O artista Hazanavicius e a fantasia

O artista Hazanavicius e a fantasia

Rodrigo Fonseca

20 de janeiro de 2020 | 08h11

Rodrigo Fonseca
Mundialmente consagrado pelo Oscar conquistado por “O Artista” (2011), Michel Hazanavicius tem este ano pela frente a tarefa de transformar uma produção de € 20 milhões em um dos filmes mais vistos do ano na Europa (e, se sua estrela de boa sorte ajudar, no mundo): “Le Prince Oublié”. Ajuda um bocado a presença de Omar Sy (“Intocáveis”) no papel principal: um pai que precisa aprender a lidar com o ninho vazio, pelo desapego de sua filha adolescência, enquanto se despede do universo de fábulas que inventou para encantá-la. Há nele um outro chamariz de peso: uma série de efeitos visuais atípicos para o padrão atual do cinemão do Velho Mundo. Com estreia maracada para 29 de janeiro, como uma promessa de salas lotadas, esta aventura sobre o amor paterno virou o principal fenômeno midiático do 22º Rendez-Vous Avec Le Cinéma Français, fórum organizado (anualmente) pelo governo francês com o ideal de propagar a produção local pelo mundo. A maratona cinéfila termina hoje, com a passagem do veterano Claude Lelouch. O centro nervoso do evento é o L’Hotel du Collectionneur, em Paris, onde Hazanavicius abriu o papo com o Brasil perguntando sobre o discurso de Roberto Alvim, na última quinta, com referências a conceitos nazistas.
“Que loucura o que está se passando no Brasil, pois o discurso dele parecia algo furioso, mas doutrinário. Espero que vocês resistam. Contar histórias é muito importante nessa hora, pois elas nos permitem dar um passo a mais e enxergar tudo”, diz Hazanavicius ao Estadão P de Pop. “Na França, não temos orçamentos como os da Pixar, cujos filmes foram uma das minhas inspirações. Fiz um “family film” aqui. E se esta mesma história fosse refeita nos EUA, ela, com certeza, custaria mais. Mas tentar fazer o melhor possível, criando um universo de fantasia em forma de um estúdio de cinema, como se fosse uma Paramount, ou algo assim. Sou pai, tenho quatro crianças, sendo que algumas delas já não são mais pequeninas, e, portanto, percebo a melancolia da maturidade de nossos filhos. Foi com meu caçula a uma projeção que a gente organizou e ele ficava me cutucando pra dizer: ‘Ah, esse pedaço é inspirado em você’. Talvez fosse, inconscientemente, pois o que me atraiu para o roteiro foi a minha familiaridade com essa vivência de pai”.

Michel Hazanavicius volta às telas no dia 29 de janeiro com “Le Prince Oublié”, maior destaque do 22º Rendez-Vous Avec Le Cinéma Français, em Paris

Livro sobre bastidores do Holocausto inspira o próximo projeto do diretor: um desenho animado

Aos 52 anos, casado com a atriz Bérénice Bejo, Hazanavicius prepara, em paralelo, um longa de animação, “La plus précieuse des marchandises”, baseado na prosa de Jean-Claude Grumberg, sobre os bastidores do campo de concentração de Auschwitz, na luta de um jovem para sobreviver ao Holocausto. “Vai ser um desenho em 2D, sem preocupação de inovar o modo como se anima. Não é algo ‘novo’ que eu busco, é algo ‘vivo’, que emocione. Quando mostrei o projeto pra Bérénice, ela me disse que seria uma loucura fazer um filme animado de uma história tão dura. Mas aí eu pensei: o desafio está aí, em buscar algo que possa ser belo na arte de resistir ao Inferno”, diz o cineasta, que ganhou prestígio na indústria da França com a franquia “Agente 117”, com Jean Dujardin. “Aquilo era a desconstrução total do herói clássico, quebrando a questão do mito heterossexual masculino infalível. E foi engraçado. Agora, em ‘Prince Oublié’, com Omar Sy, um homem de uma doçura extrema, a busca é outra. Quero o heroísmo do dia a dia”.

p.s.: Na lista de filmes europeus com fôlego para prêmios, previstos para estrear daqui até dezembro, “Petite Fleur”, coprodução francesa pilotada pelo argentino Santiago Mitre, vem arrebatando a curiosidade de quem passa pelo Rendez-vous da Unifrance. Nela, o diretor de “A Cordilheira” (2017) põe o uruguaio Daniel Hendler na pele de um fã de jazz que mantém um estranho ritual diário: todo dia ele mata seu vizinho… o mesmo… que renasce a cada manhã.

p.s.2: “The Grudge”, de Nicolas Pesce, a nova versão de “Ju-On” (2002), de Takashi Shimizu, é muito melhor do que prometia, com a inglesa Andrea Riseborough vivendo uma policial sob ataque do Além.

p.s. 3: Virginie Efira pode levar todos os prêmios da Europa este ano por “Benedetta”, de Paul Verhoeven, que deve fazer sua estreia no Festival de Cannes, em disputa pela Palma de Ouro. Ela vive uma freira das Renascença que desenvolve poderes sobrenaturais. Mas sua paixão carnal por mulheres fará dela um alvo da inquisição.

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