O suave ‘espectro movie’ de Edgard Navarro

O suave ‘espectro movie’ de Edgard Navarro

Rodrigo Fonseca

30 de julho de 2019 | 10h47

Hamilton Oliveira tangencia o lúdico no jogo de cores da Bahia de antíteses retratada em “Abaixo a gravidade”, ao retratar o jogo de enamoramento entre os personagens de Rita Carelli e Everaldo Pontes

Rodrigo Fonseca
Sob as bênçãos dos Erês da Bahia, no próximo 12 de Outubro, Dia das Crianças, o Nietzsche do cinema baiano, Edgard Navarro, diretor do mítico “SuperOutro” (1989), chega aos 70 anos. Na sabedoria do seu viver, prestes a lançar o ebó chamado “Abaixo a gravidade”, em cartaz desta quinta-feira em diante, ele espirra o pirlimpimpim da resistência ao falar da jira que liberou no set de filmagem desta saga sobre um samurai nordestino. Por isso, não se sai incólume de suas frases, como “a respiração de Deus é lenta”, “a convivência com a sombra da impotência gera um surto de humilhação” e “o ego principal de um filme tem que ser o da metáfora”. Todas foram colhidas no processo de educação pelo afago e pelo afeto que é papear sobre essa love story de um homem por si mesmo… e pelo ideal de Belo que há na Humanidade, encarnado na doçura de uma jovem. É um filme de respiro: embora cause tétano em nossa letargia moral, a saga de andanças filmada pelo realizador do analgésico “Eu me lembro” (2005) comporta, em si, o adjetivo “suave”. Em sua suavidade há um trânsito da metafísica habitual desse bissexto (mas sempre contundente) cineasta para a corporalidade, no trâmite da potência ao ato… inclusive o ato falho de querer mais do que o poder e o Poder permitem. Nele, a fotografia de Hamilton Oliveira nos presenteia com uma Bahia translúcida, de cores contrastadas, com um devir de antíteses digno de Gregório de Mattos, indo dos borrões da miséria ao enlevo do gozo amoroso. E há pelo menos uma sequência memorável, uma das mais lindas de nosso cinema nesta década, que é a de orgasmo existencial que desafia as leis vetoriais.

Nestes tempos de lacração da indelicadeza, Navarro nos leva para voar numa ode ao verbo perseverar, que reflete como a finitude da matéria embota a alma. Seu longa-metragem é um poema com ares de aforisma nietzschiano e perfume de Wim Wenders. “Abaixo a gravidade” se impõe na tela como um “Asas do desejo” à baiana, com direito a um pôster do mesmo na premiada direção de arte de Moacyr Gramacho. Estamos diante de um “espectro movie”, um road movie pela alma, numa andança de territórios, biologias e vivências. O desempenho de Rita Carelli (uma atriz sempre surpreendente) e de Everaldo Pontes, ambos em estado de graça, como um quase casal, resvala no Coppola de “O fundo do coração”, o adorado “One from the heart”, em sua transubstanciação do impasse amoroso.

O diretor Edgard Navarro em foto de Natália Reis: 70 anos no Dia das Crianças

Anárquico, “Abaixo a Gravidade” acompanha a trajetória de Bené (Everaldo, magistral). Ele é um velho sábio, curandeiro ligado ao budismo e à reza da roça, que vive uma vida pacata no Capão, na Chapada Diamantina, onde conhece Letícia, jovem grávida por quem se apaixona. Algum tempo depois do parto (que ele mesmo faz) a moça volta para Salvador e ele a segue com o pretexto de cuidar da própria saúde. Na capital, Bené se divide entre Letícia e sua irmã bipolar, Malu, ambas interpretadas por Rita Carelli, ao mesmo tempo em que se depara com vários personagens, entre eles Maisselfe (Bertrand Duarte), um classe-média em crise; o irascível Galego (Ramon Vane) e o sonhador Mierre (Fabio Vidal), enquanto um asteroide denominado Laetitia se aproxima da Terra e poderá provocar a perda momentânea de gravidade na região da Baía de Todos-os-Santos.

Que geografia é essa que o teu filme desenha, no relevo entre um mato de comidas naturais e uma cidade urbanizada a mendingos e exclusões? O que da Bahia real reside na sua Bahia cósmica?
Edgard Navarro:
Em minha Bahia cabe tudo isso, desde o “Superoutro”: é um amálgama perverso do sublime e do grotesco, onde se encaixa Bené, esse protótipo de herói anacrônico, trânsfuga de suas próprias fantasias e convicções. Você pergunta o que há de mim na personagem: eu devolvo com outra pergunta, o que será essa combinação esdrúxula senão componentes de Maisselfe? Vejo em mim uma contradição que há em Bené, que é um lugar de convivência entre as forças instintivas e o inefável. Essas instâncias têm de conviver.

Qual é o lugar de religiosidade que há numa história que une budismo, benzedeiros e Exu?
Edgard Navarro: Fui criado em colégios de padres e freiras, o que sempre me apresentou às liturgias da transcendência mesmo que eu não me encaixasse ali. Na Comunhão, achei que Deus fosse entrar em mim. Eu vi muita hipocrisia, mas algo do Coração de Jesus me ficou. Eu quero essa sensação do que é transcendente. É uma sede que está na minha alma e que me leva, neste filme, a um cheiro de Dostoiévski e seu “O idiota”, quando ele diz que “a beleza há de salvar o mundo”.

De que maneira as suas próprias primaveras, ou seja, a experiência de envelhecer, pesam na saga de Bené? O que existe do dilema físico nesse universo?
Edgard Navarro:
O envelhecimento nos traz necessariamente limitações e ânsias próprias, assim que boa parte de mim está em Bené e vice-versa; aliás, a inspiração para a personagem me veio através do convívio com (o roteirista e diretor baiano) Luiz Paulino dos Santos, cuja fome de transcendência e generosidade inerentes me deram o leitmotiv e a metáfora em que me apoiei pra escrever o filme.

Temos um radical exercício de liberdade. Como é essa liberdade no teu set, no processo com os atores? Edgard Navarro: A liberdade almejada foi ficando pra trás no decorrer do processo de realização e devo dizer que não alcancei muito do que pretendia ao começar; de cara entendi que eu era enormemente menos virtuoso do que desejava ser.

 

 

 

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.