O essencial Marão faz 50 de vida e 25 de animação

O essencial Marão faz 50 de vida e 25 de animação

Rodrigo Fonseca

27 de maio de 2021 | 13h29

“Eu Queria Ser Um Monstro” é um dos curtas mais cultuados do cineasta fluminense

Rodrigo Fonseca
Comemorando a presença de dois longas-metragens nacionais na competição de Annecy (“Meu Tio José” e “Bob Cuspe – Nós Não Gostamos de Gente”), a animação brasileira finca pés na retrospectiva online Estação Virtual, com uma série de curtas aclamados, como “O Projeto do Meu Pai”, de Rosária; “Vênus – A Fadinha Lésbica”, de Sávio Leite; “Subsolo”, da Érica Maradona e do Otto Guerra; “Fluxus”, de Diego Akel; e “Nimbus”, de Marcus Buccini, além de uma retrospectiva de um dos mais famosos cineastas da Baixada Fluminense. É sempre válido falar da importância de Nilópolis pra vida do homenageado pelo Estação, o animador Marcelo Marão, que, neste domingo completa 50 primaveras na Terra. Ao mesmo tempo em que sopra sua 50ª velinha de aniversário, o filho da Dona Zelma e do Seu Jorge (CEO do armarinho Estrela D’Alva), vai comemorar 25 anos de uma carreira pra matar qualquer cineasta de inveja. Seus 14 filmes – todos curtas-metragens, até agora, em que desenvolve o longa “Bizarros Peixes das Fossas Abissais”, a todo vapor – contabilizaram 121 prêmios, em passagens por 640 festivais. Dele, a mostra do www.grupoestacao.com.br selecionou “Até a China” (2015), “Eu Queria Ser Um Monstro” (2009) e (o brilhante) “Chifre de Camaleão” (2000), além das coletâneas “Engolervilha” (2003) e “Engole ou CospErvilha?” (2013). Na entrevista a seguir, Marão fala de sua história, avalia a trajetória do cinema animado num país que perdeu o Anima Mundi (parado desde a edição de 2019) e celebra a resiliência de um setor que filma com pouco dinheiro, mas com muito amor – substantivo que torna o animador uma figura essencial às artes.

Marão num retrato em tons surrealistas

De que maneira a animação brasileira vem tomando um caráter mais industrial e de que maneira as indicações de Annecy coroam a saúde produtiva do setor?
Marão:
A animação brasileira completa este ano cento e quatro anos de existência. Porém, nos últimos quinze anos, deu-se um crescimento em progressão geométrica sem paralelo com qualquer outra faceta do audiovisual nacional. Graças à combinação do festival Anima Mundi, a criação da ABCA e as leis de incentivo e de mecanismos de fomento da última década e meia, a animação brasileira – focada em publicidade e curtas autorais pontuais, nos seus primeiros 90 anos – explodiu em múltiplas direções. Atualmente, há mais de 40 longas animados em plena produção e mais de 50 séries animadas em exibição. O longa e a série NÃO são uma evolução do curta, mas um caminho distinto e essencial, que deve ser percorrido em concomitância. É crucial e muitíssimo saudável pra arte e pra indústria, mutuamente, que haja o contínuo estímulo aos curtas autorais, assim como o fomento aos longas e às séries de TV. O mercado e os profissionais se nutrem uns dos outros, nas experiências narrativas e estéticas, tanto quanto na logística de produção, de estruturação de equipe, de formação (acadêmica ou empírica), de distribuição e de exibição em formatos e direções que não existiam há muito pouco tempo. O caráter industrial mescla a originalidade e a autoralidade de séries e longas de animação brasileiros, oriundos de pessoas que se interessaram e se formaram no mundo da animação através de sessões no Anima Mundi. Contou também a compreensão e a concordância da necessidade de uma verba justa e de um cronograma adequado para a equilibrada e correta dedicação à confecção de um curta metragem. As indicações de Annecy de obras tão idiossincraticamente ligadas aos realizadores e realizadoras do Brasil – como Luiz Bolognesi, Alê Abreu, Rosana Urbes, Cesar Cabral ou Ducca Rios – evidenciam quão única é a voz da animação brasileira e como a essa voz e seu traço falam para diversas gerações, dos mais variados povos.

Em que pé está o projeto “Bizarros Peixes das Fossas Abissais” e que novas descobertas você vem fazendo sobre essa trama, enquanto ela vai sendo desenvolvida?
Marão:
Este é o meu primeiro longa-metragem. Nunca havia feito um longa. Eu nunca havia trabalhado em um longa. E eu sabia que não funcionaria emular a estrutura e logística de organização de longas de grandes estúdios ou sequer de pequenos estúdios que tivessem um perfil mais industrial. Fiz da forma menos profissional possível. Fiz como fazia os curtas. Fiz tudo do jeito errado. Mas era intencional; eu sabia que era a forma errada – mas era assim que eu queria fazer. Será que terei oportunidade de fazer outro longa após este? Não sei. O futuro é incerto. Mesmo o futuro muito próximo – quase imediato – é incerto. Então decidi fazer da forma que me fazia feliz, do modo que a intuição me sugeria, fiz do modo que era o modo mais honesto de levar a cabo, e que, justamente, é o meu modo errado – mas é assim que eu faço. O roteiro é um fiapo de história, sendo improvisada à medida que avança. Por que vou decupar uma hora e meia de planos e depois seguir isso por quatro anos de trabalho, como se eu estivesse sendo um prestador de serviços para o meu eu do passado? Nunca me apeteceram os animatics nem model sheets como estrutura de produção pessoal. Não me entenda mal: eu adoro assistir animatics, ler storyboards e namorar model sheets de projetos das outras pessoas; só acho que não funciona comigo. Sei que é o certo e que funciona; concordo! Só não faço. Quero dizer: em última instância; eu faço, mas faço à medida que o trabalho avança. Se vou passar mais de mil noites debruçado sobre a mesa de luz, animando o mesmo filme, quero me divertir fazendo. Quero que o momento de animar, de desenhar com o lápis no papel seja o momento mais divertido, mais empolgante, mais feliz. Não faço pra ficar pronto. Faço porque me dá prazer o momento de desenhar, de animar, de tomar decisões na atuação e na história, enquanto a narrativa avança. A cena que vou animar esta semana será diferente dependendo de quais quadrinhos li, de quais filmes vi ou das pessoas com quem conversei nos últimos dias. Ao contrário do que seria sensato, este longa está sendo animado em ordem cronológica. As seqüências são criadas e decupadas e modificadas enquanto a história avança sem rumo fechado. Não sei o final. Ainda não tem final. Sei que, hoje de madrugada, o peixe-monge invisível irá enfrentar isópodes do tamanho de caranguejos. Mas não sei ainda como. Farei o storyboard, sim. Farei. Mas não dois anos antes. Farei imediatamente antes de animar. Creio que eu não teria estamina pra isso, se tivesse que seguir todo um trajeto já estipulado e engessado desde o princípio.

Cena do longa-metragem “Bizarros Peixes das Fossas Abissais”

Qual é o tamanho da sua equipe, qual é o seu orçamento e qual é o seu cronograma?
Marão:
Gravamos vozes antes, claro – preciso das vozes finais para a decupagem do sincronismo labial; preciso animar a posição das bocas já com o áudio das vozes na sua edição definitiva. Mais um problema que provoco para minha destemida produtora Letícia Friedrich, porque – nesta minha balbúrdia organizacional de roteiro – algumas falas caíram e descobri que precisaremos gravar outras novas. A aguerrida Rosária e o intrépido Fernando Miller – que amo como profissionais assim como amo como pessoas essenciais na minha vida e que dividem comigo a animação do longa – me dão muito mais broncas do que o inverso. Sou o patrão que leva bronca. Habituados a receberem cenas com decupagem e minutagem rígidas e design de personagens a serem seguidos; eu sei que complico a vida deles ao dizer que nesta cena a tartaruga será levada pela correnteza, mas que eles podem escolher os ângulos e cortes que quiserem e que a duração da cena depende do que eles acharem melhor. Sei que redação com tema livre é mais difícil, embora inicialmente possa parecer o contrário. Mas ouço muito a opinião deles. E acato. Convidei Letícia e Rosaria e Miller e Silvana e Yohana e Wesley Rodrigues e Duda Larson e Ana Luiza e Alessandro Monnerat porque admiro e respeito e estimo quem eles são – e isso significa um afeto e arrebatamento pelo trabalho autoral destas pessoas, que são geniais e sinceras nas suas vozes, nos seus labores. Não vou chamar estas pessoas tão originais, tão autorais, tão criativas e dizer pra elas o que fazer. Quero a voz delas ali também. É uma equipe bem pequena, realmente muito pequena em comparação a uma equipe de um longa-metragem. Mas você se lembra do Loki dizendo que tem um exército e o Stark respondendo que ele tem um Hulk? Não temos um estúdio com uma grande equipe, mas temos uma Rosária. E um Miller. E uma Letícia. E muito amor e carinho. A equipe só tem pessoas que eu amo profundamente. Porque é disso que a gente vai se lembrar depois que estiver pronto. Das pessoas, das conversas. Sobre o orçamento; só para fins de comparação: o orçamento total do nosso longa inteiro é o equivalente à verba de nove segundos de “Soul”. É o mesmo valor de 9 segundos da Pixar. O prazo foi afetado pela pandemia. Vamos terminar em seis meses.

De que maneira esses curtas que o Estação Virtual escolheu demarcam a sua história como animador?
Marão:
Meu primeiro filme de animação foi meu projeto de graduação na UFRJ, realizado com ajuda dos amigos e da família. Tenho uma lembrança muito simbólica e afetiva da sua primeira sessão pública em uma sala de cinema, que aconteceu na sala 1 do Estação Botafogo. Era a primeira vez que uma animação minha seria projetada em uma sala de cinema de verdade – e tive a honra de ter essa experiência emocional única neste local tão especial, histórico e fundamental. Foi uma noite histórica e memorável pra mim, com a calorosa presença da minha amada família e meus amigos – que também eram minha equipe – e que tinham me acompanhado por dois anos e meio nesta neófita produção. Uma noite da qual sempre me lembro comovido, com muito carinho e saudade. E que aconteceu dentro daquela sala tão querida em 1996. Há exatamente VINTE E CINCO anos. Fico incomensuravelmente honrado e comovido com o carinho do Estação Virtual ao escolher filmes que pontuam praticamente todas as etapas da minha carreira, desde os primeiros filmes de recém-formado, passando pelas realizações coletivas, cobrindo duas décadas e meia de vida profissional, até chegar nos dias de hoje. E me faz lembrar de tudo.

Vale lembrar que tem longa animado no Estação Virtual também: “Wood & Stock – Sexo, Orégano & Rock’n’Roll”, (2006), de Otto Guerra, produzido por Martha Machado a partir das HQs de Angeli.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.