O fantástico Viggo Mortensen, agora na telinha

O fantástico Viggo Mortensen, agora na telinha

Rodrigo Fonseca

28 de novembro de 2017 | 22h25

Rodrigo Fonseca
Robson Crusoé
do século XXI, perdido por opção própria num insulamento lírico, Ben Cash, protagonista de Capitão Fantástico – que o Telecine Pipoca exibe nesta sexta, às 15h35 – é uma esfinge adestrada pela dor e pela prepotência. Mas suas aventuras caem em nossas veias como um analgésico, a cada virada deste drama de gradações cômicas sobre alienação. Nele, um ator cujo talento não parece ter medida quantificável – Viggo Mortensen – torna a figura de Cash um mar de complexidades dos mais profundos e cristalinos. Se você correr… ainda dá pra ver o filme agorinha: tá rolando sessão dele nesta terça (28/11, às 22h), no Telecine, em versão bem dublada pra chuchu, com Jorge Lucas cedendo seu gogó mavioso a Mortensen. Rola mais uma projeção desta joia na telinha no dia 11, à 0h35.

Desde a primeira aparição de Mortensen na tela, camuflado de lama preta para caçar um alce, percebe-se que há algo de errado no protagonista de Captain Fantastic, cujo faturamento nas bilheterias beirou US$ 9 milhões. Cientista de formação, com livro publicado e tudo, Ben Cash trocou os tubos de ensaio para fazer da floresta um laboratório. Lá, as cobaias são seus seis filhos, os quais ele cria distantes ao progresso tecnológico, sem contato com a cultura pop e guloseimas industrializadas afins, obrigando-os a ter um corpo a corpo diário com a Natureza pela sobrevivência. A mata é sua ilha e nela, a soberania é dele, sem perdas ou danos aparentes. Mas aí sua mulher perde o combate para a insuportabilidade – provocada pela imposição quase ditatorial com a qual o marido rege a família a partir de sua ideologia natureba – e se mata. Pronto: começou o filme. E é um filme arrebatador, diga-se de passagem, por múltiplas razões, entre elas a reflexão crítica sobre a herança hippie e o legado beatnik inerente à sociedade dos EUA desde os anos 1950, quando escritores e poetas como Jack Kerouac e Allen Ginsberg, cantaram loas ao modo “pé na estrada” de viver.

Gatilho dramatúrgico desta produção de US$ 13 milhões, rodada majoritariamente em Washington, a morte da Sra. Cash obriga Ben e seus rebentos a largarem a zona de (des)conforto física onde habitam e ganhar o país a fim de prestarem homenagens à falecida e repensarem o claustro no qual se estagnaram. Ao fim da jornada está o sogro de Ben, defendido com maestria por Frank Langella, carregando o personagem de mágoa no olhar e desejo de tomar os netos pra si. Mas o caminho até ele é longo. E a jornada rende situações de ironia fina graças à leveza com que o ator e cineasta Matt Ross conduz a narrativa – pela qual recebeu o prêmio de melhor diretor na seção Un Certain Regard do Festival de Cannes, em maio. As melhores peripécias: o processo de amadurecimento sexual do filho mais velho de Ben ao conhecer uma cocota e a ida da família a um restaurante diante da pergunta da filha caçula; “Pai, o que é Coca-Cola”?

Ben Cash (Viggo Mortensen) e sua prole

Tudo isso para de pé graças a um roteiro arejado por circunstâncias nas quais o humor mascara a angústia e por uma engenharia de filmagem que registra a paisagem verde (ou rochosa) à sua frente sem as abordagens documentais tão corriqueiras ao cinema indie. E, acima (e à frente) de tudo, há um ator de carisma e de inquietação que salta no precipício do desconhecido para tentar tentar descobrir quem Ben Cash junto com a gente. A generosidade de Viggo transborda cena a cena e nos comove. Uma indicação ao Oscar coroou seu desempenho magistral.

 

 

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