O furacão sutil Justine Triet

O furacão sutil Justine Triet

Rodrigo Fonseca

17 de janeiro de 2020 | 08h28

Justine Triet é hoje uma das maiores promessas da direção na França: “Eu crio uma atmosfera na condução dos atores que, às vezes, é fatigante, pelo tanto que demanda, mas gera um transe em que os intérpretes se libertam”

RODRIGO FONSECA
Há poucos dias de o Festival de Cannes de 2019 começar, a Bíblia da cinefilia, a “Cahiers du Cinéma”, publicou uma edição com suas três apostas centrais para o evento e listou Pedro Almodóvar com seu monumental “Dor e Glória”; o coreano Bong Joon-ho (ou Bong Joon Ho), que ganhou a Palma de Ouro, com “Parasita”; e uma diretora francesa, hoje com 41 anos, a quem a crítica europeia encara como um sopro de renovação, Justine Triet. Ela estava no páreo com o finíssimo “Sibyl”, que fez muito espectador cannoise se esbaldar com humor, erotismo (sem grosserias) e desconstruções da psicanálise.
“Analistas operam como receptáculos das angústias da vida alheia. Mas o quanto de angústia pessoal esses próprios receptáculos não retêm, no empenho de ajudar o próximo? O que pode se passar num ambiente de análise se um profissional, que se encontra num estágio de total marasmo, encontrar alguém que espelha os sentimentos mais controversos que ele tinha há alguns anos, em sua juventude? Eu parto daí. E daí eu mergulho nos sentimentos de uma personagem que me permite colocar a moral em xeque”, contou Justine ao P de Pop, nesta sexta pela manhã, em sua passagem pelo 22º Rendez-vous Avec Le Cinéma Français, num papo capaz de referendar todos os elogios dados a ela pela “Cahiers”.

Seu “Sibyl” é um dos destaques do Redez-vous, um fórum promocional idealizado para atrair os holofotes mundiais para a nova safra da França no audiovisual. Toda a vitalidade e a diversidade de gêneros dos franceses em circuito serão celebradas de 16 a 20 de janeiro em Paris, com a presença de cerca de 100 artistas, entre atrizes de fama mundial, galãs queridos por plateias de múltiplas línguas e cineastas de veia autoral. Passam por aqui a badalada Céline Sciamma, em cartaz no Brasil com “Retrato de uma jovem em chamas”, ganhador do prêmio de melhor roteiro em Cannes; o mestre das narrativas sociológicas Robert Guédiguian, com o inédito “Gloria Mundi” para lançar; e a sensação dos anos 1990 Julie Delpy, que acaba de dirigir o drama “My Zoe”. Essa turma integra o painel de tendências estéticas concentrado no Hotel Le Collectionneur, na Rue de Courcelles. Lá será a sede da maratona cinéfila realizada anualmente pela Unifrance. Esse é o órgão do governo da França responsável pela manutenção e promoção da indústria audiovisual. A cada ano, a Unifrance promove um encontro reunindo cerca de 400 distribuidores de todo o planeta para divulgar prováveis sucessos de bilheteria e experimentos narrativos com fôlego para desafiar as convenções da linguagem cinematográfica e os paradigmas da recepção.
“Vivemos tempos em que as redes sociais deformaram as representações e que narrativas serializadas da TV trazem uma forma de tratar a imagem que não se preocupa em trocar filtros ou explorar dimensões plásticas. Gosto muito de séries, como quase todo mundo, mas tenho que reconhecer essa limitação. O que eu tento é criar uma direção complexa, capaz de desafiar a força da palavra, na hegemonia dos diálogos, e buscar o que está na dimensão oblíqua de uma frase”, disse Justine ao Estadão, ao dissecar “Sibyl”, que foi premiado no Festival de Sevilha por sua aguda discussão existencial.

Nele, temos “a” estrela do momento no cinema francês, Virginie Efira (de “Um amor à altura”). E ela gravita com elegância do trágico ao hilário no papel de uma terapeuta às voltas com uma paciente com os nervos em frangalhos: uma atriz (Adèle Exarchopoulos, de “Azul é a cor mais quente”) cujo namorado traiu sua confiança. Sibyl (Efira) precisa atender a moça no meio de um set de filmagem comandado por uma diretora enervada (a alemã Sandra Hüller, de “Toni Erdmann”) onde tudo ameaça dar errado. Inclusive a psicóloga. Indicada à Palma de Ouro, a produção é o trabalho de maturidade da realizadora de “Na cama com Victoria” (2016).
“É muito comum você ir ao cinema, encontrar homens de moral torta e torcer por eles. Sou mulher, mas sempre me identifiquei com esses homens, não apenas pela condição humana, que está ali refletida, mas pelo fato de não vermos personagens mulheres nesse mesmo lugar. As mulheres são sempre modelos de alguma coisa, seja ele qual for. Isso até na TV, onde caí de amores por uma figura monstruosa como o Don Draper de ‘Mad Men’ ou Tony, de ‘A Família Soprano’. Mas você não vê mulheres imorais como protagonistas. Quando elas aparecem, o público as rejeita. O que eu tento, no cinema que faço, é buscar empatia entre o público e essas mulheres de moral irregular, sem seguir padrões de obediência a um poder vigente”, explica Justine, que estudou Belas Artes e se especializou em pintura. “Eu trouxe muitas referências do cinema dos anos 1950 para criar o visual do filme, mas sem incorrer em algo estilizado, saturado, expressionista. Mas é importante sentir que há um colorido vivo, que responde aos sentimentos, como eu vejo em Almodóvar e seu ‘Dor e Glória’. Minha linha não é a mesma que a dele, mas gosto de ver um filme como o dele que pensa a cor com aquela intensidade sensorial”.

Na manhã desta sexta, a ala de mercado do Rendez-vous conferiu o que pode se tornar o maior sucesso da França nas telas neste primeiro semestre: “Le prince oublié”, o novo longa de Michel Hazanavicius, realizador ganhador do Oscar de melhor direção por “O Artista” (2011). Dois anos depois de “O Formidável” (2017), Hazanavicius regressa ao circuito apoiado no carisma de Osmar Sy (de “Intocáveis”). O astro vive Djibi, contador de histórias capaz de inventar as fábulas mais surpreendentes para entreter sua filha de 7 anos. Nelas, ele sempre é um herói imbatível, um príncipe cheio de glórias. Mas a menina chega à adolescência e, cansada do arquétipo do pai perfeito, resolve criar suas próprias fantasias, nas quais Djibi já não é tão infalível assim. O problema é que a imaginação crítica da jovem começa a refletir na vida dele, com consequências nada agradáveis.

p.s.: Avassalador do início ao fim, “1917”, ganhador do Globo de Ouro de melhor filme (drama), no início do mês, lota as salas de projeção aqui da França e arranca aplausos ao fim das sessões pelo ritmo radical da jornada vivida por seu jovem herói – e que herói! -, o soldado Schofield, vivido por George MacKay. Ao reviver a I Guerra a partir de UMA missão – a entrega de uma mensagem -, Sam Mendes dá uma aula de direção no domínio do melodrama e das cartilhas da representação de narrativas bélicas. Oscar nele!

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