‘O Crime da Gávea’ revive o charme do cinema policial brasileiro

‘O Crime da Gávea’ revive o charme do cinema policial brasileiro

Rodrigo Fonseca

04 Fevereiro 2017 | 13h40

Um dos mais prolíficos dramaturgos da TV no Brasil, Marcílio Moraes assina o roteiro de

Um dos mais prolíficos dramaturgos da TV no Brasil, Marcílio Moraes assina o roteiro de “O Crime da Gávea”, thriller carioca com perfume de cinema noir

RODRIGO FONSECA

Que joia rara para a dramaturgia audiovisual brasileira contemporânea é o inspetor Afrânio, o maior achado do filme O Crime da Gávea, que estreia no dia 9 de março, resgatando o charme do cinema policial no Brasil. Policial de investigação, tipo Relatório de um Homem Casado (1974) ou A Próxima Vítima (1982), e não thriller social como Tropa de Elite (2007) e congêneres do filão favela movie. Sórdido, grosso, louco por turfe, ciente das limitações orçamentárias de um funcionário público carioca, avesso a marginais pobres e suficientemente esperto para extorquir uma graninha sem comprometer a eficiência investigativa, Afrânio, interpretado com palavras mascadas (e com um carisma arrebatador) por Celso Taddei (roteirista do programa Zorra Total), é o estandarte da ética (ou da ausência dela) nesta produção escrita e produzida por um ás da teledramaturgia: Marcílio Moraes, autor de novelas como Vidas Opostas (2006). A direção é de André Warwar (do ótimo curta Retrato Falhado), que dialoga com precisão com a tradição do noir moderno, imprimindo um ritmo de reviravoltas que lembra Corpos Ardentes (1981), de Lawrence Kasdan. Há em seu longa-metragem amantes suados, intriga de morte, a busca por culpados entre desvalidos, uma crônica da noite na Zona Sul do Rio e Taddei numa atuação que nos ganha pelo terreno da surpresa – rosto pouco frequente na tela, ele desenha Afrânio como a encarnação da sordidez entre os homens da Lei do Brasil.

Celso Taddei é o inspetor Afrânio: aula de cinismo

Celso Taddei surpreende como o inspetor Afrânio: aula de cinismo na ala da Lei

Baseado no romance do próprio Marcílio sobre um caso de assassinato, O Crime da Gávea ganha o espectador pelo exercício azeitado da cartilha policialesca do “quem matou e por quê”, assumindo uma discreta metalinguagem que lembra Um Tiro na Noite (1981), de Deus… digo, de Brian De Palma. Um montador de filmes é o seu protagonista: Paulo (Ricardo Duque) é um editor que, ao chegar em casa, encontra o cadáver de sua mulher, Fabiana (Aline Fanju, um talento ainda pouco valorizado pelo cinema, que esteve avassaladora na peça Decadência). Fabiana morreu vítima de um golpe de um abajur de ferro. Ela é rica de berço; ele, pobre. Suspeitas se levantam, mas logo se esvaem, conforme uma prova do assassínio – pegadas de lama de um sapato de sola de couro – demonstram não ter sido Paulo o culpado. Quem revela isso é Afrânio, após um inquérito no qual Taddei vence o espectador por nocaute: cada pergunta dele, vem calçada de ironia masoquistamente saborosa.

Simone Sopoladore é a femme fatale e Ricardo Duque vive o viúvo em busca de respostas

Simone Sopoladore é a femme fatale e Ricardo Duque interpreta um viúvo em busca de respostas

Lá pelas tantas, entra na trama um traficante (Silvio Guindane) como um potencial elemento para a equação de perversidade montada por Afrânio. E, nessa equação, a raiz quadrada da Morte pode ser a femme fatale Elisa (Simone Spoladore, sempre no ponto de fervura certo), amante de Paulo. Para complicar ainda mais o jogo de armar, um professor de roteiro (Roberto Birindelli), com quem Fabiana estudou, cruzará a rota de Paulo, bagunçando mais ainda suas certezas e as nossas. E ali o suspense cresce.

Fora a construção de sensualidade e de cinismo no exercício de gênero da direção de Warwar, O Crime da Gávea deixa como legado um dos personagens de maior azedume de nosso cinema recente, no olhar sobre a liturgia da Polícia, que é Afrânio. Antes dele, só o delegado encarnado por Milton Gonçalves em O Cobrador – In God We Trust (2006), de Paul Leduc, e o capitão Fábio, vivido por Milhem Cortaz no já citado Tropa de Elite, tinham tanta corrosão. E como é bom ver de volta (refeito com gás) um formato que, entre o fim dos anos 1960 e a segunda metade da década de 1980, gerou para o cinema brasileiro exercícios de estilo como Máscara da Traição (1969) e A Dama do Cine Shangai (1987).