O farol de Maquiavel ilumina o Espaço Abu

O farol de Maquiavel ilumina o Espaço Abu

Rodrigo Fonseca

09 de novembro de 2019 | 10h31

RODRIGO FONSECA
Se a promessa de Frank Sinatra (1915-1980) for verdade, “fairy tales can come true/
It can happen to you/
If you’re young at heart”, contrariando um certo fixismo existencial essencial do personagem de “Diário do Farol”, uma aula de maquiavelismo em cartaz no Espaço Abu, no RJ. Seu “príncipe”, extraído do universo literário do baiano João Ubaldo Ribeiro (1941-2014), é um ex-padre, que trocou a batina pelo terço da vingança. Seu “cavalo” é o monolito de Kubrick chamado Thelmo Fernandes: impávido nele, só há a retidão da busca… por sentidos, por limites a serem desbravados. O resto é fluido… na fluidez das verdades que se moldam no achado de cada encenação. Ele “está” faroleiro na montagem que Fernando Philbert ergue na claustrofobia do confinamento – à moda Artaud – entre um corpo que narra e uma plateia com fome de narrativa. Atrás há um “muro” tecido em plástico, ou coisa que o valha, e, no epicentro, há uma garrafinha de água. É um instante de frescor para um processo contínuo de “muda”, de troca de peles, de fardão de estudante que vira bata de seminarista e que, depois, vira capuz de torturador, passando a veste de faroleiro. Tudo é indicado por um casaco, que vira abrigo, abraço e abandono no relato em primeira pessoa da gênese de um monstro. Corpo a corpo com o livro lançado em 2002 pelo saudoso autor de “Sargento Getúlio”, a peça de Philbert e Thelmo é a autópsia em corpo vivo de uma humanidade que foi “suicidada” pela sociedade.

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