‘O Invasor’, 18 anos depois, nas telas da Mostra

‘O Invasor’, 18 anos depois, nas telas da Mostra

Rodrigo Fonseca

15 de outubro de 2019 | 12h35


RODRIGO FONSECA
Laureado com 27 prêmios internacionais, incluindo a láurea de Melhor Filme Latino-Americano do Festival de Sundance de 2002, “O Invasor”, um dos maiores marcos do thriller social no cinema brasileiro de todos os tempos, vai voltar à tela grande na 43ª Mostra de São Paulo, que inaugura nesta quinta-feira sua programação. A exibição do cult de Beto Brant (melhor direção no Festival de Brasília de 2001) está agendada para o dia 28, às 19h30, no CineSesc. Brant vai ser um dos jurados da maratona cinéfila paulista deste ano, ao lado da atriz e diretora Maria de Medeiros (Portugal), da produtora Xénia Maingot (França) e do cineasta Lisando Alonso (Argentina). O realizador paulistano lançou seu último longa, o .doc “Pitanga”, codirigido pela atriz Camilla Pitanga, em 2016, na própria Mostra. Seu nome é até hoje reverenciado – e com todos os mérito – como um dos realizadores que reinventaram a representação da brasilidade nas telas, seja falando da violência, seja falando de afetos fraturados.
Quando se contabilizam, na história do cinema brasileiro, os tipos que se cristalizaram no imaginário popular, a porção rural de nossa cinematografia ganha de lavada dos filmes urbanos, à força de tipos como Jeca Tatu e Pedro Malazartes (ambos de Mazzaropi) ou o Augusto Matraga de Leonardo Villar. Mas a cinematografia nacional urbana, que tem uma Geni (de “Toda nudez será castigada”) aqui e um Pixote acolá, ganhou um reforço bem-vindo com a chegada de Anísio, o homem mau de “O invasor”. Seu jeitão caricato, seu olhar aquilino, faz lembrar os velhos vilões que davam dor de cabeça ao detetive Dick Tracy, nas tiras produzidas por Chester Gould. Perto dele, Flattop, Pruneface e qualquer outro bandidão das HQs de Tracy parecem menos assustadores do que um bebê de colo. Mas se a conversa entrar quadrinhos adentro, há outra alusão mais interessante a ser feita com o personagem vivido por Paulo Miklos. Há uma célebre seqüência na minissérie gráfica “O Cavaleiro das Trevas” (“Batman: The Dark Knight”, 1986) em que o Homem-Morcego, já sessentão, estressado e cheio de ódio, sai no braço com o Super-Homem, amparado por uma armadura. No meio da luta, aproveitando-se do fato de o Homem de Aço ter sido atingido por uma flecha de Kriptonita, Batman agarra a garganta de seu (outrora) colega de super-heroísmo e a aperta. De repente, o defensor de Gotham City começa a sofrer um colapso cardíaco, um infarto. Mas nem morrendo ele desiste de apertar o pescoço do último filho de Kripton. Sua justificativa: “Eu quero que todo o mundo saiba que eu fui o único homem que derrotou você”, diz Batman, instantes antes de seu batimento cardíaco cessar. É mais ou menos essa a relação de Anísio com a classe média do longa-metragem de Beto Brant. A mão na garganta que agoniza. Até a margem do colapso. O colapso social brasileiro. A partir de uma sólida armação narrativa ofertada pelo roteirista Marçal Aquino, Brant confirmou em seu terceiro longa-metragem toda a expectativa que se formou ao redor de seu nome no fim dos anos 1990, quando seu trabalho de estréia, “Os matadores”, começou a rodar os principais festivais brasileiros. Mais do que a mobilização que criou em torno da possibilidade de se contextualizar sociologicamente a relação entre exclusão e violência, seu “O invasor” conseguiu um feito raro: imortalizou um personagem. Um tipo que sintetiza o desgoverno da balança ética nacional. Anísio, um matador de alugel, vive dias de monarca quando resolve chantagear seus contratantes. Freqüenta os apartamentos mais ricos. Curte as baladas paulistanas com a filha riquinha de sua vítima. Come, bebe, fuma, toma ácido, transa… enfim, goza. Goza todos os prazeres de uma monarquia fugaz, cujo prazo de válidade ele, escolado nas ruas, sabe ser curto. Rei morto, rei posto. É a lei da sobrevivência das espécies no poder. E os assassinos empreiteiros não estão livres dessa. Nem o espectador, que é obrigado a conviver com a hipótese de que há um alien da periferia, um oitavo passageiro feroz, na navilouca chamada classe média.

O magma do filme reside extamente na transcendência de sua condição de conto moral. “O invasor” aborda o despreparo das camadas sociais que enriqueceram avessas às contradições dos que pegam ônibus lotado, metrô abarrotado, esquivam-se de balas perdidas no caminho de casa e suam a camisa para arcar com o pão, o alugel, a conta de luz e o que mais houver de obrigação legal a ser quitada. “O invasor” dá um arrocho na classe média a partir de um maquiavélico engenho discursivo, a partir do qual a platéia se deixa seduzir por um Nosferato de comunidade, até perceber que as presas mais afiadas e sedentas de sangue não estão na boca do vampiro, e sim sob os lábios temerosos do próprio público. Quando cria uma relação especular, mediada pela consciência pesada, o filme de Beto Brant já deixou seus interlocutores, do lado de lá da tela grande, reféns da surpresa. Como devem ser as melhores tramas de mistério. Sem a necessidade de filmar um tiro sendo disparado, Brant conseguiu realizar um ensaio sobre a genealogia da moral em que o crime e a sociedade se relacionam revezando-se nos papéis de cordeiro e de ave de rapina: a medida de um é a medida do outro. A epiléptica fotografia de Toca Seabra ajuda a compor esse tratado sobre a razão cínica que leva dois empresários – Ivan (Marco Ricca) e Giba (Alexandre Borges) – a apertarem a mão de Anísio, em um acordo mefistofélico, cujo preço nem a alma de Fausto seria capaz de compensar. O custo do acordo de morte assinado entre os construtores que encomendam o assassinato de seu sócio será pago por você, por mim, por todos nós. Pelo menos até quando a mão de Anísio estiver esganando a classe média, muda demais em sua polifonia de prantos, para clamar por socorro.

Embora o longa de abertura (para convidados) do evento seja “Wasp Network”, quem abre a seleção para o público é “Mr. Jones”, de Agnieszka Holland, um dos concorrentes ao Urso de Ouro de 2019: sua projeção acontece às 13h30, na sala 1 do Petra Belas Artes. Nessa visita à Europa do início do século XX, a União Soviética (1922-1991) registrada nos cliques e nas palavras do jornalista galês Gareth Richard Vaughan Jones (1905-1935) parece um filme de horror. Marcado por uma estética clássica de épico, a cinebiografia de Gareth, pilotada pela diretora polonesa, conhecida por “O jardim secreto” (1993) e “Rastros” (2017), ganhou uma das mais inflamadas torcidas por prêmios no festival alemão deste ano, ao cair no gosto do público. Para a imprensa germânica não especializada em cinema, ele foi um dos achados do evento. James Norton tem um desempenho impecável na pele do repórter idealista que, após ter entrevistado Hitler, antes de seus planos de dominação global, decide embarcar para a URSS atrás de uma exclusiva com Stalin. A dica de que há uma crise de fome em solo ucraniano arrasta Gareth até lá, onde descobre um esquema de corrupção com a bênção stalinista por trás da escassez de alimentos que mata milhares de pessoas.
“Não consigo imaginar um crime institucional pior do que esse, naquela região, no século XX. Hoje, depois que Stalin posou entre os vencedores da II Guerra, seus atos são relativizados por uma parte da opinião pública russa, mas ele criou um zoológico humano”, disse a cineasta, hoje envolvida na finalização do drama “Charlatan”, previsto para 2020.

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