O Doutrinador na mira do Grande Prêmio e de novos leitores

O Doutrinador na mira do Grande Prêmio e de novos leitores

Rodrigo Fonseca

18 de junho de 2019 | 09h54

Rodrigo Fonseca
Às vésperas das férias escolares, as atenções do cinema nacional se voltam para o lúdico “Turma da Mônica: Laços”, que vem da nossa longa tradição de tranportar HQs para a telona, vide “O Judoka”, “Wood & Stock – Sexo, orégano & rock’n’roll”, “Rio de Jano“, uma penca de .docs sobre a obra de cartunistas famosos e o essencial “O Doutrinador”. É este o que mais merece a nossa atenção, agora que se metamorfoseia em série de TV e que concorre ao Grande Prêmio do Cinema Brasileiro (a ser entregue no dia 14 de agosto, em local ainda não anunciado) em
três categorias: MELHOR SOM, EFEITOS VISUAIS e FIGURINO.
Saiu uma nova fornada do gibi que o inspirou, junto com “Os desviantes”, o genial “O Santo” e “Pérola”. O do herói mascarado já esgotou em várias bancas. Por mérito de sua narrativa e de seu filme.
Espetáculo pop como há tempos não se via na América Latina, “O Doutrinador” é um dos maiores acertos recentes do cinema brasileiro em duas frentes: 1) a transposição de quadrinhos nacionais para as telas; 2) a consolidação de uma estética local sólida no diálogo com a  cartilha universal dos filmes de ação. A trama é simples: agente classe A de uma força policial de elite, Miguel Montesanti (encarando com maestria por Kiko Pissolato) se vê nas raias do inferno ao perder sua filha, morta em um hospital público sem recursos, e resolve que é hora de fazer os corruptos sangrarem, assim como a menina sangrou. O heroísmo não tem lugar em seus atos: só o desespero, desenhado na tela em meio a sequências de ação exuberantes, mas que não diluem o tônus reflexivo do roteiro, em especial quando Eduardo Moscovis está em cena como bandido de colarinho branco.


Há tempos, cineastas nacionais investem no filão, como se viu em “Federal” (2010), de Erik de Castro; e “Operações especiais”, de Tomas Portella – e ainda vem aí, cercado de expectativa, “A divisão”, de Vicente Amorim. No entanto, entre tudo o que já se viu em cartaz, o trabalho do cineasta Gustavo Bonafé (em esquema de codireção com Fábio Mendonça) é o que mais e melhor se aprofunda nas camadas morais e antropológicas do gênero. A partir do anti-herói das HQs criado por Luciano Cunha, ele cria uma trágica (e tecnicamente exuberante) alegoria sobre o alarmismo de nossa sociedade, diante da ilegalidade. Não há fins que justifiquem os meios do mascarado, mas sua opção em matar ganha, na telona, uma dimensão crítica de debate sobre desgovernos e crises simbólicas. Estamos diante de uma radiografia moral de um Brasil fictício, ainda que bem parecido com o do mundo real, onde não se falam em partidos, nem em políticos específicos da Brasília de carne e osso. A vilã aqui é a corrupção em si, retratada como deformação da genealogia da moral brasileira.


Um esquadrão de roteiristas – incluindo nas suas fileiras próprio Luciano Cunha e Gabriel Wainer, os idealizadores do projeto, ao lado de Mirna Nogueira, L.G. Bayão, Rodrigo Lages, Guilherme Siman e Denis Nielsen – encontrou uma forma narrativa que faz jus à tradição dos filmes sobre justiçamento com Chuck Norris, Charles Bronson e outras lendas dos thrillers urbanos.
Guará é a editora que lança a saga do Doutrinador. Olho nela.

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