O ‘La La Land’ em Las Vegas de Coppola no MUBI

O ‘La La Land’ em Las Vegas de Coppola no MUBI

Rodrigo Fonseca

06 de junho de 2020 | 11h01

Rodrigo Fonseca – #FiqueEmCasa
Elogio ao amor… elegia da paixão… celebração do querer em sua forma mais desvairada, “O Fundo do Coração” (“One From The Heart”, 1982), obra-prima do cinema musical (e do cinema de maravilhas do ítalo-americano Francis Ford Coppola), chega ao MUBI, relembrado uma das mais tempestuosas histórias de bastidor da indústria audiovisual. Durante 14 anos, o cineasta filmou projetos que nem sempre lhe tocavam a alma (embora sempre saíssem do papel de modo magistral) para pagar as contas oriundas do rombo deixado por esta love story canora. Sua música, assinada por Tom Waits, valeu ao filme uma indicação ao Oscar, que soou como assopro em pele ferida. Só as canções de TW (algumas cantadas em duo por Crystal Gayle e ele) já seriam uma razão de entrar no www.mubi.com para se deliciar com essa história sobre um querer que se regenera. Orçado originalmente em US$ 2 milhões, o longa-metragem, rodado em um estúdio em Los Angeles que reproduzia Las Vegas em tons de neon, explodiu seus custos em 12,5 vezes, chegando a um preço de US$ 25 milhões, o que faliu FFCoppola. A direção de arte de Dean Tavoularis incorporou a estética de dois bambas do neon, Larry Albright e Bill Concannon, para repaginar a realidade. Na trama escrita por Armyan Bernstein, o mecânico Hank (Frederic Forrest, genial) e a agente de viagem Frannie (Teri Garr) se separaram em pleno 4 de Julho. Os dois querem outras experiências, após cinco anos de (suposto) sufoco. Ela se enrabicha por um garçom metido a pianista e cantor (Raul Julia, uma divindade em cena). Ele se encanta por uma artista circense (Nastassja Kinski). Mas algo do querer do passado ainda vive dentro deles.
Tudo teria funcionado bem para Coppola se ele tivesse permanecido com a MGM na produção e na distribuição. Mas, por divergências narrativas, o realizador, que, então, já possuía duas Palmas de Ouro em seu currículo (por “A Conversação” e por “Apocalypse Now”), resolveu tirar o projeto do estúdio do leão e assumi-lo em sua própria empresa, a Zoetrope. A aposta na confecção material de uma Las Vegas de proveta deslanchou os gastos. A recusa do cineasta em fazer qualquer concessão comercial, criando um musical adulto, duro e triste, faz com que muitos exibidores se recusassem em inclui-lo em suas salas, o que fez sua bilheteria naufragar. Coppola chegou a desenvolver um sistema de finalização em vídeo, inédito para a época, o que endividou sua vida ainda mais. Porém nada desse desastre tira o viço do périplo romântico de Frannie e Hank, sobretudo quando Julia canta “It’s Raining Cuban Cigars”.

Decidido a voltar à direção para filmar um projeto acalentado desde o inícios dos anos 2000 (“Megalópolis”, a ser protagonizado por Jude Law), Coppola anda cheio de gás para criar imagens de novo, após um hiato dedicado à sua produção de vinhos. Seu último longa foi “Distant Vision”, de 2016: uma experiência narrativa sobre adolescentes. Ele falou sobre o que aprendeu com a juventude dos anos 2010 em um debate realizado no Beacon Theatre, NY, em 2019, mediado por Soderbergh (o diretor de “sexo, mentiras e videotape”). O pai foi recentemente exibido na web, no Festival We Are One. Há um ano, no Festival de Tribeca exibiu um corte inédito do material bruto de “Apocalypse Now”, que, então, completava 40 décadas. A nova edição é diferente da versão original, de 1979, e da versão “redux”, de 2001, enxugando gorduras, ampliando reflexões filosóficas e realçando o tônus de rebeldia que o realizador esbanjava nos anos 1970.
“Naquele tempo havia independência na maneira de se trabalhar com cinema nos EUA, sob a influência da Nouvelle Vague francesa e de mestres como Kurosawa. Fazíamos filmes de arte, personalíssimos e, por vezes, experimentais, se comparados à linguagem clássica americana”, disse Coppola ao P de Pop em 2015, quando ganhou uma retrospectiva no Rio. “O exercício de linguagem que fizemos nos tempos de “O poderoso chefão” encontrou dificuldade de levantar financiamento e assegurar distribuição, pois não havia um padrão entre nós. Naquela época, nossos filmes ensinaram o cinema a encontrar novas maneiras de expressar humanidade, nas formas mais distintas, sem confiar em muletas mercadológicas que hoje cansam plateias”.

Vale muito a pena aproveitar a sessão online de “O Fundo do Coração” para visitar (e se deliciar) com o menu do MUBI, um streaming dedicado a experiências narrativas de risco. Tem Louis Malle (“Adeus, Meninos”), tem Marion Hänsel (“A Ternura”), tem Jonathan Glazer (“The Fall”). Só filé.

p.s.: O premiado projeto “Grandes Músicos para Pequenos” lança programação online inédita voltada para toda a família. Com direção de Diego Morais e roteiro de Pedro Henrique Lopes, três lives serão exibidas nos dias 14/06, 28/06 e 12/07, às 16h, com trechos pré-gravados de musicais infantis e quadros inéditos com possibilidade de interação dos telespectadores. As apresentações fazem parte do projeto Diversão em Cena e serão exibidas em suas redes sociais, Facebook, Instagram e Youtube (bit.ly/diversaoemcena). O cicerone das três lives será o carismático personagem Mêlo, do espetáculo ‘Raulzito Beleza – Raul Seixas para Crianças’, interpretado pelo já citado Pedro Henrique.

p.s.2: Um dos mais prestigiados fóruns de documentário do cinema contemporâneo, o Sheffield Fest, na Inglaterra, organizado sob a curadoria de Cintia Gil, este ano rola online, a partir do dia 10, promovendo um tributo ao cineasta Simplice Ganou, de Burkina Faso, cuja obra se baseia em uma discussão sobre empatia. Dele serão exibidas produções como “Bakoroman” (2011) e “The Koro of Bakoro: The Survivors of Faso” (2017).

p.s. 3: Às 3h30 desta madrugada, a TV Globo exibe o mais criativo dos filmes de Daniel Filho: “Sorria, Você Está Sendo Filmado” (2014), com Lázaro Ramos às voltas com uma investigação de morte que é vista da câmera de um computador. O fino roteiro é de Fernando Ceylão.

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