‘O Filho Eterno’ preserva na tela a comoção do livro do qual é fruto

‘O Filho Eterno’ preserva na tela a comoção do livro do qual é fruto

Rodrigo Fonseca

29 Novembro 2016 | 14h11

Marcos Veras é um escritor às voltas com a paternidade e com a Síndrome de Down

Marcos Veras é um escritor às voltas com a paternidade e com a Síndrome de Down


RODRIGO FONSECA
Lágrimas costumam inundar as salas de cinema a cada projeção de O Filho Eterno, um diálogo do cineasta Paulo Machline (O Natimorto) com o best-seller homônimo do paranaense Cristóvão Tezza. Confeccionado sob a grife da RT Features (a produtora brasileira de maior visibilidade hoje em solo internacional, com sucessos como A Bruxa e Frances Ha), o filme põe o humorista Marcos Veras fora de seu habitat natural, fazendo a plateia soluçar na pele de Roberto, um professor de Literatura e escritor surpreendido pela notícia de que seu bebê recém-nascido é uma criança com Síndrome de Down. Veras é, a um só tempo, a voz (narradora) e o corpo em chagas (internas) deste drama que flerta – bem de longe – com o devastador As Chaves de Casa (2005), do italiano Gianni Amelio.  Há muito sumida dos cinemas, a atriz mineira Débora Falabella (a eterna Lisbela) nos brinda com uma interpretação de fechar a glote na pele da jornalista Cláudia, a mulher de Roberto e mãe do pequeno Fabrício, vivido por Pedro Vinícius entre os nove e os 14 anos do personagem.

Dono de um estilo em mutação, do qual o traço autoral mais aparente é a aposta em protagonistas notórios por alguma excentricidade ou algum talento sobre-humano, vide Trinta (2014) ou o curta indicado ao Oscar Uma História de Futebol (2000), o diretor Paulo Machline gravita aqui nas franjas da literatura, não apenas na alusão quase autobiográfica de Tezza no livro, mas na busca obcecada de Roberto em ser um grande escritor. A utilização de imagens de arquivo futebolísticas, sobretudo as cenas de Copas do Mundo, são empregadas na narrativa num jogo de montagem habilidoso, capaz de acentuar a tensão em torno das escolhas do aspirante a Faulkner e de sua incapacidade de driblar o próprio preconceito.

Vale lembrar que o romance de Tezza inspirou um dos melhores exercícios cênicos do teatro brasileiro nos últimos dez anos: a versão de O Filho Eterno estrelada por Charles Fricks.