‘O censor’, radiografia teatral de desejos incompreendidos

‘O censor’, radiografia teatral de desejos incompreendidos

Rodrigo Fonseca

04 de maio de 2019 | 12h19

Rodrigo Fonseca
Numa das epístolas de “Cartas roubadas”, que publicou no fim dos anos 1980, o ator Gérard Depardieu faz um balanço sobre a perda de seu diretor (e, acima de tudo, amigo) François Truffaut (1932-1984) em que diz: “Quando ele morreu, acabaram as histórias de amor”. Talvez por isso, uma inusitada citação ao “homem que amava as mulheres”, responsável por marcos como “Os incompreendidos” (1959), na peça teatral “O censor”, em cartaz no Rio de Janeiro na Sala Multiuso do Estação Net Botafogo, soe tão precisa (e bem-vinda), capaz de repaginar o sentido da dramaturgia do escocês Anthony Neilson. É bom não dizer onde Truffaut entra na vertigem cênica que a trinca de áses composta por Emilze Junqueira, Patrícia Niedermeier e Alexandre Varella criam na salinha (bem) improvisada no complexo exibidor carioca. Seria mais do que um spoiler: seria uma ruptura com a carga de sinestesia que a trupe, que dirige a experiência com o cineasta Cavi Borges, propõe. Estamos diante de uma cartografia da moral – 75% teatro e 25% cinema – que já abre brechas para o distanciamento em seu ritual de imersão. Não faz bem romper com seu código de surpresas. Sobretudo porque sua surpresa é truffautiana: ela passa por um inusitado suspiro de redenção por uma hipótese de apaixonamento, um ensaio de afeto, num mar de confronto ético e estético.

Acostumado a ser censurado por seu palavreado furioso, Neilson entrega aqui um debate (ou combate) sobre a dimensão libertária na Arte num mundo em que “autonomia” é ofensa e que “liberdade” é delito. A tradução feita por Varella adapta para as expressões idiomáticas locais a esgrima travada numa Escócia universal, onde o pudor é institucionalizado. Na trama que Cavi (um dos mais prolífico produtores e cineastas nacionais), Patrícia Varella levam aos palcos, uma cortina de cenas filmadas por grandes mulheres (Agnès Varda é uma delas, além da romena Adina Pintilie, que ganhou o Urso de Ouro de 2018 com “Touch me not”) abre a narrativa. Adornam esse mosaico de ritos do feminino os movimentos que Patrícia coreografa em cena, como um bale vetorial. Cada vetor é um indício de caminho para esse e outros femininos caminharem.

Logo em seguida, entra a palavra, essa força de aceleração que impulsiona interdições e faz gaguejar as contemplações. A palavra tem o corpo e o terno nigérrimo de Varella, que faz de sua voz maviosa um vulcão em erupção. Cada lava que salta de sua boca contrasta com o tom discreto que seu personagem optou para si, encasulado em sua vergonha e suas castrações. É um contraste consciente e riquíssimo dramaturgicamente, que revela o Truffaut que existe naquele cadáver animado. O botão que liga o “menino selvagem” em dormência no peito do censor é uma cineasta. Uma diretora cheia de apreço pelo papel libertário do sexo. O papel cabe a uma inspirada Patrícia, sempre de fala mansa, compreensiva, maternal. É uma valquíria de imagens, numa cavalgada de libertação: é desejo dela que seu filme, carimbado com a tinta de censurado, possa ganhar a luz da sala escura. Luz à qual o trabalho de Luiz Paulo Nenen (como iluminador) empresta um lirismo sacro.

Realizadora e bedel brigam furiosamente, cada um com suas armas, até que ela se imola, em tesão, não para dissuadi-lo, mas para libertá-lo. A medida do claustro dele parece ser a esposa, vivida com uma sutileza arrebatadora por Emilze. Mas a função de Neilsen é o desvelamento da arte enganadora do “parecer”. O que é não ilude. O que é emancipa. O casamento não é a prisão de “O censor”. A prisão é a mentira que se torna instituição. A persona a quem Varella empresta suas carnes – numa atuação salivante, que lembra os melhores momentos de Dirk Bogarde (1921-1999) nas telas, tipo se viu em “Darling – A que amou demais”, 1965 – é um cárcere a céu aberto. Um céu confinado num escritório abandonado num porão. Escritório sem frestas, dado a exibições de filmes pornô e masturbações da onipotência. Cabe a uma cineasta levar flores a um jardim de seiva seca. Cabe a ela fazer Truffaut. Peça rica.

p.s.: Envolvido com a série “Kidding”, para a Amazon, o francês Michel Gondry vai ganhar uma homenagem pela sua carreira como cineasta e roteirista – “Brilho eterno de uma mente sem lembranças”, de 2004, rendeu um Oscar a ele – no Festival da Transilvânia, na Romênia, que vai de 31 de maio a 9 de junho. Vai ter ainda projeção de “O conformista” (1970), em réquiem para Bertolucci. Ganhador do Urso de Ouro em Berlim, o aclamado “Synonymes”, de Nadav Lapid, vai estar na programação, assim como “Gloria Bell”, com Julianne Moore.
p.s.2: De carona no sucesso mundial de “Vingadores: Ultimato”, a TV Globo vai exibir “Capitão América: Guerra Civil” nesta segunda-feira, às 22h15, na Tela Quente.

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