O caixeiro do Irã: a obra-prima de Cannes em 2016

O caixeiro do Irã: a obra-prima de Cannes em 2016

Rodrigo Fonseca

20 de maio de 2016 | 21h45

“The Salesman”, do iraniano Asghar Farhadi: brilho ainda em riste após o Oscar por “A Separação” (2011)

Daqui a algumas horas no ponteiro francês, o 69º Festival de Cannes receberá o último dos 21 longas-metragens em disputa pela Palma de Ouro de 2016: o thriller Elle, do holandês Paul Verhoeven (de Instinto Selvagem), tratado aqui como um xodó de todos (nós) que tivemos seus filmes de ação como nossas babás. Mas antes que Isabelle Huppert escancare seu talento na telona do Palais des Festivals, à frente do suspense dirigido por este artesão das cartilhas de gênero, é preciso entender o que o iraniano The Salesman, o penúltimo concorrente, exibido esta noite representa para este coletivo de histórias e para os rumos do Irã no cinema. Não importa se ele vai ganhar algo ou não. Importa que ele é, de longe, o melhor até agora. Já imaginou ver teatro americano moderno – leia-se Arthur Miller – encenado nos palcos da terra de Abbas Kiarostami como mote para um exercício metalinguístico sobre distintas formas de representação dos valores morais – sobretudo os valores da Masculinidade? Pois é isso o que nos deu Asghar Farhadi, mesmo diretor de A Separação, Oscar de melhor filme estrangeiro em 2012. Nele, o professor e tambêm ator Emad (vivido com genialidade por Shahad Hosseini) está montando A Morte de um Caixeiro Viajante nos palcos de sua pátria. Em meio aos ensaios e à dura rotina em seu colégio, com estudantes conectados no celular a aula toda, Emad descobre que sua mulher foi agredida por um homem misterioso. Ele invadiu a casa para onde o casal acabou de mudar. O local, segundo os vizinhos, foi a casa de uma garota de programa – ou coisa do tipo – e o agressor era ligado a ela. Para defender sua honra, Emad investiga o caso, dando margem para que Farhadi estabeleça uma relação entre cinema, teatro, docência e tradições de seu país. As cenas dele domando seus estudantes é uma lição cinemática sobre a prática do Poder. Roteiro melhor, Cannes não viu, sobretudo em seu paralelo com a discussão existencial – e com a estrutura – proposta por Miller para o teatro. Mas o que mais impressiona é o método preciso de direção de atores adotado por Fahadi. Hosseini alcança uma dimensão cênica – e plástica – raras vezes vista no cinema. É o melhor trabalho de atuação masculina de Cannes. Domingo serão anunciados os ganhadores da Palma de Ouro, tendo o brasileiro Aquarius entre seus favoritos, apoiado no vulcão Sonia Braga.

 

p.s.: Não caia na esparrela digna de xenofobia na qual alguns colegas de Jornalismo aqui adotaram de dizer que Fahadi se “vendeu ao sistema” ao escolher uma peça americana para seu roteiro. É hora de crescer, gente.

 

p.s.2: The Last Face, de Sean Penn, é um poema humanitário. É filme-ONG assumido. E preserva sua dignidade por isso, pelo empenho de seus atores (Charlize Theron e Javier Bardem) e pela inquietação altruísta de seu realizador, que merecia, no mínimo, respeito, por todos os grandes filmes em que atuou.