‘O’ baile deste carnaval é audiovisual

‘O’ baile deste carnaval é audiovisual

Rodrigo Fonseca

14 de fevereiro de 2021 | 12h27

Lázaro Ramos é o protagonista de “O Grande Kilapy”, filme do angolano Zezé Gamboa

RODRIGO FONSECA
Não rola pular carnaval este ano, não apenas pelo terror imposto pela pandemia, mas por respeito aos doentes de covid-19, o que torna o cinema a maior folia desta temporada. Confira a seguir uma lista de bons filmes em oferta na streaminguesfera e na TV.

O GRANDE KILAPY (2012), de Zezé Gamboa, no GLOBOPLAY: Lázaro Ramos transborda carisma no papel do Robin Hood de Angola, João Faria, o “Joãosinho das Garotas”, funcionário público famoso na Luanda dos anos 1960 e 70 por desviar rios de dinheiro dos cofres públicos de Angola. Parte do que desviava custeava seus caprichos (carros, mulheres e farras). A outra parte, bancava seus amigos ligados à luta pela emancipação de seu país em relação ao domínio lusitano. Lançada no Festival de Toronto, em 2012, esta coprodução Angola-Brasil-Portugal, orçada em € 2 milhões, teve em sua equipe um dos maiores diretores de fotografia da História do cinema: o italiano Mario Masini, cujo currículo inclui “Pai patrão”, dos irmãos Taviani (Palma de Ouro em 1977).

GERÔNIMO: UMA LENDA AMERICANA (“Geronimo: An American Legend”, 1993), de Walter Hill, na NETFLIX: Egresso da Nação Cherokee, Wes Studi tem uma atuação memorável neste faroeste escrito por John Milius (diretor de “Conan, o Bárbaro”), indicado ao Oscar de melhor som. A trama recria os feitos humanistas do indígena Gerônimo (1829-1909) para defender sua população, os Apaches, dos abusos do governo americano. Sob os auspícios do tenente Charles Gatewood (vivido pelo sumido Jason Patric), Gerônimo (Studi) lidera um levante em prol dos direitos dos povos originários. A sequência inicial, com o herói provando o quão certeira é sua mira, no manuseio do rifle, é de elevar temperatura e pressão.

ZAMA (2017), de Lucrecia Martel, na MUBI: No quarto longa da diretora de “A Menina Santa” (2004), Zama, um nobre inspetor da Coroa de Espanha, interpretado por Daniel Giménez Cacho (de “Má Educação”) no limite da contenção de gestos, é a única pedra no caminho do mecanismo de corrupção estabelecido entre a metrópole e suas colônias. Isso se dá num século XVIII maculado por banditismos sociais. Não é da natureza inercial dele combater os corruptos. Contudo, sua retidão no dever atrapalha a demanda por vista grossa feita por seus superiores. E embora saiba se adaptar às necessidades do meio, pela sobrevivência dos fortes e a resignação dos fracos, Zama é a encarnação do burocrata kafkiano: leva às últimas consequências as exigências que as engrenagens da máquina do Poder necessitam para sobreviver. Mas sabe que isso irrita aqueles que, longe da Europa, estabeleceram um estado de exceção do Mal, ou seja, o Estado da Propina, da Derrama, de Caixa Dois. Esta expedição ao passado colonial das Américas, organizada a partir de uma exuberante engenharia visual na fotografia do português Rui Poças e na direção de arte da pernambucana Renata Pinheiro.

O BARCO – INFERNO NO MAR (“Das Boot”, 1981), de Wolfgang Petersen, às 22h, no TCM: O cinema alemão arrancou sorrisos de exibidores de todo o mundo e conquistou seis indicações ao Oscar, incluindo o de melhor direção, com estre claustrofóbico thriller de guerra sobre a tripulação de um submarino germânico que, no auge da Batalha do Atlântico, contra a armada britânica, em 1942, começa a rever suas posições políticas, assolada pelo horror, farejando o abandono de seus governantes. Jürgen Prochnow virou um astro tipo exportação com o sucesso do longa.

BYE BYE BRASIL (1979), de Cacá Diegues, no GLOBOPLAY: Escalado para um debate nesta segunda, às 20h, no YouTube da Associação Brasileira de Cinematógrafos (ABC), para falar de “Orfeu” (1999), o imortal da ABL Carlos Diegues brilha no streaming da Globo com “Deus É Brasileiro” (2003) e com este genial road movie sobre as incongruências sociais do país. José Wilker (1946-2014) arrebata corações e mentes no papel de Lorde Cigano, mágico que lidera a trupe circense Caravana Rolidei. Em seu caminhão vão a dançarina Salomé (Betty Faria) e um Maciste chamado Andorinha (Príncipe Nabor), conhecido por seus músculos de aço. A eles se juntam o sanfoneiro Ciço (Fábio Jr.) e sua gravidíssima mulher, Dasdô (Zaira Zambelli). Brasil adentro, nos calcanhares de Altamira, na Região Norte, essa turma vai aprender o valor da lealdade numa narrativa sensual, indicada à Palma de Ouro em Cannes.

“O HOMEM DO BRAÇO DE OURO” (“The Man With The Golden Arm”, 1955), de Otto Preminger, na AMAZON PRIME: Frank Sinatra concorreu ao Oscar por seu desempenho como um ás do carteado assolado por um vício em heroína neste drama do realizador de “Laura” (1944), embalado nos acordes de uma das mais belas trilhas sonoras de Elmer Bernstein. A fotografia de Sam Leavitt decanta o preto e branco numa composição visual hipnótica.

José Wilker como Lorde Cigano

O AVIADOR (“The Aviator”, 2004), de Martin Scorsese, à 1h, na GLOBO: Leonardo DiCaprio foi agraciado com o Globo de Ouro por seu desempenho interpretando o cineasta e magnata da aviação Howard Hughes (1905-1976). A produção de US$ 110 milhões arrecadou US$ 213,7 milhões e faturou os Oscars de melhor figurino (Sandy Powell), direção de arte (Dante Ferretti e Francesca Lo Schiavo), montagem (Thelma Schoonkamer), fotografia (Robert Richardson) e atriz coadjuvante, dado à australiana Cate Blanchett, pelo papel de Katherine Hepburn. Miriam Ficher dubla Cate com toda a sua potência trágica de grande atriz. Já DiCaprio ganha a voz, a ironia e a inteligência de Christiano Torreão, um dublador capaz de perceber cada sutileza de um diálogo.

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