O elogio de degelo segundo Roberto Gervitz

O elogio de degelo segundo Roberto Gervitz

Rodrigo Fonseca

02 de maio de 2016 | 13h37

Roberto Gervitz dirige Mariana Ximenes e Armando Babaioff nas filmagens de

Roberto Gervitz dirige Mariana Ximenes e Armando Babaioff nas filmagens do tocante “Prova de Coragem”: diálogo com a prosa de Daniel Galera em forma de balanço geracional

Ninguém tem CEP fixo no Brasil de incongruências afetivas construído por Roberto Gervitz ao longo de uma obra curta, mas indispensável para o entendimento da condição masculina (sobretudo, a solidão do macho que sente, deseja e teme) num país ainda preso a convenções de gênero medievais, a preconceitos sexistas e a uma noção fálica de progresso profissional. Bastam alguns minutos de Prova de Coragem, drama de vigor indiscutível e de uma beleza plástica assegurada pela fotografia de Lauro Escorel, para entendermos o quanto os personagens deste cineasta paulista tão bissexto são incompatíveis com qualquer freio emocional e qualquer imposição de arquétipos amorosos. Sumido das telas desde Jogo Subterrâneo (2005), espécie de Divina Comédia da geração que amadurecei seu eros da década de 1980, ele põe seus protagonistas num constante trânsito, sempre interno e ora também externo, em andanças catárticas de autoentendimento, a afim de atenuar a angústia de não pertencimento que os atropela. Assim fala o novo longa-metragem deste adaptador de obras literárias, marcadas por um olhar sobre a acomodação de velhas feridas, como visto em Feliz Ano Velho (1987), filme que o consagrou como uma das maiores promessas daquele período de neon noir e outras bossas.

Embora tenha filmado bem menos do que seu talento poderia ter permitido, num trabalho ruminante de aparar aresta por aresta de seus filmes com um requinte de ourives, Gervitz regressa agora pelas páginas do gaúcho Daniel Galera, numa adaptação livre (bem livre e leve) do romance Mãos de Cavalo. Em um exercício de deslizamento da prosa à imagem, onde busca rudimentos e sentimentos do livro, Gervitz amassa o pão nosso do desamor e da incompletude de cada dia ao narrar os dilemas do médico Hermano (interpretado com fervor por Armando Babaioff). Ele se vê perdido diante de escolhas, de lembranças e de uma gravidez que não deseja para seu futuro com a mulher, a artista plástica Adri (Mariana Ximenes, cada vez mais radical em suas escolhas e mais madura em suas atuações).

Na tela, Gervitz opera no fluxo das recordações de Hermano, extraindo desse sujeito indeterminado em seu próprio querer uma beleza mesmo nas passagens de maior rancor. É claro que suas inconstâncias, mágoas e incompatibilidades com a esposa têm a ver com chagas de um pretérito quase perfeito, mas fraturado por uma tragédia entre amigos. Por isso, num empenho psicanalítico – levemente junguiano, comum a todas as obras do cineasta -, Gervitz vasculha o passado atrás dos símbolos absolutos e significados relativos que justificam os gestos tortos de Hermano. Ele deseja uma escalada nas montanhas da Terra do Fogo, que simboliza a realização de um sonho antigo de liberdade física – e também a satisfação de que, nas alturas, ele pode encontrar paz.

Mas entre subidas e descidas nas cordilheiras de uma alma tensa, Gervitz cria uma interseção poética entre o hoje e o ontem, com o apoio de um primoroso elenco juvenil e de uma câmera vigorosa, que gera, na cor e na luz, um espelhamento invertido entre as duas épocas. Numa há quentura, noutra frieza hospitalar. A partir dessa interseção, o cineasta faz o elogio do degelo de calotas emotivas que parecem sólidas, mas se desmancham ao menor movimento do coração.

p.s.: Este fim de semana, a Cinemateca de São Paulo, nas salas BNDES e Petrobras, promove uma mostra com a obra completa de Roberto Gervitz, incluindo um documentário precioso: Braços Cruzados, Máquinas Paradas, de 1979.