O legado de Mme Varda

O legado de Mme Varda

Rodrigo Fonseca

18 de janeiro de 2020 | 07h58

A jovem Agnès Varda terá sua obra preservada por seus filhos, que preparam livro e coleção de DVDs a partir de suas criações

Rodrigo Fonseca
Há uma esquadra de estrelas (Fanny Ardant, Noémie Merlant, Swann Aralaud) e cineastas de alto calibre (Justine Triet, Céline Sciamma, os irmãos Dardenne) escalados para entrevistas no 22º Rendez-vous da UniFrance, o fórum anual de promoção do audiovisual francófono, que segue até segunda: mas poucos nomes são tão disputados quanto Rosalie Varda. Figurinista de peso na Europa, disputada a tapas sobretudo no mercado melômano, por ter vestido óperas de grande prestígio, ela é a responsável pelo legado de sua mãe Agnès Varda (1928-2019) e de seu padrasto (a quem chama calorosamente de pai), Jacques Demy (1931-1990). Seu projeto atual é a produção de uma caixa de DVDs com a obra de Agnès para os Estados Unidos, onde esta ganhou um Oscar honorário em 2018. Tem ainda, com o irmão mais moço, o diretor e ator Mathieu Demy, um projeto de um documentário sobre a produção de Jacques, revendo sucessos como “Os Guarda-Chuvas do Amor”, Palma de Ouro de 1964. E ainda pensa em um livro reunindo fotografias de sua mãe, que foi laureada com o Leão de Ouro de Veneza em 1985, por “Os Renegados” (“Sans Toit Ni Loi”). Estrelado por Sandrine Bonnaire, a produção foi um dos seis filmes de Agnès escolhidos por uma enquete de críticos, promovida em 2019 pela BBC, para elencar os cem maiores (e melhores) longas-metragens dirigidos por mulheres.
“Muita gente não conhece os filmes de meus pais e é meu trabalho e o de meu irmão fazer com que esses longas continuem conversando com as novas gerações. Mas o meu desafio agora é fazer circular as instalações em vídeo que minha mãe fez nos últimos 15 anos, em que esteve mais ligada ao universo das artes visuais”, disse Rosalie ao Estadão. “Vejo que o Brasil passa por momentos difíceis mas gostaria muito de levar esse trabalho dela aí. Agnès amava o Brasil e fez uma última visita a vocês, por Fortaleza, levada por intelectuais ligados ao ensino e à reflexão do cinema, que a deixou muito feliz. A diversidade cultural do Brasil sempre deixou minha mãe muito impressionada. Ela viajou o mundo todo, construindo um cinema particular e produzindo um patrimônio fotográfico rico, que precisa se manter vivo. Lançamos já na França uma coleção de seus filmes, mas pensamos em um documentário sobre sua obra”.

A figurinista e produtora Rosalie Varda, a filha de Agnès @Rodrigo Fonseca

Estima-se que a Berlinale 70 (20 de fevereiro a 1º de março) vá fazer um tributo póstumo à diretora belga, que morreu no dia 29 de março, aos 90 anos, cerca de um mês e meio após ter lançado seu último longa, “Varda por Agnès” nesse mesmo festival alemão – um dos maiores do planeta, ao lado de Cannes e Veneza. Um câncer de mama privou o mundo da sempre doce figura da cineasta, que amamentou gerações de mulheres, dos anos 1950 até hoje, com o sentimento da afirmação do feminino bem antes de “empoderamento” se tornar uma palavra da moda. Pilar da Nouvelle Vague, ela desafiou tabus. Pioneira da modernização política e narrativa da produção audiovisual, a realizadora de “As duas faces da felicidade” (Prêmio Especial do Júri no Festival de Berlim de 1965, cujo nome real era Arlette, tinha em seu currículo, além do Oscar, uma Palma de Ouro de honra ao mérito e o troféu Berlinale Camera pelo conjunto de suas criações. “Cléo das 5 às 7” (1962) é a ficção mais famosa de sua prolífica obra (dirigiu cerca 54 produções), construída a partir de 1954, quando finalizou “La Point-Courte”. Hoje, afirma-se que este é o filme-gênese do fluxo de modernização da arte audiovisual na França, que gerou a “Nova Onda” francófana nas telas, entre 1958 e 1970. Foi uma época revolucionária, na qual ela foi casada com o mestre europeu dos musicais, Demy, citado sempre com amor por Rosalie. “Subjetividade e objetividade andam juntas no cinema: quanto mais livre para criar e soltar seu olhar lúdico, mais objetivo seu cinema será”, disse Agnès em fevereiro, em sua passagem pela capital germânica.

Seu maior sucesso recente foi “Visages, Villages”, produção feita em parceria com o fotógrafo JR, laureada com o troféu L’Oeil d’Or, a Palma de Ouro dos documentários, em Cannes em 2017. Por esse exercício de reflexão da imagem, ela chegou a ser indicada ao Oscar, em 2018. Reestruturado para ser exibido na TV, como série, seu canto de cisne, o já citado experimento documental “Varda par Agnès” acompanha uma jornada dela de Paris até Los Angeles e, de lá, pra China, passando em regista 60 anos de imagens produzidas a partir de um instinto autoral.
“Resistir ainda é uma forma poética de se expressar. Em 1968, era o que a gente mais fazia, entre filmagens e conversas sobre grande diretores. Cinema é pra ser vivido e essa vivência envolve levar o mundo para os sets, para os diálogos, para as conversas ao fim dos filmes”, disse Agnès ao P de Pop, em recente conversa na Espanha, em meio ao lançamento de “Visages, villages” na Europa. “A função social de um artista é investigar a brutalidade e a beleza, para instigar a emoção e o pensamento. Intervir na sociedade pela expressão poética é parte do processo de criação e faz do cinema uma ferramenta de denúncia e de transcendência”.
“Produzi os últimos filmes de minha mãe e lembro da alegria dela ao passar pelo Rio com “As Praias de Agnès, em 2009. A produtividade dela era enorme, sempre ligada nas cores dos locais à sua volta”, disse Rosalie ao Estadão, no Rendez-vouz Avec Le Cinéma Français.
Em várias enquetes respeitadas de melhores filmes de todos os tempos, encontra-se o nome de Agnès, quase sempre representado por “Cléo das 5 às 7” (1962), lançado no ápice da Nouvelle Vague (o movimento que modernizou a maneira de se filmar na França, a partir de um engajamento com os pleitos revolucionários do período, revelando gênios como Truffaut, Godard, Chabrol). Este manifesto da força feminina, indicado à Palma de Ouro, entrou na lista dos cem maiores longas de língua não inglesa apurado pela BBC de Londres com mais de 200 críticos do planisfério cinematográfico todo. O recorrente (e merecido) carinho dos críticos com Agnès é uma gratidão à sua contribuição para novas (e livres) formas de representação da mulher no cinema. “Venho de uma época em que eu era a única cineasta em atividade num ciclo cheio de homens. Cá entre nós, acho que o número atual de mulheres cineastas ainda é muito aquém do que a arte e o mundo. Meus filmes são femininos e aportam à realidade a percepção de que as mudanças são graduais e que dependem da integração de todos”, disse Agnès em um recente colóquio em San Sebastián. “O mais bonito de se fazer um documentário é buscar o que há de poético na vida, abrindo os olhos diante dos em enigmas que a realidade nos apresenta cotidianamente”.

p.s.: Fala-se muito, no Rendez-vous, de “Mama Weed” (“La Daronne”), de Jean-Paul Salomé, uma possível aposta para o Urso dourado da Berlinale. Nesta adaptação em tom de thriller da literatura de Hannelore Cayre, Isabelle Huppert vive uma tradutora que ajuda a polícia em uma série de investigações acerca do tráfico de drogas. Sua rotina descamba para o outro lado da Lei quando ela percebe que pode lucrar mais ajudando criminosos.

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