O ‘Baixo Esplendor’ de ‘O Invasor’

O ‘Baixo Esplendor’ de ‘O Invasor’

Rodrigo Fonseca

12 de junho de 2021 | 08h30

RODRIGO FONSECA
História de um amor atravessado pelo crime, envolvendo a irmã de um assaltante de cargas e um agente infitrado, “Baixo Esplendor”, de Marçal Aquino, é não apenas o livro do ano, até agora, como se candidata ao posto de presente ideal para o Dia dos Namorados. Numa belíssima edição da Cia das Letras, esse romance de tons policiais, ambientado nas franjas da ditadura militar, nos anos 1970, evoca toda a potência do histórico de Marçal nas Letras e nas telas. No cinema, sua glória maior é “O Invasor” (2001). Antes dele foi “Os Matadores” (1997), resgatado em recente mostra do Grupo Estação.
Laureado com 27 prêmios internacionais, incluindo a láurea de Melhor Filme Latino-Americano do Festival de Sundance de 2002, “O Invasor”, um dos maiores marcos do thriller social no cinema brasileiro de todos os tempos, voltou à tela grande na 43ª Mostra de São Paulo, no que foi uma das projeções de maior sucesso do evento paulistano em 2019. Seu diretor, Beto Brant, foi um dos jurados da maratona cinéfila paulista deste ano, ao lado da atriz e diretora Maria de Medeiros (Portugal), da produtora Xénia Maingot (França) e do cineasta Lisando Alonso (Argentina). O realizador lançou seu último longa, o .doc “Pitanga”, codirigido pela atriz Camilla Pitanga, em 2016, na própria Mostra. Seu nome é até hoje reverenciado – e com todos os mérito – como um dos realizadores que reinventaram a representação da brasilidade nas telas, seja falando da violência, seja falando de afetos fraturados. Mas “O invasor” ainda é seu trabalho de maior glória, firmando sua parceria com Aquino.
Quando se contabilizam, na história do cinema brasileiro, os tipos que se cristalizaram no imaginário popular, a porção rural de nossa cinematografia ganha de lavada dos filmes urbanos, à força de tipos como Jeca Tatu e Pedro Malazartes (ambos de Mazzaropi) ou o Augusto Matraga de Leonardo Villar. Mas a cinematografia nacional urbana, que tem uma Geni (de “Toda nudez será castigada”) aqui e um Pixote acolá, ganhou um reforço bem-vindo com a chegada de Anísio, o homem mau de “O invasor”. Seu jeitão caricato, seu olhar aquilino, faz lembrar os velhos vilões que davam dor de cabeça ao detetive Dick Tracy, nas tiras produzidas por Chester Gould. Perto dele, Flattop, Pruneface e qualquer outro bandidão das HQs de Tracy parecem menos assustadores do que um bebê de colo. Mas se a conversa entrar quadrinhos adentro, há outra alusão mais interessante a ser feita com o personagem vivido por Paulo Miklos. Há uma célebre seqüência na minissérie gráfica “O Cavaleiro das Trevas” (“Batman: The Dark Knight”, 1986) em que o Homem-Morcego, já sessentão, estressado e cheio de ódio, sai no braço com o Super-Homem, amparado por uma armadura. No meio da luta, aproveitando-se do fato de o Homem de Aço ter sido atingido por uma flecha de Kriptonita, Batman agarra a garganta de seu (outrora) colega de super-heroísmo e a aperta. De repente, o defensor de Gotham City começa a sofrer um colapso cardíaco, um infarto. Mas nem morrendo ele desiste de apertar o pescoço do último filho de Kripton. Sua justificativa: “Eu quero que todo o mundo saiba que eu fui o único homem que derrotou você”, diz Batman, instantes antes de seu batimento cardíaco cessar. É mais ou menos essa a relação de Anísio com a classe média do longa-metragem de Beto Brant. A mão na garganta que agoniza. Até a margem do colapso. O colapso social brasileiro. A partir de uma sólida armação narrativa ofertada pelo roteirista Marçal Aquino, Brant confirmou em seu terceiro longa-metragem toda a expectativa que se formou ao redor de seu nome no fim dos anos 1990, quando seu trabalho de estréia, “Os matadores”, começou a rodar os principais festivais brasileiros. Mais do que a mobilização que criou em torno da possibilidade de se contextualizar sociologicamente a relação entre exclusão e violência, seu “O invasor” conseguiu um feito raro: imortalizou um personagem. Um tipo que sintetiza o desgoverno da balança ética nacional. Anísio, um matador de alugel, vive dias de monarca quando resolve chantagear seus contratantes. Freqüenta os apartamentos mais ricos. Curte as baladas paulistanas com a filha riquinha de sua vítima. Come, bebe, fuma, toma ácido, transa… enfim, goza. Goza todos os prazeres de uma monarquia fugaz, cujo prazo de válidade ele, escolado nas ruas, sabe ser curto. Rei morto, rei posto. É a lei da sobrevivência das espécies no poder. E os assassinos empreiteiros não estão livres dessa. Nem o espectador, que é obrigado a conviver com a hipótese de que há um alien da periferia, um oitavo passageiro feroz, na navilouca chamada classe média.

O magma do filme reside extamente na transcendência de sua condição de conto moral. “O invasor” aborda o despreparo das camadas sociais que enriqueceram avessas às contradições dos que pegam ônibus lotado, metrô abarrotado, esquivam-se de balas perdidas no caminho de casa e suam a camisa para arcar com o pão, o alugel, a conta de luz e o que mais houver de obrigação legal a ser quitada. “O invasor” dá um arrocho na classe média a partir de um maquiavélico engenho discursivo, a partir do qual a platéia se deixa seduzir por um Nosferato de comunidade, até perceber que as presas mais afiadas e sedentas de sangue não estão na boca do vampiro, e sim sob os lábios temerosos do próprio público. Quando cria uma relação especular, mediada pela consciência pesada, o filme de Beto Brant já deixou seus interlocutores, do lado de lá da tela grande, reféns da surpresa. Como devem ser as melhores tramas de mistério. Sem a necessidade de filmar um tiro sendo disparado, Brant conseguiu realizar um ensaio sobre a genealogia da moral em que o crime e a sociedade se relacionam revezando-se nos papéis de cordeiro e de ave de rapina: a medida de um é a medida do outro. A epiléptica fotografia de Toca Seabra ajuda a compor esse tratado sobre a razão cínica que leva dois empresários – Ivan (Marco Ricca) e Giba (Alexandre Borges) – a apertarem a mão de Anísio, em um acordo mefistofélico, cujo preço nem a alma de Fausto seria capaz de compensar. O custo do acordo de morte assinado entre os construtores que encomendam o assassinato de seu sócio será pago por você, por mim, por todos nós. Pelo menos até quando a mão de Anísio estiver esganando a classe média, muda demais em sua polifonia de prantos, para clamar por socorro.

p.s.: Com roteiro de Pedro Henrique Lopes e direção de Diego Morais, o experimento cênico “Transe”, que estreia dia 17 de junho, reflete sobre a construção de nossa imagem e tabus que envolvem a sexualidade e a saúde mental. O drama acompanha a história de um garoto que cria um personagem de si mesmo ao entrar na prostituição. O roteiro é baseado em relatos reais de garotos de programa e suas experiências na criação de múltiplos personagens para exercer a profissão. Em cena, estão Pedro Henrique Lopes e Oscar Fabião. “Quis criar uma trama de embate entre duas personalidades, sem cair no óbvio do conflito maniqueísta entre o anjinho e o diabinho. Colocamos em oposição momentos diferentes da carreira do protagonista, como o começo cheio de pudores, quando ele tinha medo de dar vazão aos desejos, até uma fase mais libertina e liberta. E questionamos o quanto as nossas inseguranças nos impedem de viver como queremos”, analisa o autor e ator Pedro Henrique Lopes. O espetáculo fica disponível gratuitamente entre 17 de junho e 18 de julho, com ingressos gratuitos retirados pelo Sympla (https://www.sympla.com.br/transe__1226473).

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