‘O Homem Ideal’: uma comédia nada ortodoxa

‘O Homem Ideal’: uma comédia nada ortodoxa

Rodrigo Fonseca

12 de dezembro de 2021 | 10h19

Rodrigo Fonseca
Odiado por um punhado de críticos, rejeitado com indiferença por uma dezena de resenhistas e amado por centenas, “O Homem Ideal” (“Ich bin dein Mensch”), o candidato da Alemanha para tentar uma vaga na disputa pelo Oscar 2022, chegou ao 23º Festival do Rio com o pé na porta, tendo um ímã de plateias em sua (suposta) mirada romântica – que de lúdica NADA tem. Previsto pra estrear aqui no fim desde mês, a comédia metafísica de costumes dirigida pela atriz e cineasta Maria Schrader tem sessão na maratona carioca nesta segunda-feira, às 21h, no Estação NET Gávea. Laureado com o Urso de Prata de melhor atriz, dado a Maren Eggert, na Berlinale, em março, “I’m Your Man” (seu título internacional de trabalho) causou furor naquela competição com uma reinvenção dos códigos do romance, num casamento com a sci-fi, ao discutir o ideal de perfeição. Sua proposta: e se no futuro, em vez de apelar pro Tinder, solitárias/os optassem por robôs. Essa é a premissa escrita pela diretora e pelo roteirista Jan Schomburg a partir de um conto de Emma Braslavsky. O assunto ficou em voga este ano graças à popularidade da série Disney+ “WandaVision”. Mas o universo de Maria (responsável pela minissérie “Nada Ortodoxa”) tem ZERO em comum com os super-heróis de Os Vingadores. Seu androide, Tom (vivido pelo inglês Dan Stevens, o Matthew Crawley de “Downton Abbey”), é um Casanova às avessas: um sujeito subserviente, devoto à sua “dona”, carente por aprender como é amar poder acima de toda e qualquer ferida narcísica. A prerrogativa de sua programação pode soar atraente pra muita gente, mas não é, necessariamente, o que sua paquera, Alma (Maren), deseja, em seu olhar desencantado para o cotidiano.
“É quase um arranjo de balé transformar uma força vital como a de Dan em uma máquina, de modo a extrair sua inquietude. Trabalhamos como se fosse uma dança, ensaiando um passo de cada vez”, disse Maria ao P DE POP em entrevista via Zoom. “Nosso robô existe para servir uma pessoa que não está preocupada em ser feliz”.
Ganhadora do prêmio de melhor atriz na Berlinale de 1999 (empatada com Juliane Köhler) por “Aimée & Jaguar” (1999), Maria brinca com o mito de Frankenstein em “O Homem Ideal” na figura de Tom, criado por Stevens. Na trama, a cientista Alma é obrigada a levar Tom pra casa e passar quase um mês ao lado dele, para construir o que seria um romance. Logo ela, que não tem interesse algum em se abrir para a paixão. “Buscamos reproduzir situações comuns de desconforto que fazem parte do jogo do amor. Há uma cena que tornamos constrangedora, já no início do filme, retratando encontros às escuras entre pessoas desconhecidas. Quando elas se encontram à primeira vez para uma paquera imperam diálogos tacanhos, improvisos, fugas, artificialidades. É aí que Tom é inserido. Mesmo dando a Alma todos os cuidados, fazendo ela se sentir especial, ele não tem a medida do que ela realmente precisa”, diz Maria, lembrando que a trama reflete uma condição “robótica” dos novos tempos. “Não é possível programar o nosso querer”.

Acerca da Première Brasil, que grata surpresa é “Manguebit”, de Jura Capela. Apoiado na montagem nevrálgica de Rodrigo Lima e Grilo, o longa costura imagens de arquivo, clipes e fac-símiles com som e fúria ao fazer uma arqueologia afetiva do mangue beat, movimento musical e estético que nasceu em Pernambuco nos anos 1990, mudou a visibilidade das periferias e das manifestações culturais da região metropolitana de Recife. Aquela onda de batuques colocou o estado na rota do mercado musical mundial, após o lançamento de bandas como Chico Science e Nação Zumbi e Mundo Livre S.A. A maneira como Jura mostra a polivalência transmidiática daquela estética, ao abordar sua junção com o cinema de Lírio Ferreira e Paulo Caldas – no cult “Baile Perfumado” – enriquece ainda mais sua investigação sociológica.

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