O faroeste será sua herança

O faroeste será sua herança

Rodrigo Fonseca

21 de maio de 2020 | 17h36

Rodrigo Fonseca
Está prevista para 2022 a estreia da releitura de “Meu Ódio Será Sua Herança” (“The Wild Bunch”) com direção de Mel Gibson, revivendo um marco do western. No elenco estão Michael Fassbender, Jamie Foxx e Peter Dinklage. A ressurreição do marco de Sam Peckinpah é uma injeção de adrenalina nas veias do western. O filão passou pelo Festival de Berlim, em fevereiro, com “First Cow”, de Kelly Reichardt.

Dirigido por Edwin S. Porter, “O grande roubo do trem”, de 1903, é considerado a pedra fundamental do faroeste. Em 1909, com a estreia de “O caubói milionário”, Thomas Hezikiah Mix, ou apenas Tom Mix, torna-se o primeiro ídolo da linhagem do bangue-bangue na telona, abrindo precedentes para os heróis pistoleiros vividos por John Wayne, Gary Cooper e Henry Fonda. Segundo a reflexão feita pelo pesquisador B. A. Botkin no livro A Treasury of American Folklore, filmes como o de Porter surgiram porque “os americanos, por falta de mitos e de tradições, tiveram de conceber seus próprio heróis, saídos estritamente de seus mundos. Eles escolheram ou criaram heróis à sua semelhança. O western, assim, evoca a epopeia dos pioneiros que conquistaram e colonizaram a nação, satisfazendo no coração de seu povo (leia-se os espectadores) os anseios de uma consciência mítica ancestral. Esta consciência nasceu de uma revisão dos causos narrados em baladas de menestréis nas ruas e nas dime novels ou pulps, vendidos a centavos nas bancas”.

Segundo Paulo Perdigão em “Western Clássico – Gênese e estrutura de ‘Shane’” (Porto Alegre, L&PM, 1985), a encarnação ideal do westerner (o caubói) é “a imagem do homem que, vindo do horizonte, porta uma aura de mistério, condenado à solidão dos degredados”. Perdigão segue: “Com a majestade dos cavaleiros andantes, os caubóis debatem-se entre a honra e o dever, fazendo toda uma noção (os EUA) e seus demais consumidores pelo mundo a entenderem que o mito é sempre uma história acompanhada de um ritual. E existem quatro antinomias centrais na mitologia do faroeste: Bem/Mal; Força/ Fragilidade; Dentro/ Fora da Sociedade; e Selva/ Civilização. Soma desses quadrantes num cabo-de-guerra de sentidos, o herói do Oeste clássico é sempre um herói de excepcional habilidade em busca de ingressar em um grupo social, mesmo sendo de fora dele, e alcança seu objetivo impondo sua força e sua virtude”.

Tratado como uma variável das histórias de aventura, o termo Western foi aplicado ao cinema pela primeira vez em 1912, na revista Motion Picture World Magazine, para caracterizar narrativas voltadas para o desbravamento das fronteiras americanas.

No Brasil, o faroeste serviu de matéria-prima a um gênero, o Nordestern, que teve como marcos longas como “O cangaceiro” (1953), de Lima Barreto, “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964) e “O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro”, de Glauber Rocha. Fora isso, o filão foi refeito aqui pelos moldes da cartilha básica em longas como “Rogo a Deus e mando bala” (1972), de Osvaldo de Oliveira, com o diretor Carlão Reichenbach, no elenco, e como “Gregório 38” (1969), de Rubens da Silva Prado. Vale lembrar das influências dos caubóis de Howard Hawks e John Ford em “A herança” (1970), a versão de Ozualdo R. Candeias, para “Hamlet”, de Shakespeare, com David Cardoso de Omeleto e Aguinaldo Rayol de Fortimbrás.

Meat Pie Western é o jargão para designar os bangue-bangues produzidos na Austrália, como “Herança de um valente” (1982), de George Miller, o mesmo realizador da trilogia (em breve ‘tetra’) “Mad Max” (1979-1985).

Ostern é o termo usado para designar faroestes produzidos no Leste Europeu, muitos deles com verba da União Soviética, para retratar os índios como heróis e os caubóis americanos como vilões. O sérvio Gojko Mitic era o John Wayne desse filão, produzidos entre 1965 e 1980, tendo a franquia “Apachen” (1970) como maior destaque para exportação.

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