‘O Inevitável Trem’ da simplicidade

‘O Inevitável Trem’ da simplicidade

Rodrigo Fonseca

26 Abril 2018 | 13h44

Numa alquimia precisa com a plateia, Carla Nagel e Giuseppe Oristanio criam alternativas para se driblar a erosão do amor em “O Inevitável Trrem”: em cartaz no Rio na Sala Baden Powell: atração obrigatória (Foto Thiago Cardinali)

Rodrigo Fonseca
Em fim de semana de estreia de Os Vingadores – Guerra Infinita, o titã Thanos, maior vilão de um épico pop desde Darth Vader, só tem um inimigo à sua altura no peito de quem assume a estética como sua Estrela de Belém: uma peça doída… mas doííííída… que arde por ficar com a gente quando as luzes se apagam, chamada O Inevitável Trem. É um episódio de Mad About Your misturado com canção do Djavan que, com simplicidade franciscana e um afinadíssimo par de atores num voo pirlimpimpim pela nossa imaginação, consegue inventariar as cicatrizes que amores pretéritos deixaram na gente. Tá ali naquela fofura de teatro de Copacabana que é a Sala Baden Powell, mistura de tablado e casa de show cujo valor parece subestimado em meio ao sucateamento cultural do Rio. Num palco sem muitos apetrechos, fora um fogão e uma panela regada a pesto, pão, amor e fantasia, Carla Nagel (uma Silvana Mangano de madeixas louras) e Giuseppe Oristanio (um Vittorio Gassman subtropical) montam uma comédia triste a partir de fragmentos do discurso romântico. Ela é Vitória, fotógrafa exposta ao obturador do risco. Ele é Jean Paul, um chef cheio de manhas com alho, azeite, pesto e dendês da boa lábia.  Escrita e dirigida por Pedro Jones, trama começa como um “volta pra mim”, vira um “fica comigo” e descamba para uma delicada reflexão sobre a finitude, não a da vida em si, mas a do cuidado com aquilo que a gente pode perder se for desatento. A troca de passes entre os intérpretes leva essa partida culinária a uma cobrança de pênaltis regada ao vinho branco da saudade, essa danada! Triste é… Mas é uma tristezinha. O charme de Carla (somado ao humor fino da atriz) e a habilidade de Giuseppe em garimpar camadas de afeto na pedra bruta da indiferença arejam esta narrativa.  
Com temporada carioca inaugurada no dia 19 de abril, O Inevitável Trem fica ali no Baden até 18 de maio, às quintas e sextas, às 20h. É pouco tempo. Corre lá. Faz bem pro miocárdio.