‘O Fio Invisível’ (e firme) que nos une ao streaming

‘O Fio Invisível’ (e firme) que nos une ao streaming

Rodrigo Fonseca

17 de outubro de 2021 | 10h48

Dolores Fonzi em “O Fio Invisível”, que disputou a Concha de Ouro de 2021 em San Sebastián

RODRIGO FONSECA
Em cartaz no Estação Net Rio, às 16h50, “O Fio Invisível” (“Distancia de Rescate”), uma das sensações pop do 69º Festival de San Sebastián, realizado no norte da Espanha, acaba de entrar na grade da Netflix. Trata-se de um “Carrie, a Estranha” à moda peruana. A direção é de Claudia Llosa, que conquistou o Urso de Ouro na Berlinale de 2019 com “A Teta Assustada”. No evento espanhol, a cineasta surpreendeu espectadores com desempenho que arrancou de suas atrizes, María Valverde e Dolores Fonzi, numa composição em duo indissociável, que traduz sororidade… e algo mais. Um algo mais que a realizadora definiu publicamante como “uma mistura de sedução e de repulsa”, referindo-se à tradição do realismo mágico na América Latina. Mas “magia” não é o que define esse suspense com DNA do Peru, mas com locações chilenas, todo calcado numa exuberante fotografia de Oscar Faura.
“Existe uma projeção da realidade entre as protagonistas, em meio a temores naturais que se ligam a uma mitologia latino-americana, num espaço de medos ancestrais”, disse Llosa ao P de Pop, em Donostia, o nome de San Sebastián em Euskara, ou Euskera, idioma local, paralelo ao espanhol).

Dolores e Claudia Llosa no set

De uma tensão crescente, “O Fio Invisível”, chamado de “Fever Dream” em inglês, parte do romance homônimo de Samanta Schweblin e fala da relação que se estabelece entre duas mulheres, Amanda (María) e Carola (Dolores, em sublime composição da perplexidade). As suas são mães, têm relações com homens de rala presença e se embrenham numa região rural em que o uso de pesticidas envenena alimentos do dia a dia. Sem muita explicação, intui-se que um agrotóxico condenou o filho de Carola à morte, mas este acabou salvo em um ritual pagão. Ponha aspas aí nesse “salvo”, pois só temos a casca de seu corpo. Sua alma quer um nosso ser que a hospede. Daí, uma série de situações inusitadas (como brutais atitudes do menino e pesadelos muito realistas) vão acontecendo com as duas, em uma trama que dialoga com a recente onda do “extraordinário”. Esse é o termo da moda, falado desde “Trabalhar Cansa” (2011), para se referir à vigência de vetores do inexplicável e do metafísico entre nós, a partir de um olhar, nas margens do horror.
“Usaria a palavra ‘estranho’, no sentido de uma ‘estranheza’ para definir um clima de perigo em qualquer parte”, disse a diretora.

p.s.: Em comparação com a edição de 2020, a DC Fandome 2021 veio mais mignon, porém fez um barulhinho tão bom quanto a original, sobretudo para divulgar o assustador trailer do thriller “The Batman”, de Matt Reeves, com Robert Pattinson no papel do jovem Bruce Wayne.

p.s.2: Que filme extraordinário é “Halloween Kills: O Terror Continua”, de David Godon Green, já em cartaz. Trata-se não de uma mera continuação do longa-metragem de 2018, mas, sim, de um díptico, que explora o legado de horror de Michael Myers num sistema de ações que flerta com o debate acerca do descontrole na sociedade do ódio. Há assombro por todo lado, mas há um padrão de ação, regado a adrenalina, como nunca visto na franquia inaugurada por São João Carpinteiro em 1978. A montagem é frenética e surpreendo público todo tempo, ao dosar a tensão de uma narrativa graficamente explícita. Vale dar especial atenção à atuação de Anthony Michael Hall como uma testemunha dos atos passados de Myers. No Brasil, Sheila Dorfman dubla Jamie Lee Curtis, que é alvo eterno do psicopata mascarado, agora reinventado com toques sobrenaturais.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.