas em uma manifestação pacífica para buscar a reforma da representação parlamentar. O protesto do povo era focado numa ressaca econômica referente ao fim das Guerras Napoleônicas: em 1815, o Reino Unido passou a sofrer com períodos de inflação e de desemprego crônico, exacerbados pela aprovação das chamadas Corn Laws (Leis dos Cereais), de imposto sobre a produção. A pressão gerada pelas más condições econômicas ruins, associadas a supressões nos direitos eleitorais no Noroeste da Inglaterra, aumentou o apelo ao radicalismo político. A população foi às ruas, mas foi silenciada a tiros. Essa é a história que Leigh revive.
“Existe um lugar do silêncio que se confunde com o medo e, por isso, precisa ser combatido”, disse Leigh ao Estadão em Veneza. “O trauma, aqui, passa pelo veto à expressão livre”.

É difícil explicar por que o júri do Festival de Veneza, onde Leigh lançou seu mais recente projeto, esnobou este belíssimo libelo em prol da liberdade de expressão. Representante das narrativas clássicas do Reino Unido, este épico às avessas renova a estética palavrosa de seu realizador, um papa do naturalismo. No filme, ele recria – de modo cru, sem virtuosismos – um massacre em Manchester, em 1819, organizado extraoficialmente pelo governo vigente para silenciar as lutas democráticas dos ingleses pobres. Em Veneza, havia espectador fechando os olhos diante da brutalidade da sequência do embate de tropas armadas contra 6 mil pessoas de baixa renda, onde cabos de fuzis chocavam-se contra crânios humanos.

“Eu não tento trazer respostas sobre esse massacre. Quis apenas emprestar carne e emoção aos relatos que foram compilados acerca da luta democrática que favoreceu, entre outras coisas, a criação de uma imprensa de oposição na cena monárquica do século XIX”, disse Leigh à Veneza. “Estamos vivendo dias de muita intolerância política no mundo. O direito à insatisfação não pode ser retirado das pessoas. E a batalha de Peterloo ilustra a vontade de resistência que moveu o povo da Inglaterra”.