O auto de um Brasil chamado Jackson Antunes

O auto de um Brasil chamado Jackson Antunes

Rodrigo Fonseca

03 de maio de 2021 | 12h34

Jackson Antunes tem uma atuação comovente em “O Auto da Boa Mentira”, já em cartaz

Rodrigo Fonseca
Sintonizado com a agilidade do chamado “omnibus film”, ou “cinema multi-narrativa”, termo usado para classificar longas-metragens em segmentos, num formato estetizado a partir de 1930, com “Paramount em Grande Gala”, e mais lembrado por “Relatos Selvagens” (2014), o lépido “O Auto da Boa Mentira” se configura como um mosaico de variadas brasilidades, cerzido sob a estética picaresca de Ariano Vilar Suassuna (1927-2014), tendo muitos ímãs para atrair o olhar do público. Com seu colorido terrígeno, amplificado nas lentes da fotógrafa Kika Cunha, a direção de arte de Daniel Flaksman (em sua cenografia de maior encantamento) é o anzol plástico para fisgar atenções para o trabalho mais solar de José Eduardo Belmonte na direção. Acostumado a cartografar precipícios (“Meu Mundo Em Perigo”), esquadrinhar traições (“Entre Idas e Vindas”) e edificar uma geopolítica de solidões (“Gorila”) e inventariar cicatrizes (“Se Nada Mais Der Certo”), o prolífico realizador – associado à excelência do cinema brasiliense dos anos 2000 – faz rapel na pedra do reino de Suassuna, buscando clareiras e vales onde o sol da esperança ainda ilumina relações afetivas. Nessa escalada, Belmonte acerta ao pisar nas rochas da surpresa. Garante uma volta às câmeras de Carlos Gregório, o brilhante protagonista de “Baixo Gávea” (1986), há tempos dedicado a roteiros, num papel com ares de James Stewart. Testa os dotes cômicos de Renato Góes e arranca um “Primo Cruzado” de um jovem ator que vai muito além da arquetipia de galã. Oferece à atriz Nanda Costa um papel de femme fatale no qual ela esbanja inteligência cênica. E ainda brinca de metalinguagem com o gigante Leandro Hassum, dando a ele (mais) uma chance de mostrar como se despedaça expectativas, no risco em que só um astro rei (como ele é) poderia incorrer. Kika fotografa cada vértice do poliedro suassúnico de Belmonte sem jamais saturar luz, respeitando as especificidades de cada trama escrita por Tatiana Maciel, João Falcão e Célio Porto. A história de um gringo que mente para um chefe do tráfico em nada se assemelha com a festa da firma onde uma estagiária, Lorena (Cacá Ottoni, que entra em cena qual um sol, iluminando o eixo final de som e de fúria), desafia a miopia de seu chefe (Luís Miranda), ao citar Albert Camus e questionar a relevância da viagem à Disney para a formação moral de indivíduos. Mas na representação do Brasil como um picadeiro, feita por Ariano em sua dramaturgia, sua prosa e sua oralidade marota, o Sistema Solar gira, numa translação da Beleza, não em volta de planetas, mas em torno dos palhaços. E nesse exercício felliniano de Belmonte, há um clown, Romeu, que nos arrebata por sua capacidade de fazer sínteses do Brasil a cada sorriso, vivido por um pierrô mineiro: Jackson Antunes. No episódio protagonizado por Góes, sobre um jovem que, quando menino, acreditava ter um pombo em seu ouvido, Antunes encampa o papel de fazer graça em uma trupe circense itinerante, maquiado como Carequinha. Existe uma suposta conexão entre Romeu e o personagem de Góes que não pode (nem deve) ser revelada para quem não viu o filme, numa notícia trazida pela figura interpretada (nas raias do mistério) por Carlos Gregório. Mas essa tal relação conta menos do que o leque de vivências de Brasil sintetizadas na maneira (sempre carismática) de Antunes atuar. Revelado ao país, na TV, em 1993, como Damião, em “Renascer”, ele chamou atenção por sua semelhança física com Charles Bronson (1921-2003). Chegou a reproduzir todo o desejo de matar do astro americano no thriller “Confronto Final” (2005), um dos melhores filmes de ação (puro sangue mesmo) já feitos nas Américas, dirigido por Alonso Gonçalves. Nos cinemas, Antunes bebeu do misticismo amazonense em “A Festa da Menina Morta” (2008); traduziu provincianismos regionais em “O Concurso” (2013); e espelhou toda a poesia da paternidade em “Mais Forte que o Mundo: A História de José Aldo” (2016). Na TV, foram muitas novelas, indo da bestialidade (“A Favorita”) à doçura (“Império”). Mas houve um momento de apogeu em sua trajetória artística no qual ele se vestia de lirismo: o especial de TV “O Poder da Arte da Palavra”, adaptação de conto de João Ubaldo Ribeiro, feita pelo próprio autor em parceria com Geraldo Caneiro, dirigido por Tizuka Yamasaki. Ali, no papel de Robério Augusto, o bardo nascido há 67 anos em Janaúna (MG) dava vida a um trovador que recorria a Álvares de Azevedo, Dante Alighieri, Augusto dos Anjos e William Shakespeare para seduzir uma cidadezinha e desabrochar uma rosa grandona com nome de flor, Margarida (Maria Luiza Mendonça). Essa é uma joia do acervo da Globo de 1994. Mas Romeu, qual Robério, é, à sua maneira, um artista de trovas, também capaz de deixar desabrochar poesia no coração de um Brasil fustigado de incertezas. No circo de Belmonte, ele faz de “O Auto da Boa Mentira” um ritual de catarses, um filme pra ser ver de mãos dadas (sem aglomerações), um longa pra se guardar na memória, um atestado do quanto Jackson Antunes melhora nossas vidas.

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