O belo ‘Belfast’ tem data pra estrear no Brasil

O belo ‘Belfast’ tem data pra estrear no Brasil

Rodrigo Fonseca

07 de fevereiro de 2022 | 13h13

RODRIGO FONSECA
Tá na Ingresso.Com: dia 10 de março, “Belfast” estreia comercialmente no Brasil, depois de uma comovente passagem pelo Festival do Rio. E, nesta terça-feira, seu nome deve pulular em muitas categorias, quando os indicados ao Oscar 2022 forem anunciados, lá pelas 10h, via Los Angeles. Ele é o favorito ao prêmio de melhor roteiro original. Venceu nessa frente no Globo de Ouro, em janeiro. É uma trama inspirada na vida de seu diretor, Kenneth Branagh, hoje com 61 anos. Laureada com o prêmio de júri popular no Festival de Toronto, em setembro, esse dulcíssimo “Amarcord” do shakespeariano ator e realizador de “Hamlet” (1996) já ganhou outras 37 láureas. E só faz contabilizar adjetivos elogiosos por onde passa.

Tocante, “Belfast” sobrevive de três belas sequências, onde o virtuosismo da fotografia PB de Haris Zambarloukos beira a excelência plena. Duas dessas sequências são ligadas ao chamado The Troubles, movimento separatista que cindiu a Irlanda do Norte de 1960 (quando a trama se passa) a 1998, numa divisão entre católicos e protestantes que ia além de credos, resvalando por elementos de ocupação espacial. E o terceiro grande momento dessa enxuta (98 minutos) dramédia memorialista envolve uma situação de canto e dança. Situação esta na qual Jamie Dornan dá 50 tons de cinza (e de carisma) ao preto e branco que traduz as recordações de Branagh. É, de longe, o melhor trabalho de direção do autoproclamado emissário de Shakespeare na Terra. E olha que ele acertou muito (“Como Você Quiser”; “Thor”; “Assassinato no Expresso do Oriente”; e “A Pura Verdade”) desde então. Há, sim, um gosto de uma formatação genérica nesse seu novo trabalho, com conexões um tanto quanto forçadas com as cartilhas de “Como Era Verde Meu Vale” (1941), do belo “Esperança e Glória” (1987) e mesmo do pouco citado “Terra de Sonhos” (2002). Mas seu visual arrebatador, no equilíbrio de matizes do preto e do branco e do requinte dos enquadramentos, que suplanta o sabor de “já vi isso aí”, no canto da boca. E o charme com que Ciarán Hinds interpreta um avô batuta para o menino Buddy (Jude Hill), o alter ego de Branagh, humaniza uma narrativa que segue as angústias de uma família – narradas pelo olhar do caçulinha – achatada por um esboço de guerra civil armado em sua vizinhança.

Escolhidas com uma precisão cirúrgica, de modo a estabelecer conexão com a dramaturgia, as canções de Van Morrison que inundam a trilha sonora de saudosismo são um acerto a mais na narrativa do diretor de “Voltar a Morrer” (1991). É possível que tenha chegado a hora de Branagh levar um Oscar para casa, dando a Dornan um prestígio que ele ainda não tem – como ator, para além do status de galã -, catapultando ainda a (tremenda) atriz irlandesa Caitriona Balfe ao estrelato.

p.s.: Se existe um filme capaz de traduzir com exatidão e alegria o que é viver no subúrbio do Rio de Janeiro, esse longa é “Tô Ryca 2”, uma deliciosa comédia que o Pedro Antonio fez, a partir do roteiro azeitado de Fil Braz. Bicho, Pedro dirige humor com um timming que é uma beleza. É um analgésico pra males do fígado.

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