O horror, o sobrenatural e a autoralidade pedem passagem no Fantasporto

O horror, o sobrenatural e a autoralidade pedem passagem no Fantasporto

Rodrigo Fonseca

26 de fevereiro de 2016 | 08h44

“Gelo”, um thriller à moda portuguesa

Centrado nos perigos vividos por uma jovem que carrega o DNA de um ser da Era Glacial, o thriller lusitano Gelo, de Luis E Gonçalo Galvão Teles, inaugura nesta sexta-feira, na cidade do Porto, em Portugal, um dos mais renomados festivais de fantasia e horror do mundo: o Fantasporto, cuja 36ª edição abre espaço nobre para o Brasil e a América Latina. Em sua 36ª edição, o evento vai acolher três longas-metragens brasileiros.

Fausto Fawcett estrela

Fausto Fawcett estrela “Vampiro 40 Graus”

Para a seleção oficial foram selecionados a coletânea de episódios 13 Histórias Estranhas, cuja direção é assinada por César Coffin Souza, Cláudia Borba, Christian Verardi, Felipe M. Guerra, Fernando Mantelli, Felipe Ferreira, Gustavo Fogaça, Leo Dias de Los Muertos, Márcio Toson, Paulo Biscaia Filho, Petter Baiestorf, Rafael Duarte, Renato Souza, Ricardo Ghirozi e Taísa Ennes Marques, e Vampiro 40 Graus, de Marcelo Santiago. Este é uma derivação da série de TV Vampiro Carioca, do Canal Brasil, com o cantor e compositor Fausto Fawcett de protagonista, numa espécie de crônica sobre a decadência urbana do Rio de Janeiro, levantada pela LC Barreto, a lendária produtora de filmes indicados ao Oscar como O Quatrilho (1995) e O Que É Isso, Companheiro? (1997). Fawcett vive Vlak, uma espécie de Don Corleone do Além, às voltas com uma guerra entre facções vampíricas, caçadores de sanguessugas e mulheres peladas.

“O Rio de Janeiro retratado no filme é o Rio sob a ótica do Fausto Fawcett, não mais o Rio 40 graus e sim o SombRio 40 Graus , uma cidade invisível para a maioria, oposta ao velho clichê da Cidade Maravilhosa”, diz o diretor Marcelo Santiago. “Apesar de quê, com a violência explodindo a cada esquina, esse lado sombrio da cidade ganha visibilidade, mas continua não sendo diretamente associado a ela. Todo mundo gosta de acreditar no que gosta, ou no que acha que pode ser de bom tom. Além da violência, o sombrio do filme é também o submundo do erotismo, da cidade hedonista. Como diz o Fausto, o filme faz uma biópsia do ambiente social. E lá está o Rio de Janeiro marcado e talhado pelas reformas urbanas goela abaixo, rumo ao ideal olímpico. Há também uma outra biópsia, mais profunda, da consciência humana exposta. O crime e o erotismo do sombrio 40 graus têm grande poder de atração. O filme, como espelho, expõe essa atração e coloca o espectador cara a cara consigo mesmo”.

 

“A Floresta Que Se Move”: Macbeth no Brasil

Já a seção Semana dos Realizadores do Fantasporto abriu vaga para A Floresta Que se Move, versão de Vinícius Coimbra para Macbeth, de William Shakespeare, exibida antes em Montreal e no Festival do Rio e já lançada em circuito. É uma chance rara de os europeus prestigiarem a estética de timbres épicas do realizador de A Hora e a Vez de Augusto Matraga (2011), apoiado no talento de Ana Paula Arósio como uma Lady Macbeth sedenta por poder. Gabriel Braga Nunes assume o papel principal.

“Sendero”, thriller de horror chileno de Lucio A. Rojas

No bloco latino, a Argentina entra no Fantasporto com três longas, sendo dois de um mesmo (e genial) diretor: Ivan Noel. Ele concorre com Limbo, sobre bebedores de sangue, e Ellos Volvieran, no qual uma aldeia entra em colapso após o regresso de três crianças há muito desaparecidas. O terceiro concorrente argentino é Francesca, de Luciano Onetti. Seguindo na presença latina, o Chile participa com Sendero, de Lucio A. Rojas.
Na entrevista a seguir, Beatriz Pacheco Pereira, co-diretora e co-fundadora do festival, faz uma reflexão sobre a seleção deste ano.

Qual é o espaço que o horror e a fantasia ocupam no cinema europeu feito hoje, sobretudo no audiovisual português?
BEATRIZ PACHECO PEREIRA – O Fantasporto contempla todos os gêneros, especialmente na competição Semana dos Realizadores.  Mas é mais conhecido pela sua vertente dedicada ao cinema fantástico que esteve na origem da popularidade do festival em 1981, ano da fundação. De fato, esta escolha tem ainda hoje uma prevalência na produção norte-americana, que é a mais exibida em todo o mundo. Também na Europa se segue a esta tendência, especialmente no cinema francês, italiano, húngaro e mesmo no cinema inglês. A grande vantagem do fantástico é que é mais “elástico” e não se rege pelas leis do realismo. Mas anda sempre perto. É isso que o torna fascinante.

Que tendência o Fantasporto aponta este ano nos longas? Que caminhos estéticos o cinema fantástico trilha hoje?
BEATRIZ – A tendência este ano tem a ver com os maiores problemas mundiais: as migrações, a violência urbana, as dificuldades da juventude, o futuro do mundo ocidental, a ecologia. E isso pode ver-se nos recentes filmes que vamos apresentar, muitos em antestreia mundial. O cinema fantástico parte dos mesmos pressupostos do cinema em geral, só com o twist da imaginação. Assim, o caos urbano tem a ver com o que se passa, por exemplo, no filme japonês I Am a Hero, que vem da maior produtora nacional, a Toho, ou com o terrorismo, como é o caso do canadense Prisoner X. Há também filmes sobre a proximidade do desconhecido, como se vê no sueco Sensória, com as inquietações do futuro, como também nos diversos filmes de ficção científica que apresentamos, como Project M. O fantástico sempre transformou e refletiu sobre o cotidiano no mundo da imaginação e é isso que o torna tão atrativo.

“I Am a Hero”, produção da Toho

O Brasil tem um espaço nobre no evento, com três longas. Como se avalia daí a produção brasileira de filmes de gênero?
BEATRIZ – Digamos que este ano, ao contrário das propostas que nos foram apresentadas no ano passado, todas rejeitadas na seleção, o cinema brasileiro voltou em grande. Desde a sofisticação da produção Globo Filmes A Floresta Que Se Move, que adapta Shakespeare para alta burguesia brasileira, a outros produções mais populares como Vampiro 40º ou 13 Histórias Estranhas. E tudo é interessante . O Fantasporto ganha em diversidade com estes filmes. E um pouco de tropicalismo cai sempre bem, desde que a variedade seja sempre sinônimo de bom cinema. É o bom cinema que nós favorecemos. Lembro ainda que é da América do Sul que vem uma grande fatia da qualidade do cinema que apresentamos este ano, com participações da Argentina, Chile, Peru, Venezuela e outros países. E o  Fantasporto está sempre atento às tendências atuais.

“A Poeira do Tempo”, de Milcho Manchevski

O Fantasporto chega ao fim no dia 5 de março, quando serão conhecidos os filmes ganhadores das seleções competitivas. Ao longo do evento haverá uma retrospectiva em tributo ao diretor macedônio Milcho Machevski, aclamado por Antes da Chuva (1994) e Poeira do Tempo (2002), mas há muito sumido dos holofotes.

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