‘O Homem Invisível’: 50 tons de Elisabeth Moss

‘O Homem Invisível’: 50 tons de Elisabeth Moss

Rodrigo Fonseca

06 de março de 2020 | 15h23

Elisabeth Moss, uma aquarela de sentimentos de 1,60m de ousadia

Rodrigo Fonseca
Estimada em US$ 55 milhões (e contando… e subindo…), a bilheteria do dionisíaco “O Homem Invisível”, que custou duas mariolas para os padrões de Hollywood (US$ 7 milhões), representa uma injeção de dinheiro, e de ânimo, nos cofres do terror. É algo capaz de oxigenar as engrenagens do gênero em sua seara mais adulta, menos gráfica. Tem jump scare (susto) adoidado na narrativa azeitada a especiarias políticas pelo diretor australiano Leigh Whannell (de “Sobrenatural”, 2015), mas é algo distante das fronteiras do “sangue e tripas” e mesmo da metafísica de fantasmas ou demônios, delineando para si um formato mais próximo do suspense. Estamos mais próximos do Hitchcock de “Disque M para Matar” (1954) do que de um Fred Krueger escapista. O que não diluiu a porção pop dele, em meio ao rosário de angústias desfiado pela arquiteta Cecília, cujo “cavalo” é a aquarela de sentimentos chamado Elisabeth Moss. Simetrias, representadas em ornamentações de paredes, saídas de ar ou lâmpadas de 100 watts, demarcam plasticamente o espaço físico por onde Cecilia corre, em sua dupla jornada na trama escrita por Whannell, a partir de engramas derivados da prosa de Herbert George Wells (1866-1946). A primeira é manter sua sanidade válida para si e para os olhos dos outros; a segunda é sobreviver. Mas tudo parece retilíneo em seu mundo que deixou de ser uma casinha de bonecas (ou, no mínimo, uma instância de paz) no que o egocentrismo de seu marido, um cientista mefistofélico, virou síndico de seu lar. Como num reflexo do cientificismo e do antropocentrismo renascentista da profissão de sua protagonista, tudo que é simétrico no filme expressa controle, posse, submissão sem eros (numa pulsão de morte). O que norteia seus 124 esbaforidos minutos de sopro quente na nuca é necessidade de Cecília em se desvencilhar do crossfit moral de abusos e descréditos em que se enfiou torcendo a linha reta das aparências e se abrindo às curvas do inusitado.
É difícil não evocar uma canção do Queen, xará do livro de Wells, lançado em 1897:
“When you hear a sound
That you just can’t place
Feel somethin’ move
That you just can’t trace
When something sits
On the end of your bed
Don’t turn around
When you hear me tread
I’m the invisible man
I’m the invisible man
Incredible how you can
See right through me
I’m the invisible man
I’m the invisible man
It’s criminal how I can
See right through you”

Não havia meios de Cecilia ver o Mal que se escondia no coração de seu ex, Adrian (Oliver Jackson-Cohen), quando encantou-se por sua lábia e apostou numa história que virou grilhão. Agressivo e controlador, Adrian se dá muito mal com ligas polipeptídicas dos afetos de sua mulher, preferindo o afago dos átomos que tenta separar a fim de tornar a pele e a carne humanas invisíveis por efeitos ópticos. O abrigo de Adrian são as fórmulas (simétricas por natureza) e não o direito inalienável à carícia alheia. Em suas mãos, Cecilia é só um títere, que faz regozijar sua onipotência mimada de nunca ter sido preterido. Como ela se cansa dos hematomas emotivos e diz “chega”, ciente da desmesura nas quantidades e nas qualidades dos caprichos dele, seu destino é virar uma forma humana vilã aos olhos de um puritanismo míope, sexista e misógino. Ao catapultar uma mulher para ser o foco de um enredo de tônus masculino, Whannell deixa explícita sua conexão com os pleitos de paridade e igualdade de gêneros dos nossos dias. Adrian é chave de cadeia por excelência, encarnado sua soberba na construção de um traje capaz de torna-lo translúcido aos olhos humanos. Dizia o filósofo Jean Baudrillard (1929-2007) que “a transparência do Mal é a sua banalização: desaparece das vistas aquilo que se exponencia pelo excesso”, como a desatenção, o descaso. Mas na atuação de Elisabeth nada é excessivo, mesmo sob o garrote de geometria sem quebra-molas ao seu redor. Tudo é necessário, na lindeza da fome de um transbordamento existencial.

Consagrada na série “O Conto da Aia” (“The Handmaid’s Tale”) e em filmes como “Her Smell” (2018), a californiana de 1,60m, hoje com 37 anos, usa toda a sorte de jogos de interpretação para dar tridimensionalidade à sua Cecilia, o que se realça com o sulco das olheiras em seu rosto. O enquadramento na direção de fotografia de Stefan Duscio (responsável por iluminar videoclipes da Beyoncé) parece jogar com esse duplo ímpeto de implosão e explosão das angústias internas de Cecilia, nesse seu Krav-Magá de reeducação sentimental contra ecos do passado. Há uma taquicardia e uma epilepsia nos planos, revirando-se em busca de um retrato, dos mais verticais, na dor de alguém suicidada pela sociedade apenas por ser vítima.
Na trama, estranhas situações vão rondando Cecilia depois que seu marido é dado como morto, num empenho dele de tirar a própria vida. Mesmo amparada pelo amigo policial James (Aldis Hodge) e sua filha, Sydney (Storm Reid, impecável em cena), a personagem de Elisabeth tem sua credibilidade posta em xeque quando começa a ver ecos do finado marido… talvez não tão finado assim. Soa prematuro no roteiro ela perceber, tão rápido, que ele a está quizilando não de um Umbral, mas de seus apetrechos cibernéticos, como uma vestimenta de anulação de imagem… ou manto de invisibilidade. Mas Elisabeth nos convence ao embarcar em uma aeróbica de gato, de rato e de facas afiadas. Nas fábulas, o rei nu assina seu atestado de burrice quando se assume enfarpelado em veludos inexistentes… isso ao cair no conto do vigário da retórica alheia. O mesmo se dá aqui. A invisibilidade parece emburrecer a todos: querem ver bondade no homem invisível que passa de Fausto a Mefisto de chifres e rabo, numa sequência de ação de ritmo alucinante, onde o tal ser que não se vê assume o desígnio de monstro. E como não fazê-lo, dado o estúdio que bancou Whannell: a Universal.

No início dos anos 1930 e 40, “Drácula”, de Tod Browning; “O Lobisomem”, de George Waggner; “Frankenstein”, de James Whale; e “A Múmia”, de Karl Freund, deram à Universal um status de diva popular no universo do assombro. O crack da Bolsa de Valores de Nova York estourara há pouco, naquele momento, e a pobreza generalizada era um convite a qualquer melodrama na linha Grand Guignol, ou seja, nas arestas do macabro. O “Homem Invisível” (1933), de Whale, brotou ali, numa sequela de “O Médico e o Monstro”, revelando o Mr. Hyde que há em cada Jekyll. Sempre que o mundo se percebe numa crise de representação de si mesmo (como se enxergou na década 1970, de “O Exorcista” e de slashers como “Halloween”), o terror eclode selvagem, como um espelho das falências utópicas, no impasse de se debelar um mal maior, nas raias do Absoluto. Entre os estúdios que melhor conversaram como o povão da época, como a Warner fez com o noir, a Universal apostou nas trevas, palavra que não se prostituiu jamais, mesmo no uso desmazelado ou na contraindicação, preservando sua pureza para expressar feridas que gravitam pelo céu do abandono. Abandonada em seu direito de ser ouvida, num casamento de algemas que não fazem gozar, só cortam pulsos, Cecilia olhou para dentro das trevas do abuso até quando elas pareciam invisíveis. O problema é que as trevas olharam de volta, bipolares no paralelismo entre o manter e o destruir. É dessa troca de olhares magoada que brota um espetáculo visual que enxerga o reto como curvo e o côncavo como convexo, para debater a vitimologia nos códigos do feminino, com uma atriz em estado de graça, rendendo um filmaço pra se ver de mão dada.
Em circuito nacional, Flávia Fontenelle dubla Elisabeth na versão brasileira do longa.

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