O Fagundes da França preside o júri de Cannes

O Fagundes da França preside o júri de Cannes

Rodrigo Fonseca

26 de abril de 2022 | 14h15

Vincent Lindon preside o júri da Palma de Ouro do Festival de Cannes de 2022, acompanhado das atrizes Deepika Padukone; Noomi Rapace; Rebecca Hall e Jasmine Trinca (ambas também diretoras); e dos cineastas Asghar Farhadi; Ladj Ly; Jeff Nichols; e Joachim Trier.

Rodrigo Fonseca
Contrariando especulações envolvendo os nomes de Penélope Cruz e Nicole Kidman, o Festival de Cannes convocou Vincent Lindon, o Antonio Fagundes do cinema francês, ator nº1 daquele país na atualidade, para presidir o júri da disputa pela Palma de Ouro de 2022, de 17 a 28 de maio. Integram o time de jurados quatro atrizes de peso: Deepika Padukone (Índia), Noomi Rapace (Suécia), Rebecca Hall (Inglaterra) e Jasmine Trinca (Itália), sendo que essas duas também são diretoras; e quatro cineastas: Asghar Farhadi (Irã); Ladj Ly (Mali – França); Jeff Nichols (EUA); e Joachim Trier (Noruega). Jasmine vai exibir, fora de concurso, seu primeiro longa-metragem como realizadora: “Marcel!”. A atração abertura do evento, no balneário, será “Coupez!”, comédia parisiense de zumbis de Michel Hazanavicius.

Cena de “Titane”, que o IMS exibe neste sábado, às 16h, no RJ

Parceiro de Juliette Binoche em “Avec Amour et Acharnement”, filme ganhador do Urso de Prata de Melhor Direção (dado a Claire Denis) na 72ª Berlinale, em fevereiro, Lindon povoa o imaginário cinéfilo dos europeus com grandes sucessos, entre eles o bestial “Titane”, o ganhador da Palma de Ouro de Cannes do ano passado. É um longa arrebatador que chegou ao Brasil diretamente na streaminguesfera, por meio da plataforma digital MUBI. Detalhe: neste sábado, haverá uma sessão presencial dele no Instituto Moreira Salles (IMS), às 16h, num programa duplo com “Cristine, o Carro Assassino” (1983), de John Carpenter. A produção que rendeu o prêmio cannoise máximo, em 2021, à diretora Julia Ducournau, é uma aula de terror biológico e tem Lindon num desempenho memorável. Aos 62 anos, o astro costuma ser comparado, aqui, com Fagundes por seu perfil de galã maduro. Em 2015, ele saiu da Croisette com o Prêmio de Melhor Interpretação Masculina por “O Valor de um Homem”. “Gosto de dar valor ao silêncio, quando atuo, por ele servir como diapasão ao sentimento dos personagens, num processo em que não posso psicologizar os gestos e as discussões, pois se o fizer, eu me engesso e artificializo o que precisa sair de modo orgânico”, disse Lindon ao Estadão durante o Festival de San Sebastián, na Espanha, em setembro.

Essa entrevista, presencial, fez parte da maratona promocional de “Titane”, um longa que gera um Fla x Flu de opiniões por onda passa. Foi assim na Mostra de SP, no Varilux e no Festival do Rio. Ducournau assume como protagonista uma psicopata com placas de titânio na cabeça, Alexia (a ótima atriz Agathe Rousselle), que engravida de um carro (!) e expele óleo diesel da vagina. Lindon é o chefe do corpo de bombeiros cujo filho desapareceu ainda menino. Ele passa anos tentando encontrar o garoto. Quando Alexia precisa fugir da polícia, ela vê um retrato falado do guri sumido que especula como estaria agora, já adulto. Ela nota semelhanças entre aquela figura e ela e decide assumir a identidade do rapaz. Tudo é bizarro, sim. Mas Lindon enxergou na trama premiada por um júri presidido por Spike Lee mais do que bizarrice. E é essa sensibilidade o que faz dele, hoje, um dos atores mais requisitados -e respeitados – da Europa.
“Quando um filme como esse ganha a Palma de Ouro, sua vitória serve como centelha a um debate sobre a representação de gêneros, sobre a condição masculina, sobre fatos e interpretações dos fatos”, disse Lindon, que começou a atuar em 1982 e já rodou longas com (a já citada) Claire Denis, Claude Lelouch, Claude Sautet e Benoît Jacquot, tendo no currículo cults como “Betty Blue” (1986) e “O Ódio” (1995). “Não tenho Facebook, Instagram, Twitter ou redes do tipo. Não gosto de me expor. Gosto de atuar e ajudar cineastas a criar”.
Saindo de Cannes, Lindon se entrega às filmagens da série “Tikkoun”, rodada por Xavier Giannoli.

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