‘O Doutrinador’ para o alto e avante

‘O Doutrinador’ para o alto e avante

Rodrigo Fonseca

07 de julho de 2020 | 12h53

Rodrigo Fonseca
Mais importante vigilante da história dos quadrinhos brasileiros, O Doutrinador volta agora sua mira para o streaming nacional, integrando a seleção do Globoplay, mas já se encontra de tocaia para voltar às prateleiras das gibiterias e bancas, pela pena de seu autor, Luciano Cunha:
“Depois de três anos, tem material inédito no forno, com previsão de lançamento para início de agosto. A nova aventura, intitulada ‘O Vírus Vermelho’, joga o Doutrinador numa trama de espionagem, bioterrorismo e geopolítica internacional, na tentativa de alçar voos maiores para o personagem em mercados fora do Brasil, com um tema mais universal”, explica Cunha ao P de Pop. “E, atendendo a muitos pedidos, a editora Super Prumo, nova casa do Doutrinador, está preparando a reedição do encadernado com as três aventuras anteriores para uma nova edição ainda este ano”.
Mas o que dizer do filme baseado nesse Frank Castle do Brasil?
Espetáculo pop como há tempos não se via na América Latina, “O Doutrinador” é o maior acerto do cinema brasileiro em duas frentes: 1) a transposição de quadrinhos nacionais para as telas; 2) a consolidação de uma estética local sólida no diálogo com a cartilha universal dos filmes de ação. A trama é simples: agente classe A de uma força policial de elite, Miguel Montesanti (encarando com maestria por Kiko Pissolato) se vê nas raias do inferno ao perder sua filha, morta em um hospital público sem recursos, e resolve que é hora de fazer os corruptos sangrarem, assim como a menina sangrou. O heroísmo não tem lugar em seus atos: só o desespero, desenhado na tela em meio a sequências de ação exuberantes, mas que não diluem o tônus reflexivo do roteiro, em especial quando Eduardo Moscovis está em cena como bandido de colarinho branco.

Há tempos, cineastas nacionais investem no filão, como se viu em “Federal” (2010), de Erik de Castro; e “Operações especiais”, de Tomas Portella; e “A divisão”, de Vicente Amorim. No entanto, entre tudo o que já se viu em cartaz, o trabalho do cineasta Gustavo Bonafé (em esquema de codireção com Fábio Mendonça) é o que mais e melhor se aprofunda nas camadas morais e antropológicas do gênero. A partir do anti-herói das HQs criado por Luciano Cunha, ele cria uma trágica (e tecnicamente exuberante) alegoria sobre o alarmismo de nossa sociedade, diante da ilegalidade. Não há fins que justifiquem os meios do mascarado, mas sua opção em matar ganha, na telona, uma dimensão crítica de debate sobre desgovernos e crises simbólicas. Estamos diante de uma radiografia moral de um Brasil fictício, ainda que bem parecido com o do mundo real, onde não se falam em partidos, nem em políticos específicos da Brasília de carne e osso. A vilã aqui é a corrupção em si, retratada como deformação da genealogia da moral brasileira.

Um esquadrão de roteiristas – incluindo nas suas fileiras próprio Luciano Cunha e Gabriel Wainer, os idealizadores do projeto, ao lado de Mirna Nogueira, L.G. Bayão, Rodrigo Lages, Guilherme Siman e Denis Nielsen – encontrou uma forma narrativa que faz jus à tradição dos filmes sobre justiçamento com Chuck Norris, Charles Bronson e outras lendas dos thrillers urbanos.

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