O legado poético de Saraceni vive

O legado poético de Saraceni vive

Rodrigo Fonseca

08 de maio de 2020 | 11h56

Rodrigo Fonseca
Uma zapeada em sites de caça a livros, como o Estante Virtual, leva a gente uma pérola da literatura cinéfila brasileira: “Por Dentro do Cinema Novo”, editado pela Nova Fronteira em 1993, tendo como auto o mais poético dos signatários do movimento que modernizou a linguagem audiovisual do país, o tricolor Paulo Cezar Saraceni (1933-2012). No sebo digital, esse livraço tá caro, custando de R$ 84 a R$ 270, por ser raro… e obrigatório. Seu texto, de uma ouriversaria primorosa na esgrima da palavra, eriçou ânimos e inflamou têmporas, com as verdades que trouxe à tona, mas também iluminou olhares acerca da produção cinemanovista e sua vocação sociológica e, em certa medida, etnográfica. A etnografia marca um dos filmes seminais de Saraceni, “Arraial do Cabo”, cujo lançamento completa 60 anos no próximo dia 27. Ele é pouco visto, embora integre o menu da Programadora Brasil. Nela, há uma bela sinopse que define o .doc: “Com fotografia deslumbrante de Mário Carneiro, que codirige o filme, e texto do jornalista Claudio Mello Souza, esse documentário mostra as transformações sociais e as interferências nas formas primitivas de vida de pescadores do vilarejo do Arraial do Cabo, no litoral do Estado do Rio de Janeiro. A Fábrica Nacional de Álcalis, que se instalou no local, causa a morte dos peixes, o que faz com que muitos integrantes da comunidade partam em busca de trabalho. Os modos tradicionais de produção se chocam com os problemas da industrialização. Gravuras de Oswaldo Goeldi abrem o filme”.

Dias antes de a Mostra de Cinema de Tiradentes de 2011 começar, no suarento janeiro daquele ano, Saraceni abriu ao P de Pop as portas de sua casa, no Jardim Botânico, para uma conversa. Parte desse papo foi registrado no catálogo da retrospectiva em sua homenagem que a produtora Mariana Bezerra organizou na Caixa Cultural. Na conversa, a genialidade por trás de cults do Cinema Novo como “O Desafio” (1965) parecia intacta, mas a força física de quem um dia integrou o escrete futebolístico juvenil do Fluminense parecia uma pálida sombra de um pretérito outrora perfeito. Atriz, produtora e esposa exemplar do cineasta, Ana Maria Nascimento e Silva, sempre ao seu lado, parecia embalar o amado com o máximo de cuidado, ciosa de seus passos e de sua saúde. Símbolo de experimentação de linguagem poética no audiovisual brasileiro, Saraceni balbuciava citações a Rossellini, saudades da rochosa amizade com Glauber, queixas da performance do Tricolor das Laranjeiras nos gramados e ressentimentos acerca das dificuldades de filmar em suas últimas décadas de pé. Guardava como chama de perseverança a alegria de ter tido seu derradeiro longa, “O gerente”, selecionado para abrir o festival mineiro, considerado um reduto de resistência estética. Sonhava estar de pé para ver o filme lançado em circuito, com pompas de crítica, que soube reverenciar a majestosidade de seu diálogo com a obra de Carlos Drummond de Andrade, da qual é derivada.

Daquele encontro, ficou por trás das lentes míopes que o P de Pop ostenta a sensação de que seria a última entrevista com o diretor a quem tanto admirei, de filmes que amo e que servem de balão de oxigênio para a minha geração cinéfila. Ele morreria no ano seguinte, em 14 de abril de 2012, aos 78 anos, por complicações decorrentes de um AVC. Naquele momento, fedido ao chumbo da perda, sua obra estava ameaçada de desaparecer por falta de apoio à preservação de suas cópias. Seus primeiros curtas e médias-metragens, além de alguns de seus longas, como “Capitu” (1968), encontravam-se em estado crítico. De seus filmes iniciais, só dois longas-metragens, “Porto das Caixas” (1962) e “O desafio” (1965), pilar do Cinema Novo, haviam sido restaurados. Restava a nós, seus acólitos, a dor.

p.s.: Vale lembrar que no próximo dia 19 um dos colegas de Saraceni no Cinema Novo, o diretor Carlos Diegues, o Cacá, completa 80 anos, tendo nas mãos o projeto de dar continuidade a “Deus É Brasileiro” (2003). Às terças, Lá pelas 23h30, o Canal Brasil realiza uma mostra em celebração do aniversário dele.

p.s. 2: Este fim de semana, o cardápio do streaming Belas Artes à La Carte traz comédia apetitosa, romance, sexo e luxúria! Confira: “Tampopo: Os Brutos Também Comem Spaghetti” (1985), comédia do japonês Juzo Itami, uma deliciosa “orgia gastronômica”; “Fábrica dos Prazeres”(2007), de Ekachai Uekrongtham, inédito no Brasil, filme ambientado num famoso “bairro da luz vermelha” da Singapura; “Sonho”(2008), uma fantástica história de amor, do premiado diretor sul-coreano Kim Ki-duk, também inédito no Brasil; e “Segunda Chance” (2004), de Dylan Kidd, uma comédia sofisticada, com atuação premiada de Laura Linney.

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