O farol, as bruxas e o Norte de Robert Eggers

O farol, as bruxas e o Norte de Robert Eggers

Rodrigo Fonseca

11 de maio de 2022 | 14h39

Robert Eggers nos sets de “O Homem do Norte” @Focus

RODRIGO FONSECA
De uma visceralidade mesmerizante, desafiadora dos moralismos atuais, “O Homem do Norte” (“The Northman”) explode passional e intelectualmente na tela em duas horas de ação, mas também de etnografia, desenhando-se como um filme de antologia. Os corvos que crocitam de um lado a outro de cerimoniais funéreos e de brados de guerra não estão ali meramente por seu simbolismo necrológico, mas por integrarem uma dinâmica zoológica que faz parte do modo como seu realizador, o americano de 38 anos Robert Neil Eggers, enxerga a conexão do Passado com o Agora a partir da cadência da imagem. Havia um corvo faminto por bicos de peito em “A Bruxa”, produção da brasileira RT Features que custou US$ 4 milhões e rendeu US$ 40 milhões, além de garantir a ele o prêmio de Melhor Direção em Sundance, em 2015. E havia um albatroz no mar iluminado por “O Farol”, que garantiu ao realizador e a um de seus produtores, o carioca de sotaque paulista Rodrigo Teixeira, o Prêmio da Crítica de Cannes, em 2019. Agora, uma nova revoada de aves assinala seu ensaio sobre o rancor como motor imóvel dos que foram injuriados. E há uma série de marcas autorais no longa que estreia nesta quinta no Brasil, depois de arrecadar US$ 51,9 milhões mundo afora, consagrando-se como o trabalho de estreia – e que estreia! – de Eggers no seio do cinema de estúdio, via Universal Pictures, sob os selos da Focus Features. Estima-se no Internet Movie Database, que seu custo foi de US$ 60 milhões, numa cifra bem gasta com uma direção de arte estonteante, ressaltada na abafada fotografia (de tons ocres) de Jarin Blaschke.
Tudo nele conversa com “A Bruxa” e com “O Farol”, ambos fotografados por Blaschke, a começar pela disposição de Eggers em não se limitar a rever histórias de ontem – no caso, dos povos nórdicos, especificamente sua população viking, situada historicamente em de 793 d.C. a 1066 d.C – e, sim, em se debruçar sobre seus ritos. Eggers pesquisa toneladas de fatos que a História confirmou – sempre! -, mas se concentra em rituais, num trabalho de antropólogo. Em “O Homem do Norte”, o paganismo de tintas xamânicas que levam guerreiros a se enxergarem como ursos ou lobos e cerimoniais de comunhão com Valhalla, o Lar dos Mortos, conta mais do que travessias mortíferas e assassínios. Era como nos longas anteriores… o primeiro com olhos para as liturgias cristãs e o segundo com a atenção voltada às lendas de marinheiros.

Como estrutura dramatúrgica, há muito de “Conan, o Bárbaro” (1982), obra-prima de John Milius, que completa 40 anos neste sábado, na trama escrita por Eggers e por um escritor islandês, Sigurjon B. Sigurdsson (ou apenas Sjón). Não estamos na Ciméria de Conan e, sim, em cercanias da Islândia, o que justifica a participação da cantora Björk como uma clériga capaz de ligar vivos a espíritos, com seus olhinhos fechados. Qual em Milius, uma criança vira fera ao ter os pais mortos. Vivido por um embatucante Ethan Hawke (cada vez mais potente), Aurvandil é o senhor de muitas batalhas, crente no simbolismo dos corvos, que tomba na lâmina de seu irmão traidor, Fjölnir (papel dado a um contido Claes Bang, astro de “The Square”). A rainha, uma ferina Nicole Kidman, fica com o cunhado. E seu filho, Amleth, vê tudo, mas cresce para se vingar, encarnado no corpo, na mirada doída e no talento GG de Alexander Skarsgård. É ele que nos desenha uma vingança capaz de revisitar as liturgias dos credos vikings. Vale lembrar que Philippe Maia, um dos talentos da dublagem brasileira, é a voz habitual de Skarsgård. E seja dublado ou em inglês, a figura de Amleth gargreja ódio.

Philippe Maia dubla Amleth (Alexander Skarsgård) no Brasil

Essa tal vingança é “Conan” puro, até na descoberta de uma espada mágica, a Morta-Viva. Mas “Conan” à moda Eggers, com o vocabulário dele, com sua obsessão por diálogos num Inglês colonial, arcaico, e a sua adesão a algumas línguas que repousam no Purgatório. Há, também, uma aproximação do feminino muito parecida com o que se via em “A Bruxa”, numa celebração da força telúrica das mulheres. Conectado aos debates sobre equidade de gêneros dos novos tempos, o diretor tem a sabedoria de dar às suas excelente atrizes um espaço de honra em narrativas movidas pela fúria dos homens, como se vê na figura da escravizada Olga, que extrai de Anya Taylor-Joy uma atuação transbordante. Ela rouba o filme sempre que aparece em cena. E há algo de novo e inquieto no que ele e Nicole Kidman criam junto, numa endemoniada Lady Macbeth viking.
Mas são cuidados recorrentes em Eggers, cujos longas anteriores estão na Netflix. Com uma bilheteria de US$ 18 milhões e 34 láureas em seu currículo, a começar pelo Prêmio dado pela Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica (a Fipresci) em Cannes, “O Farol” (“The Lighthouse”) arrebatou fãs e renova seu público na streaminguesfera. Esse paiol de pólvora psicológica foi comparado a Bergman, em sua passagem pela Quinzena dos Realizadores da Croisette. Indicado ao Oscar melhor fotografia, o longa colecionou elogios em mostras no Cairo, em Macau, São Paulo e em San Sebastián, de carona na escolha de Robert Pattinson, um de seus protagonistas, para ser o novo Bruce Wayne em “The Batman”, hoje na HBO Max.

Robert Pattinson com o cineasta nas filmagens de “O Farol”

Nas raias do calafrio, “O Farol” é uma experiência narrativa que esgarça as fronteiras do jogo cênico até o limite do sufoco que reside na transcendência, dando ao perseverante Pattinson uma paga à altura de seu esforço. Ele galga uma borda de abismo que lembra Jack Nicholson em “O Iluminado”. São filmes da mesma enfermaria. Cannes foi ao delírio com todo o vigor expresso em “The Lighthouse”. Na direção, Eggers confirma seu domínio pleno das ferramentas da insanidade e das trevas. Nunca uma sereia foi tão aterrorizante nas telas. Mas não se deve falar dela. Devemos vê-la, nas telas, no mistério. Seu “A Bruxa” tinha em si um respeito canino pelos cânones clássicos do terror, entregando ao espectador aquilo que mais se espera desta linhagem – ou seja, sustos – mas o faz caminhando por uma selva de signos quase animalescos, primevos, do masculino e do feminino.
Atuações primorosas, sobretudo a da atriz Anya Taylor-Joy, alternam espaço com um personagem para entrar na História (… das Trevas): o bode Black Phillip, sobre o qual não se pode falar muito. A cada ano que passa, “The Witch” se torna mais vivo e pujante. Porém, o que mais rendia solidez ao filme, e ainda rende, é a reflexão nas entrelinhas sobre a opressão das mulheres, ao longo dos séculos, caracterizada a partir de uma Nova Inglaterra (de cores lavadas) de excomunhões, paganismos e de feitiçarias do século XVII. Eggers caminha na referência de dois pensadores cinematográficos da Fé e do ardor das fêmeas – o Ingmar Bergman de “A Fonte da Donzela” e o Carl Theodor Dreyer de “A Palavra” – para fazer uma metafísica da culpa e do revanchismo. O debate plástico e cinéfilo aberto lá volta em “The Lighthouse”. Mas agora não há como se falar de gêneros. Há como se debater a sanidade, num ambiente de abandono, de bebida e de opressão servil. É um filme sobre o servilhismo tóxico, sobre a submissão profissional que enlouquece pelo desamparo.

Anya Taylor-Joy em “A Bruxa”

Seção paralela à disputa pela Palma de Ouro, voltada para projetos de alta voltagem autoral, a Quinzena encontrou no novo filme de Eggers, escrito por ele com seu irmão, Max, o que parecia ser o grande tesouro de seu garimpo estético de bons filmes de 2019. Apoiado em uma fotografia em preto e branco (assinada por Blaschke) de um requinte diferente de tudo o que se viu em Cannes naquele ano, o longa se baseia em dois personagens confinados em um farol de uma ilha da Nova Inglaterra em 1820. Pattinson é o faroleiro aprendiz e Willem Dafoe é seu mestre. Logo no começo, uma cena de embrulhar estômagos testa o talento e a frieza do astro da franquia “A saga Crepúsculo” (2008-2012): seu personagem mata uma ave do mar, um albatroz, esmagando-o violentamente no chão. Taí os pássaros de que Eggers tanto gosta. Existe uma tensão crescente naquele espaço onde os dois homens de diferentes idades e de temperamentos distintos estão confinados.
“Meu irmão, Max Eggers, propôs para mim um enredo sobre fantasmas em um velho farol. Juntei com referências a fatos reais de jornais do século XIX e a referências à literatura do mar, como ‘Moby Dick’”, disse o diretor, que mostra uma sereia no filme, testando a lucidez dos personagens e da plateia. Ocorre o mesmo em “O Homem do Norte”, com jiras, transes e devaneios, ressaltando o lado místico do cineasta.
Ícone romântico de quem adolesceu nos anos 2000, tendo a franquia “A Saga Crepúsculo” como referência afetiva, Pattinson resolveu mudar a vida em 2012, ao se aproximar do diretor canadense David Cronenberg com o desejo de trabalhar em “Cosmópolis”. Ele e Cronenberg se aproximaram de novo em “Mapas para as estrelas” (2014). De lá para cá, ele privilegiou filmes de cineasta mais interessados em desafiar regras do cinema do que em lotar salas de exibição, como Claire Denis (com quem filmou “High life”) e os irmãos Josh e Bennie Safdie (com os quais fez “Bom comportamento”). É um ator em evolução, consagrado este ano como Batman, que comove a plateia com sua busca por reinvenção. No ebó cinematográfico de Eggers, onde Pattinson beira a barbárie, paus, pedras e luzes que cegam são ferramentas para nos lembrar de nosso horror interno. O mesmo se dá com as lâminas de aço sujas de coágulo de “O Homem do Norte”, que se impõe como um dos grandes filmes de 2022. Um filme pra ficar.

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